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Cresce a participação evangélica nos contratos da Prefeitura de Curitiba

De três contratos em 2017 a 23 contratos em 2025 e 2026, entidades de matriz protestante e pentecostal multiplicaram a presença na rede de convênios da Prefeitura

Cresce a participação evangélica nos contratos da Prefeitura de Curitiba
Foto: Marcelo Harassen do Ó / Unsplash

A participação de entidades evangélicas nos contratos da Prefeitura de Curitiba com instituições religiosas vem crescendo de forma consistente desde 2019 e acelera nos últimos dois anos, mostra levantamento do Plural com base no Portal da Transparência da capital paranaense.

Em 2025 e 2026 a Prefeitura ampliou o leque de instituições para além da educação infantil — terreno tradicional do convênio com creches — e levando obras evangélicas para áreas de direitos humanos, esporte e assistência social.

No acumulado de 2017 a 2026, 19 instituições evangélicas distintas assinaram 61 contratos com a Prefeitura, somando R$ 100,5 milhões em valor declarado. Em 2017, eram três entidades evangélicas firmando convênios; em 2025 e 2026 já são 23 contratos novos com obras de matriz protestante, em mais de uma dezena de denominações distintas.

A virada de 2025–2026

Os dois últimos anos marcam o melhor momento histórico das evangélicas nas parcerias com a Prefeitura. Em 2026 (com dados até 12 de maio), foram cinco contratos com entidades dessa orientação, somando R$ 29 milhões — 32,7% de tudo o que a Prefeitura contratou com religiosas no ano, a maior participação relativa da série histórica. Em 2025, foram 18 contratos evangélicos, em grande parte concentrados na Secretaria Municipal de Direitos Humanos (SMDH).

Desde 2025, a Secretaria Municipal de Direitos Humanos está sob a gestão do NOVO. A pasta foi liderada até recentemente pela vereadora Amália Tortato (NOVO) e assumiu parte das atividades da Fundação de Ação Social (FAS). Tortato renunciou ao cargo para voltar a Câmara Municipal e poder disputar as eleições deste ano.

Ano Contratos evangélicos Valor (R$) % do total religioso no ano
2017 3 0 0,0%
2018 0 0 0,0%
2019 11 27.890.417 20,5%
2020 3 0 0,0%
2021 11 7.626.117 32,0%
2022 3 1.394.355 2,3%
2023 7 25.629.396 19,5%
2024 0 0 0,0%
2025 18 8.981.810 12,3%
2026* 5 28.975.838 32,7%

2026 parcial, até 12 de maio.

Quem entrou (e quem cresceu) pela porta da frente

Os novos contratos identificados em 2025 ou 2026 com instituições evangélicas são do Lar Batista Esperança (Igrejas Batistas), Confederação Evangélica de Assistência Social do Paraná, Instituto Peniel Sem Fronteiras (vinculado à Missão Mundial Peniel), Irmandade Evangélica Betânia, Associação Ministério Evangelístico Livres (AMEL) e a Igreja Evangélica Ágape.

Outras duas entidades já antigas na rede de convênios conseguiram aumentar os valores contratados:

Antes dessa onda, o campo evangélico já vinha consolidando a presença com nomes como Associação Menonita de Assistência Social (AMAS), que opera seis creches em Curitiba; Obras Sociais e Educacionais da Igreja de Deus no Brasil (Mão Cooperadora, creches); Associação Metodista de Ação Social; Associação Batista de Assistência Social de Curitiba (ABASC); Comunidade Evangélica Luterana de Curitiba; Instituição Adventista Sul-Brasileira de Educação; e a JOCUM (Jovens com uma Missão), missão interdenominacional.

Para além das creches

Historicamente, os contratos da Prefeitura com igrejas se concentravam num modelo: creches conveniadas sob a Secretaria Municipal da Educação, no qual instituições privadas, comunitárias ou confessionais recebem por vaga atendida (modalidade de inexigibilidade de licitação). Esse formato responde por R$ 358 milhões dos R$ 527 milhões contratados com religiosas em todo o levantamento — 68% do total.

A novidade dos últimos anos é a diversificação dos órgãos contratantes entre as evangélicas. A maioria dos contratos firmados com evangélicas em 2025–2026 saiu da Secretaria Municipal de Direitos Humanos (SMDH), com valores menores (média de cerca de R$ 280 mil) e voltados a projetos sociais, esportivos e de juventude. Outros foram à Secretaria do Esporte, Lazer e Juventude (SMELJ). É um caminho de entrada distinto do tradicional, que abria as portas via educação infantil.

O retrato geral: católicas ainda dominam o número de contratos

O crescimento evangélico se dá num campo em que as católicas seguem dominantes em quantidade de contratos. No acumulado 2017–2026, as 37 entidades católicas (incluindo a própria Mitra da Arquidiocese, paróquias, congregações religiosas e associações leigas) firmaram contratos somando R$ 391,6 milhões — 74,3% do total destinado a religiosas. As 19 evangélicas ficam com R$ 100,5 milhões (19,1%), sete entidades cristãs sem denominação explícita com R$ 33,2 milhões (6,3%), e a Federação Espírita do Paraná aparece com um único contrato de R$ 1,75 milhão, firmado em 2019.

