Em análise na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) da Câmara Municipal, a proposição 005.00012.2026, de autoria do vereador Eder Borges (PL), tem gerado apreensão entre representantes do setor cultural. A proposta proíbe o repasse de recursos públicos ao Carnaval e prevê a responsabilização dos organizadores por eventuais danos patrimoniais. A matéria é apontada por críticos como um entrave à realização de desfiles, blocos e demais atividades carnavalescas na cidade.
O texto não é novidade no legislativo municipal. Conforme o sistema de proposições da Câmara, o mesmo parlamentar apresentou uma proposta similar em fevereiro de 2025; o texto foi arquivado em junho. A nova versão tramitou por dois meses entre comissões e órgãos técnicos e retornou ao gabinete de Borges no fim de março. No dia 19 de fevereiro, o projeto passou por análise jurídica na CCJ, que nomeou o vereador Fernando Klinger (PL) como relator.
Na justificativa da matéria, Borges reconhece o Carnaval como festa tradicional no Brasil, mas argumenta que “não há o reconhecimento de todos os cidadãos, tampouco dos contribuintes de impostos e de outras fontes”. O vereador acrescenta que “a cultura carnavalesca não é do interesse de uma parte significativa da sociedade curitibana” e, como solução para a questão financeira, sugere que os interessados “recorram a alternativas, como vaquinhas virtuais”.

A insatisfação com a proposta foi manifestada em uma plenária popular realizada na última quarta-feira (1), no auditório da Câmara. O encontro reuniu carnavalescos, produtores culturais e políticos da casa que se opõem ao projeto. Convocada pelo presidente da Frente do Samba, Angelo Vanhoni (PT), os participantes defenderam a manutenção do apoio público no carnaval curitibano. Além de Vanhoni, a mesa contou com a presença de outros vereadores: professora Angela (PSOL), Camila Gonda (PSB), Giorgia Prates – Mandata Preta (PT) e Lórens Nogueira (PP).
Os parlamentares presentes questionaram a constitucionalidade do tema e avaliaram que não há quórum suficiente para a aprovação. Ainda assim, alertaram para possíveis movimentações que possam dar seguimento ao projeto, e que deve entrar em pauta a qualquer momento. Diante dessa possibilidade, representantes do Carnaval combinaram de acompanhar o assunto.
Em declaração ao Plural, o presidente da Liga das Escolas de Samba de Curitiba e Região Metropolitana, Jefferson Pires, afirmou que a categoria já enfrenta dificuldades com os recursos atuais, os quais, segundo ele, são inferiores aos investimentos feitos em outras capitais que também promovem a festa.
“Nós não estamos atrapalhando, estamos fazendo o nosso carnaval, o nosso samba. O exemplo das arquibancadas mostra a importância desta festa: mais de 40 mil pessoas nos desfiles; os ensaios lotados; blocos ensaiando na rua; o centro tomado de gente se divertindo e movimentando a economia”, destacou Pires.
O impacto econômico positivo do evento é corroborado por números do setor produtivo. Estimativas do Sindicato Empresarial de Hospedagem e Alimentação (SEHA) indicam que a rede hoteleira da capital paranaense registrou ocupação de cerca de 70% no período, um avanço de 10 pontos percentuais em relação à média do feriado no ano anterior, que havia sido de 60%.
“Jesus não vai no samba, Jesus vai no rock”
Paralelamente à discussão sobre o financiamento, outra frente de embate cultural mobilizou os carnavalescos no encontro: a recente lei que institui o "Carnaval Rock" no Calendário Oficial de Eventos do Município, aprovada em 2 de março. De autoria da vereadora Delegada Tathiana Guzella (União), a proposta oficializa a programação roqueira no período carnavalesco.
No plenário, Guzella relacionou a cena do rock à economia criativa e afirmou que mais de 80 casas noturnas e bares ligados ao gênero mantiveram programação temática durante as festividades.
Ainda na esteira do tema, a Assembleia Legislativa do Paraná (Alep) recebeu, no dia 17 de março, o evento “Rock que move a Economia: Uma visão para o Paraná” — uma audiência pública proposta pelo deputado estadual Tito Barichello (União) que abordou os efeitos econômicos do gênero musical no Estado. Durante o encontro, viralizou um trecho em que o deputado afirmou: “Jesus não vai no samba, Jesus vai no rock.”
Em resposta às duas situações, a Liga das Escolas de Samba de Curitiba e Região Metropolitana elaborou uma nota de repúdio à inclusão do "Carnaval Rock" no calendário oficial. "Consideramos que essa medida representa uma tentativa de apagamento da cultura negra e periférica, que há anos clama por melhorias, incentivos e recursos para suas agremiações carnavalescas", descreve o documento. Os carnavalescos apontam uma uma ideia de enfraquecimento do dos blocos e escolas de samba.
Inserido no circuito do rock curitibano, mas contrário aos movimentos dos parlamentares, Vladimir Urban, representante do Psycho Carnival — tradicional evento voltado para o rock underground —, afirma que a intenção do segmento não é competir, mas sim unir forças com as demais expressões culturais.
"Temos muito orgulho de dividir essa data com o samba, com os desfiles das escolas e com todo o movimento cultural de Curitiba, especialmente o periférico. O que percebemos agora é mais uma tentativa de apagamento da cultura do samba, usando o rock como se fosse a principal expressão cultural da cidade. A cultura periférica está no samba. O rock não veio para apagar cultura nenhuma, veio para somar", disse.
