Este texto integra o projeto Periferias Plurais, uma parceria entre o Plural, o Gasam e a Itaipu Binacional
Egressos do curso de Design de Produtos da UFPR embarcam para a Alemanha para apresentar uma atividade executada na comunidade do Chacrinha, no Alto Boqueirão. A proposta superou outros 7 mil inscritos e venceu o iF Design Student Award 2026 – evento de prestigio mundial. Para custear a viagem, que acontece nos dias 10 e 11 de junho, um dos finalistas lançou uma campanha de apoio com recompensas.
Em "Nossa Bici - Guia para a Co-Criação de Sistemas de Compartilhamento de Bicicletas em Comunidades", elaborado como trabalho de conclusão de curso, Felipe Roehrig, de 31 anos, e Gabriel Siat, de 23, reúnem pesquisa e extensão universitária que dialogam sobre mobilidade urbana via bicicleta.
Inspirado em iniciativas aplicadas em outras metrópoles, a dupla e outros voluntários miraram em políticas públicas para popularizar o acesso das bikes em regiões periféricas e para universitários em vulnerabilidade social. O trabalho foi orientado professora Gheysa Caroline Prado, e contou com a coorientação da Yasmim Breckenfeld Reck.
Base da projeto já havia garantido três premiações em 2025, além da indicação para o evento na Europa: o primeiro lugar no Bicicleta Brasil, o prêmio Design de Serviço no Design For a Better World e o Paraná Bici.
Para os premiados, essa sequência de reconhecimentos simboliza a vitória da universidade pública – com suas frentes de ensino na extensão, iniciação científica e pesquisa – e das conexões estudantis com o terceiro setor.
O iF Design Student Award é uma das principais e mais prestigiadas premiações globais voltadas para estudantes de design. Criada pelo iF International Forum Design (sediado na Alemanha), a competição desafia jovens talentos de todo o mundo a criarem soluções inovadoras alinhadas aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da Organização das Nações Unidas (ONU).
Gabriel, integrante do Nossa Bici, irá até Frankfurt para apresentar a pesquisa e buscar o prêmio. Para custear as passagens e a estadia, o designer divulgou uma campanha de apoio em suas redes sociais. Os colaboradores concorrem a prêmios em um sorteio.
As experiências que influenciaram a pesquisa
O projeto é resultado de duas vivências da dupla: a CoolabBici, que oferece bicicletas para estudantes da UFPR desde 2017; e o Nossa Bici (2024), que desenvolveu um sistema de bikes compartilhadas na Chacrinha, próxima do Zoológico de Curitiba.
A primeira experiência (CoolabBici) é vinculada ao programa de extensão Ciclovida e busca incentivar a mobilidade urbana por meio do empréstimo de bicicletas para a comunidade interna da universidade durante o semestre. De acordo com Felipe, grande parte dos atendidos recorre ao empréstimo devido às dificuldades financeiras de transporte.
"No processo de coleta de interessados, por meio de um formulário, perguntamos os motivos que levam a pessoa a querer uma bicicleta emprestada. Muitos relataram estar em situação de vulnerabilidade social. Alguns enfrentavam problemas como o desemprego dos pais e precisavam administrar os próprios recursos", relata.
Envolvido com o CoolabBici nos cincos anos de graduação, Felipe participou de uma iniciação científica na UFPR que mapeou o perfil dos usuários do programa.

A segunda experiência (Nossa Bici) partiu da região central e foi para o extremo-sul da capital, na comunidade Chacrinha – Vila Esperança. O local abriga 65 famílias (45 delas com crianças) e fica a mais de dois quilômetros do comércio, das escolas e dos serviços básicos, sendo acessado por uma estrada de chão batido.
Neste trabalho, o principal objetivo do interversão não era apenas o compartilhamento físico de bicicletas, mas lançar um olhar atento sobre a comunidade e seus problemas de moradia. A dificuldade de deslocamento sempre foi um obstáculo cotidiano, agravado pela ausência de transporte escolar adequado.
Gabriel e Felipe comentam que durante as visitas à comunidade, o Instituto Democracia Popular (IDP), que atua na assessoria jurídica local, deparou-se reiteradamente com esse isolamento. Diante da persistência do déficit de mobilidade e da ausência do transporte público, o IDP passou a considerar a criação de um sistema de bicicletas compartilhadas. A ciclo ativista Yasmin Reck conduzia as ações no IDP e os convidou para trabalhar na comunidade.
O projeto-piloto foi executado em etapas. Começou com uma campanha de arrecadação de bicicletas, ferramentas e acessórios. Em seguida, houve uma oficina de mecânica básica que capacitou moradores para a manutenção dos equipamentos, reaproveitando inclusive bicicletas já existentes. E passou pelo debate entre voluntários e moradores na criação do sistema, definindo regras de uso, formas de compartilhamento e responsabilidades.

Com base nessas experiências, os idealizadores enxergam uma versão adaptada dos sistemas tradicionais de bicicletas compartilhadas que se consolidaram em Curitiba e nos países do chamado Norte global. E que a iniciativa parte do entendimento de que a realidade brasileira e latino-americana impõe outras camadas de complexidade. No caso da Federal, as bicicletas chegaram a ser consideradas abandonadas, muitas vezes envolvidas em situações como furto.
"As pessoas estão percebendo que esse é um problema relevante e que é válido refletir sobre ele. O nosso TCC poderia ter sido uma empresa de bicicletas para Curitiba, por exemplo, mas não. Estamos falando, em vez disso, de comunidades, de iniciativas de pessoas, de causas sociais", comentou Gabriel.
Paralelamente, a história ganhou as telas em um mini documentário dirigido por Luana Muniz. O filme registra como o Nossa Bici foi cocriado com a associação de moradores.