Faltando menos de 15 dias para o 1º turno das eleições, ainda existem eleitores que não decidiram o seu voto para o governo do estado. O Plural foi atrás dessas pessoas para entender o que motiva a indecisão e o que é decisivo na hora da escolha do candidato.
De acordo com a pesquisa TMC-Alfa divulgada na última quinta-feira (17), cerca de 33% do eleitorado paranaense não se decidiu ou pode mudar o voto até a eleição. Conforme a pesquisa, 18% dos eleitores afirmam que ainda podem mudar de voto e outros 15% dizem que não decidiram seu candidato. Bruno, José e Letícia fazem parte desses grupos.
Seu José Aparecido Paiva, 67 anos, pardo, comerciante ambulante e eleitor em Curitiba, faz parte dos 18% que embora tenham um candidato mais provável ainda avaliam outras candidaturas. “Esse ano estou indeciso em tudo. Estou indeciso, para presidente e governador. A política não está assim muito limpa, anda muito suja. Apesar disso, o Paraná teve bons representantes, mas essa divisão e escândalos não me deixam ter certeza. Assim eu já estou meio decidido, mas meu voto ainda pode mudar até a eleição”, comenta Paiva.
Quando questionado o que faltaria para a dúvida se tornar certeza, o motivo é: tempo para avaliar as candidaturas. “Ainda faltam alguns dias, estou acompanhando pela televisão as propostas e vendo o que os candidatos falam, como eu disse tenho uma inclinação, mas ainda não tenho certeza sobre o meu voto”, diz Paiva.
O processo contrário também acontece. Bruno Camargo, 30 anos, artista pesquisador, branco e homossexual, está no grupo dos 15% que ainda não decidiram seu voto e não possuem uma inclinação. Na verdade, a única certeza de Camargo é em quem não votar. “Eu morei por 10 anos na Itália, eu voltei para cá há poucos meses. Então, eu estou bem alheio, assim, à política do Brasil. Na eleição de presidente eu cheguei a votar lá na Itália, no consulado, mas como não se vota para governadores fora do país, eu estou assim, super por fora dos candidatos. Eu sei um candidato que não vou votar por conta do partido, mas o resto, assim, eu não sei muito bem, eu confesso que eu não fiz muita pesquisa, até pelo fato de eu estar aqui há muito pouco tempo. Ainda não me familiarizei direito, assim, com a situação política do Paraná”, comenta.
Já para Letícia Marochi Prado, 46 anos, branca, analista contábil que também está no grupo dos 15% sem voto definido, o motivo da incerteza é mais próximo ao de Paiva: “O cenário político tanto aqui quanto o Brasil não dá segurança nenhuma de votar. As pessoas são colocadas como loucos no meu ponto de vista, né? O radicalismo é extremo, é um atacando outro, outro atacando um. E isso me deixa insegura com tudo, principalmente esse radicalismo de direita, esquerda, centão. Acho que deveria ter pessoas que se candidatam não pelo bem próprio, mas pelo bem do todo, da população. Como isso não vejo em lugar nenhum e também não vou votar em gente que está envolvida em corrupção”.
Para o professor Marcos José Zablonsky – relações públicas, especialista em opinião pública e professor da Escola de Belas Artes da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR), o alinhamento político dos candidatos também é motivador para a indecisão. “O primeiro ponto que aparece é que nós temos dois candidatos do mesmo espectro ideológico, dos mesmos interesses, e seguem a mesma abordagem. De um lado, temos o Requião, mais progressista da esquerda e apoiado pelo PT. Do outro lado, temos o Moro do PL, que tem um alinhamento com o Bolsonaro, e também o candidato do governador Ratinho, Sandro Alex, que tem alinhamento com o grupo do Bolsonaro. Então, nesse caso, esses indecisos é que aparecem nesse número alto. A minha percepção é que esses candidatos estão disputando o mesmo eleitor. Só que o que vai acontecer nas próximas duas semanas é aparecer algo que possa transformar isso em voto útil”.
O professor acrescenta ainda que, mesmo com propostas apresentadas, o eleitor indeciso muitas vezes é mais esclarecido e informado, e não quer ser enganado por falsas promessas ou questões inviáveis.
Questionados sobre se pretendem chegar às urnas já com voto definido, as respostas divergem. Paiva acredita que conseguirá definir seu voto até 4 de outubro. “Como eu já estou meio decidido, acho que nos próximos dias eu já vou ter a certeza. Até porque é só nessa eleição que eu ainda tenho dúvidas, nas outras eu já tinha definido. Então nos próximos dias eu devo ter certeza.”
“Eu tenho um pouco esse pensamento, uma filosofia minha, assim, não só minha, de muitas pessoas. Eu acho que votar em branco é uma alternativa interessante. Eu penso que se muitas pessoas votassem em branco, talvez fosse necessário rever todo o sistema político. Mas essa eleição é muito decisiva, então talvez eu vá deixar de lado essa questão”, explica Paiva, que acrescenta que nos próximos dias deve conversar com amigos e pessoas próximas que tenham valores semelhantes aos seus para entender melhor o cenário político, além de fazer sua própria pesquisa para definir o voto.
Já Prado revela a insegurança de chegar na hora do pleito ainda sem voto definido: “Se duvidar eu vou estar sem o número da colinha dos candidatos quando tiver na urna. É verdade que tá difícil, eu tô avaliando desde que começou toda essa bagaceira aí, que eu acho uma perda de tempo impressionante, principalmente horário político. Mas a gente vem avaliando, vem correndo atrás e tá difícil. Eu não sou nem direita, nem esquerda, não compro briga de ninguém, então tá difícil.”
Apesar das diferentes trajetórias e motivações, os depoimentos de Paiva, Camargo e Prado revelam um traço comum: a dificuldade de se posicionar diante de um cenário político marcado por polarização, descrédito e excesso de promessas. Com cerca de duas semanas para o pleito, esses eleitores devem acompanhar os candidatos e realizar pesquisas próprias para identificar se as propostas apresentadas realmente dialogam com suas preocupações em relação ao estado.
Essa é a primeira matéria de uma série de reportagens sobre os indecisos, que vai acompanhar esses eleitores até a hora da votação. A intenção da reportagem não é induzir os entrevistados a decidirem seu voto, e só revelará o voto dos participantes caso eles autorizem.