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Periferia de Curitiba sofre com mais moradores de rua e aumento do tráfico

Sem ter onde passar a noite, população de rua se abriga em comunidades, e muitas vezes acaba exposta às drogas

Periferia de Curitiba sofre com mais moradores de rua e aumento do tráfico
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Já não é preciso sair do centro de Curitiba para notar o crescimento significativo da população em situação de rua na cidade. Mas quando se chega na periferia, o cenário piora. Na Vila Torres, comunidade periférica na região central de Curitiba, nota-se com facilidade o constante crescimento na quantidade de pessoas nas ruas. Pessoas que durante o dia permanecem no centro da cidade e que não passam a noite nos abrigos da Fundação de Ação Social (FAS), se deslocam para áreas menos expostas a riscos ou à própria polícia - lugares próximos ao centro mas deixados à margem, como a Vila Torres ou o Parolin.

Segundo dados do Cadastro Único do Ministério do Desenvolvimento Social (MDS), a população de rua cresceu quase 50% de 2018 a 2021 no Paraná, chegando a quase 2.400 pessoas somente em Curitiba. Sim, a pandemia definitivamente agravou o quadro, mas a prefeitura também não parece estar tomando providências efetivas para que as condições melhorem, visto que já entramos no terceiro ano da pandemia de Covid-19 e não há previsão de avanços, muito menos de solução.

Quando questionadas, a resposta das “autoridades competentes” é, sem surpresas, a mais genérica possível: citam a FAS, como órgão responsável pelo tratamento e pela "reinserção" dos moradores de rua na sociedade; mas não há respostas quanto à elaboração de projetos e planejamentos concretos direcionados ao problema, que cresce diante dos olhos de todos.

(Aparentemente não todos, pois enquanto o problema se mantiver longe dos olhos de quem mora nos bairros nobres, aqueles com calçadas impecáveis, semáforos que funcionam e ônibus HibriBus, as tais autoridades não julgam ser algo que precisa de atenção, dedicação e trabalho efetivo.)

Tráfico

Uma vez dentro da periferia, o morador de rua se vê sem alternativas e para sobreviver, e se integra ao tráfico. Assim, o aumento na incidência de pessoas em situação de rua contribui ativamente para o aumento do tráfico de drogas. Isso não é novidade para quem vive na comunidade - o problema é que, há um certo tempo, esse problema tem se tornado explícito quase a ponto de se tornar insuportável. Tudo acontece na frente das casas de famílias; a qualquer hora do dia pode-se observar a ação de vendedores, compradores e consumidores de drogas.

Há anos a região da Vila Torres é conhecida pelas muitas tragédias resultadas da violência do tráfico de drogas e não é difícil entender o quão profundo é este problema dentro da comunidade: famílias inteiras são destruídas e famílias inteiras vivem pelo tráfico. É incrivelmente comum ver crianças e adolescentes que mal têm idade para cursarem o ensino médio abandonarem completamente a escola e serem usadas no tráfico, até que acabem presas ou mortas.

Segundo moradores de uma das principais ruas afetadas pelo aumento no fluxo do tráfico de
drogas em plena luz do dia, há um agrupamento de pessoas que se encontra debaixo da ponte que atravessa o Rio Belém, no trecho que cruza a Rua Manoel Martins de Abreu com a Rua
Manoel Severiano da Fonseca, que tem tornado a situação insustentável.

Em certos horários de pico, como a hora do almoço, mal dá para caminhar nas ruas por conta do engarrafamento de pessoas, carros e motos negociando drogas, no mesmo horário em que crianças passam por perto no caminho de ida ou volta das escolas. Os moradores precisam, por conta própria, com que as crianças não cheguem perto demais de todo aquele risco, para que não presenciem situações traumáticas.

A polícia

Uma moradora da região relata que quando a polícia é acionada, por meio de denúncias anônimas que muitas vezes são ignoradas, e de fato chega ao local, o máximo de ação que oferecem é expulsar as pessoas que se concentram em grupos e, vez ou outra, ainda queimar seus pertences. Como se não soubessem que isso não apresenta resultado algum, após algumas horas as pessoas estão de volta, pelo simples motivo de que não têm para onde ir.

É importante ressaltar a existência de um módulo do 12º Batalhão da Polícia Militar, localizado, não por coincidência, próximo ao portão principal da PUC-PR. A polícia se dedica a fazer um bom trabalho quanto à segurança dos colaboradores das instituições privadas nos arredores da comunidade - é realmente impressionante o quanto se dedicam para que não sejam perturbados com os problemas da Vila Torres. Essa mesma polícia é a que mostra uma resistência perturbadora quando se trata das necessidades da população periférica.

O povo não tem condições de cuidar de si mesmo quando um sistema funciona contra ele - muito menos quando ainda precisa contar com a disposição das forças governamentais para que os auxílios, dos mais básicos e fundamentais, cheguem até quem necessita. Isso ainda existe em muitos lugares à margem da grande República de Curitiba.

Não há previsão de propostas ou projetos palpáveis para que ocorra, de fato, o fim da violência na região e que os bairros pobres de Curitiba não sejam um tipo de depósito em que se armazena diversos problemas que, se à mostra, desagrada aqueles que ainda acreditam que Curitiba é uma cidade modelo.

E as principais perguntas continuam sendo: por que as pessoas continuam na rua? E até quando o poder público vai se negar a reconhecer que a segurança e os direitos básicos das populações periféricas também é de seu encargo?

Este texto é parte do projeto Periferia Plurais, que abre espaço para seis jovens da periferia de Curitiba e cidades vizinhas, falarem de suas vidas e de suas comunidades.

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