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Uma semana no Grande Sertão: Veredas

Registros de uma viagem pelas terras descritas por Guimarães Rosa

Uma semana no Grande Sertão: Veredas
Paisagem de Mato Grande, área rural no Vale do Jequitinhonha. Foto: Eric Rodrigues/Plural
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Este texto integra o projeto Periferias Plurais, uma parceria entre o Plural, o Gasam e a Itaipu Binacional

Mato Grande é um lugar peculiar que não consta no mapa. É uma junção de pequenas fazendas, matas, caatingas, canaviais, engenhos e imóveis modestos. Os inúmeros e altos morros verdes atrasam a chegada do sol nas manhãs e antecipam sua despedida no céu ao fim da tarde. Barrancos e cercas dividem os espaços privados. O chão dali é uma terra fofa e avermelhada, que afunda os pés, pigmenta as roupas e marca todo o corpo. O caminho é um sobe e desce constante, a ponto de carros e motos travarem uma luta para passar.
As condições climáticas regem as dinâmicas da comunidade. Nas valetas à beira da estrada, teias de aranha comprovam os relatos de que a chuva não passa por ali no primeiro semestre do ano. Para conseguir se virar com o básico, são várias as cisternas e os metros de canos pretos que conduzem as águas do Rio Setúbal até as residências. O cenário muda nos meses de novembro, dezembro e janeiro, quando a chuva finalmente chega e não cessa. É nessa época que as famílias compram o triplo de alimentos para passar o fim de ano trancadas em casa, sem nem sequer conseguir ir até Ribeirão da Folha. Se alguém ficar doente, resta a oração.

É com esses dois parágrafos que abro o capítulo "Pedaços de histórias no Grande Sertão" em Comadre São, livro-reportagem que lanço em 11 de junho. Nesta passagem, descrevo minha ida ao Vale do Jequitinhonha, no nordeste de Minas Gerais, em busca de fragmentos de histórias e memórias familiares que se perderam na diáspora mineira rumo ao Paraná nos anos 1970.

A viagem, feita por transporte rodoviário, levou três dias para completar mais de mil e quinhentos quilômetros entre Curitiba e Mato Grande — área rural de Minas Novas. Minha missão era, em uma semana, entrevistar personagens, revisitar lugares importantes, fazer uma imersão antropológica no sertão, tomar notas e fotografar. A experiência fez parte do meu trabalho de conclusão de curso de Jornalismo na Universidade Federal do Paraná (UFPR), defendido em dezembro de 2024.

Mais próximo da fronteira da Bahia e do Espírito Santo do que da capital mineira, Mato Grande é uma comunidade vizinha de Ribeirão da Folha (2.500 habitantes), distrito de Minas Novas (24.405 habitantes). O povoado não aparece nos mapas; não é possível pegar o 'boneco' do Google Maps e soltá-lo na região para ver como é. No entorno, o Rio Setúbal aparece na localização 17°24'18.4"S 42°12'43.8"W. Marquei a coordenada in loco.

Durante os sete dias no Vale Jequitinhonha, encontrei micro-histórias que se conectam com a "grande" história brasileira e com a obra de Guimarães Rosa — como as desigualdades e hierarquias no campo, as relações familiares, a seca, o lugar e o não-lugar, entre outros temas.

São várias as dificuldades socioeconômicas que assolaram — e ainda assolam — a região do Jequitinhonha. Fundada no Brasil Colônia, a histórica cidade de Minas Novas sofreu um baque com o fim do Ciclo do Ouro, em meados da década de 1770. Na ditadura militar (1964-1985), as terras minasnovenses foram tomadas pela monocultura do eucalipto, que secou rios e expulsou camponeses. 

Mais recentemente, a corrida pelo lítio — considerado mineral fundamental para a transição energética — chamou a atenção de empresas estrangeiras, que se instalaram na região. Na Revista Piauí, a jornalista Karla Monteiro publicou a reportagem Pobre cidade rica, que descreve os danos econômicos e ambientais em Araçuaí, Minas Novas e outros doze municípios do Alto Jequitinhonha. O setor nomeou a região como "Vale do Lítio".

Os pontos em azul representam Araçuaí, Minas Novas e Ribeirão da Folha, enquanto o ponto em vermelho indica Mato Grande. Fonte: Google Maps

Apesar dessas realidades, a semana imersiva no sertão revelou histórias de pertencimento dos sertanejos à terra, relações humanas sinceras e uma cultura que valoriza o trabalho de cada indivíduo. Há um senso coletivo genuíno que se manifesta no apoio mútuo entre os comerciantes locais que vivem da produção artesanal. Alguns entrevistados relataram que migraram para grandes centros urbanos em busca de oportunidades, mas optaram por retornar à terra natal para permanecer perto de familiares e amigos.

Comecei a ler Grande Sertão: Veredas alguns meses antes da viagem e, enquanto estive na estrada, não pude deixar de fazer correlações com a obra-prima de Guimarães Rosa. Basta atravessar Belo Horizonte em direção ao nordeste e passar por Água Boa, Veredinha, Capelinha, Turmalina que as descrições do cenário batiam.

Quase um ano depois de finalizar o meu projeto, em 15 de maio de 2025, a Rádio Novelo lançou o episódio 129, chamado Cada um com sua bússola. No segundo ato do podcast, Paulo Salles compartilha sua sina de mapear os lugares mencionados na obra; ele andou mais de cinco mil quilômetros e escreveu o livro Anatomia do Grande Sertão. Por meio das pesquisas de Salles, pude confirmar que Mato Grande está justamente no limbo dos mapas descritos por Guimarães.

Mapa da obra de Guimarães Rosa na marcação cinza em Minas Gerais; ponto azul é a região de Mato Grande/Ribeirão da Folha/Minas Novas. Fonte: Grandesertão.br: o romance de formação do Brasil (2004), por Willi Bolle

Publicado há 70 anos, em 1956, o romance é um longo monólogo do ex-jagunço Riobaldo, que, já velho, rememora para um visitante sua juventude no sertão: as andanças pelos bandos de jagunços, as guerras entre facções, os dilemas morais e o amor impossível que nutre por Diadorim, uma figura enigmática cuja grande revelação muda tudo o que se pensava saber.

Tida com uma das melhores publicações nacionais, a obra menciona diversos rios e territórios, mas não aponta as localizações com precisão. No mapa de Minas Gerais, há menções nas direções norte e noroeste do estado. O Vale do Jequitinhonha abrange porções do centro, norte e se estende pelo nordeste mineiro, sendo caracterizado como a região mais empobrecida do estado. Do Jequitinhonha, por exemplo, milhares de migrantes vieram para o Norte do Paraná e para os Campos Gerais entre as décadas de 1940 e 1970.

Eric Rodrigues

Eric Rodrigues

Repórter, fotojornalista e documentarista. Mestrando em comunicação pela UFPR. Participante do 15º Curso de Jornalismo Econômico do Estadão. Autor de "Comadre São".

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