Orientação Entidades Contratos Valor (R$) %
Católica 37 177 391.629.158 74,3%
Evangélica 19 61 100.497.934 19,1%
Cristã (sem denominação) 7 22 33.206.387 6,3%
Espírita 1 1 1.755.782 0,3%

Mas quando se olha o pagamento, a maior é evangélica

Aqui o quadro se inverte. Para saber o que efetivamente saiu do caixa — e não apenas o que foi contratado —, o Plural cruzou os dados com a base oficial de despesas da Prefeitura, que registra empenhos, liquidações e pagamentos ano a ano. Entre 2017 e 1º de dezembro de 2023 (até onde a base permite cruzamento confiável), a Prefeitura pagou R$ 516,4 milhões a 60 entidades religiosas identificadas via CNPJ.

A maior beneficiária do dinheiro municipal não é uma entidade católica: é o Instituto Presbiteriano Mackenzie, que opera em Curitiba o Hospital Universitário Evangélico Mackenzie (HUEM) — antigo Hospital Evangélico de Curitiba, adquirido pelo Mackenzie em 2018 — e a Faculdade Evangélica Mackenzie do Paraná (FEMPAR). Entre 2019 e 2023, o Instituto recebeu R$ 235,4 milhões, em convênios sobretudo da Secretaria Municipal da Saúde para atendimentos hospitalares pelo SUS no HUEM.

Em segundo, com R$ 187,5 milhões, está a Associação Paranaense de Cultura (APC), mantenedora da PUCPR e ligada à Rede Marista — pagamentos para bolsas em cursos de saúde, contrapartidas educacionais e atendimentos hospitalares. O Hospital Nossa Senhora das Graças, mantido pela Irmandade católica de mesmo nome (Católica Apostólica Romana), aparece em terceiro com R$ 32 milhões. Somadas, essas três operações hospitalares e educacionais — duas evangélicas via Mackenzie/HUEM e uma católica via Maristas, mais o hospital N.S. das Graças — concentram 88% do dinheiro pago a religiosas no período.

# Entidade Orientação Pago 2017–2023 (R$)
1 Instituto Presbiteriano Mackenzie (HUEM/FEMPAR) Evangélica (Presbiteriana) 235.396.139
2 APC — PUCPR Católica (Maristas) 187.546.093
3 Hospital Nossa Senhora das Graças (Irmandade) Católica 31.992.935
4 Ação Social do Paraná (Restaurantes Populares) Católica (Arquidiocese) 12.180.379
5 Pequeno Cotolengo do Paraná — Dom Orione Católica (Orionitas) 11.198.186
6 Pia União de Santo Antônio — Pão dos Pobres Católica 3.162.707
7 Associação Comunitária Presbiteriana Evangélica (Presbiteriana) 2.983.498
8 ACRIDAS — Ass. Cristã de Assistência Social Cristã (genérica) 2.925.788
9 Ass. Franciscana de Educação (AFECE) Católica (Franciscana) 2.585.552
10 Lar Batista Esperança (LBE) Evangélica (Batista) 2.420.720

Hospitais SUS e PUCPR são casos à parte

Os três maiores pagamentos têm naturezas distintas e merecem leitura separada. HUEM/Mackenzie e Hospital Nossa Senhora das Graças são hospitais que atendem pelo SUS sob convênio com a Secretaria Municipal da Saúde — modelo replicado em várias capitais. A APC/PUCPR é uma universidade privada que oferece bolsas e contrapartidas, em arranjos plurianuais. Esses três casos respondem por 88% do dinheiro pago a religiosas e refletem mais a configuração da rede hospitalar privada conveniada de Curitiba do que a presença de igrejas em programas sociais.

Excluindo esses três grandes, sobram R$ 61,5 milhões pagos a 57 outras entidades religiosas — a maioria operadora de creches conveniadas, abrigos, centros de educação infantil, comunidades terapêuticas e projetos sociais financiados pela Secretaria de Educação (SME), Secretaria de Direitos Humanos (SMDH) e Secretaria de Segurança Alimentar e Nutricional (SMSAN). É nesse universo "mais comparável" que o crescimento evangélico fica mais visível — em entidades menores, várias firmadas pela primeira vez em 2025 e 2026.

Como apuramos

A apuração consolidou três bases públicas:

Contratos. Varredura de todos os arquivos publicados no campo "Contratos" do Portal Transparência Curitiba, filtrando registros assinados a partir de 1º/1/2017. Após deduplicação por número de contrato, restaram 4.631 contratos únicos, totalizando R$ 23,16 bilhões. Desses, 261 são com 64 entidades religiosas (R$ 527,1 milhões em valor declarado), classificados pelo nome do fornecedor e validados por pesquisa em fontes públicas.

Despesas. Cruzamento com a base oficial de despesas da Prefeitura com a base de dados de registros do Cadastro Nacional de Pessoa Jurídica.

Base de entidades sociais. Base de dados com lista de instituições sociais de Curitiba.

Limitações. A base de despesas tem dois problemas de qualidade. Em 2018, parte dos dados públicos contém falha no registro do CNPJ dos contratados. Em 2024, os CNPJs aparecem com apenas três dígitos visíveis. Como isso não identifica univocamente um CNPJ, descartamos 2024 do cruzamento de despesas, sob pena de imputar pagamentos indevidos. Os totais de empenhado/pago, portanto, cobrem 2017 a 2023. Os contratos firmados (lado dos contratos) seguem cobrindo 2017–2026.

Rosiane Correia de Freitas

Rosiane Correia de Freitas

Jornalista, mestre em educação e fundadora do Plural

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