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Produtores destacam a resiliência coletiva do rock independente curitibano

Em meio a desafios, envolvidos na cena contam como a união mantém viva a produção no underground

Produtores destacam a resiliência coletiva do rock independente curitibano
Rise Rise, Forks se apresenta no Underground Fest. Foto: Sophia Lino
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Este texto integra o projeto Periferias Plurais, uma parceria entre o Plural, o Gasam e a Itaipu Binacional

É nas margens do rock local e nos espaços populares que os produtores Anna Buzzi (25) e Samuel Weslley (24) trabalham sem lucro. Motivados pelo princípio do "faça você mesmo", eles organizam eventos que movimentam o Centro Histórico da capital e reúnem, no mesmo espaço, bandas, artistas e fotógrafos de regiões distintas.

Sem apoios culturais e com orçamentos apertados, representam uma ampla categoria de pessoas que dividem empregos formais nos horários comerciais e se desdobram, nas horas vagas, para mobilizar o rock underground na "Cidade mais Rock and Roll do Brasil".

No gênero musical, entende-se que o termo 'underground' dá sentido a uma cultura de som e comportamento que circula por fora dos padrões comerciais e da grande mídia. Os eventos são, muitas vezes, organizados e estruturados por uma rede de apoio social entre músicos, entusiastas e espaços alternativos. Essa junção de forças é o significado da expressão 'cena', que agrupa projeto de acordo com gêneros musicais e localização.

As cenas de Curitiba e região metropolitana entraram no radar Anna, jornalista, por meio do Jukebox - um portal multimídia composto por entrevistas com artistas, curadoria musical, cobertura de eventos e agenda cultural. A comunicadora idealizou o projeto quando era graduanda e o apresentou como trabalho conclusão de curso em 2020. Saiu da universidade no mesmo ano, mas não abandonou a causa até hoje.

Nesses cinco anos, lançou mais de cem entrevistas em formato de podcast com os mais variados artistas, resenhou diversos lançamentos e shows, e promoveu um festival comemorativo de duas noites com nove apresentações. Nas pautas do Jukebox, nota-se uma mescla entre bandas recém-formadas e outras reconhecidas no nicho do underground.

"Faço tudo isso por paixão e noto que as bandas compartilham desse sentimento. Nas conversas, percebo que o desejo dos artistas não é apenas a divulgação, mas a expressão de sentimentos para gerar conexão e troca com o público. É uma plataforma que torna essa rede de apoio e divulgação essencial", disse a jornalista.

Nos mesmos espaços transitados pela comunicadora, Samuel é músico e produtor do Underground Fest desde 2023. Há três anos, ele lida com bandas, casas de shows e artistas visuais nos fins de semana; na maioria das vezes, precisa correr atrás de todo tipo de equipamento. Recorre aos amigos ou, na pior das hipóteses, tira do próprio bolso para conseguir amplificadores, peças de bateria, cabos e arcar com a ajuda de custo dos músicos que vêm de fora. A sua renda garantida vem das aulas de artes que dá em uma escola nos horários comerciais.

Não bastasse a correria nos bastidores, há noites em que recebe a visita inesperada de policiais, que pedem o fim da festa. Um exemplo disso se deu em setembro do ano passado, no Dino Cultural - bar na Rua São Francisco. Seis bandas estavam escaladas para tocar: três de Curitiba, duas de São Paulo e uma de Porto Alegre. No meio das apresentações, os agentes entraram na casa e levaram os equipamentos. A alegação é de que havia reclamação da vizinhança. Samuel se apressou, ligou para outro espaço e conseguiu realocar o público e os convidados para prestigiar os músicos de fora.

Apesar dos percalços, o professor e produtor conta que os eventos estimulam o senso de coletividade nos espaços. "Nossa ideia se baseia em reunir bandas iniciantes, medianas e consolidadas para criar uma troca de experiência entre elas — cada uma auxiliando a outra e promovendo essa troca de saberes. Isso inclui tanto os artistas que estão expondo seus trabalhos quanto os próprios músicos", explica.

Banda Resp3x toca no Jukefest. Foto: Katy Prando/Jukebox

Curitiba e a "Capital do Rock"

Em dezembro de 2024, a Câmara Municipal de Curitiba aprovou e o prefeito Greca sancionou a Lei nº 16.458, que reconhece a capital paranaense como a "Cidade mais Rock and Roll do Brasil".

Com três artigos, o texto prevê o fortalecimento, o apoio e incentivo ao rock na cidade. Além disso, sugere políticas públicas voltadas à formação de novos conjuntos. No plenário, debateu-se a ideia de estimular festivais independentes e a abertura de novas casas noturnas. O texto não detalha mecanismos de incentivo, mas orienta o Executivo a incluir o rock nos planos de desenvolvimento da economia criativa local.

Quase um ano depois, Assembleia Legislativa do Paraná seguiu o mesmo rito e o governador Ratinho Jr. sancionou a Lei nº 22.726, que concedeu ao município o título de "Capital do Rock". O texto base da Alep não detalha a destinação de recursos, mas estabelece que o poder público fica autorizado a promover ações alusivas à data.

Para Samuel, tais retificações não beneficiaram a ampla categoria de produtores independentes e nem melhoraram as casas de shows. "Temos essa ideia de ser a capital do rock, de fomentar a cena, de ser uma região mais propensa a esses eventos. Só que, no underground, esse valor não é revertido para as bandas e os organizadores", afirma.

Anna concorda que não houve mudanças na cultura local, mas observa um crescimento nas "grande atrações" que vieram para capital paranaense nos últimos anos. "Acredito que Curitiba tem potencial para ser a 'capital do rock', porque temos uma cena muito boa e espaços muito legais, tanto que artistas renomadas estão vindo para cá", argumenta.

Ambos descrevem que o senso comum imagina a produção "faça você mesmo" como uma máquina de lucro fácil, mas indicam que a realidade é outra e que fechar no zero a zero já é uma conquista. Segundo Samuel, os custos são pulverizados e incessantes, passando por impressão de cartazes, impulsionamento no Instagram e posicionamento de conteúdo; é uma conta que raramente fecha.

Mesmo sem apoios culturais e com orçamentos apertados, uma ampla categoria de pessoas divide os empregos formais nos horários comerciais e se desdobram, nas horas vagas, para mobilizar o rock underground na "Cidade mais Rock and Roll do Brasil". Mas, por quê?

"Acho que, no momento em que você tem tantas pessoas que amam o seu trabalho, que amam viver de música, isso gera uma energia muito maior do que só o dinheiro. É tanto um estilo de vida. E é bonito ver que a galera que estava lá nos primeiros eventos é a mesma que continua acompanhando, isso cria um senso de pertencimento", responde Samuel.

Eric Rodrigues

Eric Rodrigues

Repórter, fotojornalista e documentarista. Mestrando em comunicação pela UFPR. Participante do 15º Curso de Jornalismo Econômico do Estadão. Autor de "Comadre São".

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