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Pedalando e registrando: a rotina de um biker entre entregas e perigos

Reportagem do Periferias Plurais acompanha a jornada de um entregador pelas ruas de Curitiba

Pedalando e registrando: a rotina de um biker entre entregas e perigos
Em suas redes sociais, @jessefixie produz conteúdos sobre o trabalho como ciclista e entregador. Foto: Eric Rodrigues/Plural
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É de cima da bicicleta que Jessé, 33, mostra sua rotina de trabalho pelas ruas curitibanas. Com uma câmera presa ao corpo, parte da zona oeste rumo ao centro, pedala por seis horas seguidas e registra a jornada exaustiva como entregador por aplicativos. Nas redes sociais, compartilha os dilemas e prazeres que a função oferece.

Em dez anos de lida, coleciona as mais variadas experiências. No resgate da memória, se lembra de quando um veículo invadiu a preferencial, acertou a bicicleta em cheio e o jogou a uma longa distância com o impacto; nada grave, por sorte. Certas situações não escapam da lembrança — maus-tratos em espaços de alta classe e as imprudências dos motoristas impacientes — não saem da memória… porque são recorrentes.

O encontro com o universo das entregas sobre duas rodas aconteceu em 2015, de forma quase casual, trabalhando como office boy para o pai, que é protético. Foi nessa época também que ele descobriu e se encantou pelo universo das Fixed Gears — ou “bicicletas de roda fixa”. Leves, minimalistas e originalmente sem freios, elas representam uma cultura global urbana que se equipara ao estilo de vida nos mesmos moldes que o skate, por exemplo.

Não demorou muito para Jessé perceber que poderia ser pago para fazer o que já amava: pedalar. Inspirado pelo movimento do bike messenger — ciclista que cruza o trânsito das grandes metrópoles com destreza, coragem e adrenalina —, ele começou a fechar entregas particulares na região central.

Quando teve essa ideia, em 2015, a popularização dos aplicativos de entrega ainda nem existia no Brasil, mas já era possível conseguir alguns trabalhos por conta própria. Pouco depois, em 2016, veio o boom das plataformas que ofertavam entregas por meio da bicicleta. O biker se inscreveu em todas: Uber Eats, Rappi, James. Estava disposto a ganhar a vida dessa maneira — e segue assim até a publicação desta reportagem. 

Na tarde de domingo em que conversamos, por volta das 16h, o biker se preparava para começar mais um dia de trabalho pelo Ifood, aplicativo que atua com exclusividade atualmente. O plano era pedalar até as 22h. Com a experiência acumulada ao longo dos anos, ele criou uma série de estratégias para otimizar a rotina: adota a escala quatro por três, limita a jornada a seis horas e circula em um raio de três quilômetros na região central. Além disso, tem um mapa mental das ruas desniveladas que deve evitar, medida pensada para poupar os joelhos e preservar a disposição física.

Entre as metas que traçou para si, uma é inegociável: voltar para casa com pelo menos cem reais no bolso. Para atingir a marca, pedala em média 50 quilômetros por tarde — o equivalente a ir do Parque São Lourenço ao Aeroporto Internacional Afonso Pena e voltar.

Nesses percursos que se repetem nas ruas do centro, coloca mais de quinze pedidos na mochila. No fim do mês, a renda acumulada costuma bater em torno de mil e oitocentos reais.

A ideia de registrar os pedais nasceu de duas referências: o americano Lucas Brunelle e o holandês Terry Barentsen. No YouTube, ambos documentam a vida sobre duas rodas em áreas urbanas no estilo POV — Point of View, ou “ponto de vista” em português. A proposta é simples: inserir o espectador na cena, como se fosse ele próprio a pedalar. O que une Jessé a Brunelle e Barentsen é o mesmo fio de adrenalina: planos de ação nos quais o ciclista parece escapar por centímetros dos perigos do trânsito, embalado pela velocidade que a função de entregador impõe.

Para o curitibano, o conteúdo inicial era apenas uma forma de compartilhar o cotidiano, mas a câmera logo se revelou uma ferramenta de trabalho crucial. Ela o protege de acidentes e outros imprevistos comuns, funcionando como sua testemunha ocular no trânsito. É comum encontrar irregularidades e ambientes hostis enquanto trabalha.

“Eu mesmo já fui vítima. Em 2018, subia uma rua próxima à Praça da Ucrânia. Eu tinha a preferencial, mas uma motorista, possivelmente ofuscada pelo sol, não parou no cruzamento e me atingiu. Ela me levou uns 5 metros para frente. Machuquei a tíbia, quebrei o isopor da bag, mas o maior susto foi o medo de que a motorista fugisse… todo ciclista acha isso depois de uma batida. Felizmente, ela parou e assumiu a responsabilidade. O seguro da motorista pagou uma bike nova”, disse.

No trânsito, o maior incômodo é a falta de conhecimento generalizada por parte dos motoristas, e relata que é comum as pessoas pensarem que as bicicletas não podem usar a rua. Para embasar seu argumento, cita o Artigo 58 do Código de Trânsito Brasileiro (CTB), que determina ser “dever do ciclista trafegar no mesmo sentido dos veículos automotores quando ausentes ciclovia ou acostamento”.

Em meio ao caótico cenário da mobilidade urbana de Curitiba, Jessé (@jessefixie) percorre as ruas sem deixar de lado suas playlists, tocadas em uma caixa de som portátil. Do eletrônico ao rap, a música funciona como seu combustível, colocando ritmo e adrenalina ao pedal. “Parece que não preciso nem de café para ficar acelerado”, comenta. Além do estímulo, o som alto cumpre uma função prática: age como uma espécie de sirene, alertando os motoristas sobre sua presença e aumentando sua segurança no trânsito.

Apesar do cansaço excessivo, ele se considera privilegiado por trabalhar com o que ama. Em suas inúmeras publicações, exalta a beleza dos pores do sol que testemunha, compartilha histórias engraçadas vividas com amigos e outros entregadores, e se diverte fazendo manobras. No entanto, essas vantagens, segundo ciclista, não o impedem de criticar o baixo valor repassado aos profissionais da categoria.

Para ele, a discussão central – que ecoa a luta nacional de motoristas e entregadores por aplicativo – é a urgente necessidade de melhorar os repasses. A taxa média de R$ 7 por entrega é, em sua avaliação, insuficiente e totalmente desconectada dos riscos reais da profissão. "Uma taxa justa seria de no mínimo R$ 15. É a minha vida que está em jogo, são muitos riscos…", defende o biker.

Este texto faz parte do Periferias Plurais, projeto em que o Plural, com apoio do Gasam e da Itaipu, convida jovens de Curitiba e região a falar de suas vidas e de suas comunidades

Eric Rodrigues

Eric Rodrigues

Repórter, fotojornalista e documentarista. Mestrando em comunicação pela UFPR. Participante do 15º Curso de Jornalismo Econômico do Estadão. Autor de "Comadre São".

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