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O futebol sob o olhar dos ambulantes

Comerciantes informais constroem uma associação e driblam a instabilidade nos eventos esportivos de Curitiba

O futebol sob o olhar dos ambulantes
Comerciante e paranistas no entorno do estádio. Foto: Eric Rodrigues/Plural

Este texto integra o projeto Periferias Plurais, uma parceria entre o Plural, o Gasam e a Itaipu Binacional

Nos arredores do estádio da Vila Capanema, dezenas de ambulantes ajeitam suas ferramentas de trabalho antes da chegada dos torcedores na tarde de sábado (23). Com suas mercadorias montadas na calçada, Alcione Ferraz, de 42 anos, chegou o mais cedo possível — às 9h da manhã — para garantir o melhor ponto de venda no grande evento: a semifinal da segundona do campeonato paranaense, entre Paraná Clube e Araucária, às 15h30, que terminou com acesso do Paraná à elite do Estadual.

Há 15 anos no ramo, Alcione conta com a ajuda da esposa, Simone Ferraz, 36, nos atendimentos há dois anos. Juntos, vendem espetinhos feitos na hora e bebidas diversas. As margens de lucro são variáveis e garantem a renda, mas também exige planejamento antecipado e jogo de cintura para atuar em um espaço limitado e competitivo.

A estrutura do Espetinhos Ferraz, nome fantasia da empresa, tem três guarda-chuvas que protegem uma panela de quentão, a churrasqueira e uma caixa de isopor com bebidas. Enquanto um fica no fogo, o outro aborda os torcedores. O cardápio: carne, frango, pão-de-alho na brasa; molhos caseiros na frente; cerveja, refrigerante, água, energético e doses ao lado. Atrás da barraca, a van branca que trouxe a família, os equipamentos e os produtos.

Bloqueados em toda a extensão para o trânsito, os 300 metros da rua Pedro de Araújo Franco reúnem mais de 70 barracas que disputam a atenção dos paranistas no pré-jogo.

Enquanto alguns comerciantes anunciam aos gritos, outros terceirizam o recado em caixas de som: “Gelada, gelada. Cerveja, água e refrigerante. Heineken e Original de garrafa 600ml no copo, apenas R$16. Aproveite”, repete a gravação ao lado.

Alcione e Simone não conseguem competir de imediato, mas, perto das 13h, conquistam os primeiros clientes. É nas duas horas anteriores à partida que as boas o movimento se garante; o volume de pedidos no pós-jogo depende do desempenho dos atletas no gramado.

Essas mudanças de clima dificultam a medição geral dos rendimentos, e nem Alcione nem os outros comerciantes conseguiram mensurar quanto se tira em um evento. Há momentos em que se vende bem e que compensa dias sem trabalho; mas há prejuízos consideráveis em eventos que não sai uma garrafa d'água.

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A unidade da categoria está na dedicação exclusiva, nos tempos de atuação — entre uma e três décadas — e na associação criada entre eles, formalizada em 2025. A mobilização reuniu cerca de 70 trabalhadores e facilitou o diálogo com o poder público.

Os ambulantes contam que a entidade surgiu como resposta pacífica às fiscalizações abusivas e confiscos, que se intensificaram em 2018 — Alcione diz perdeu um carro cheio de produtos nessas operações. A situação melhorou gradativamente no pós-pandemia, mas retrocedeu no pré-carnaval de 2025, quando foram avisados de que não teriam autorização para trabalhar nas folias. A proibição foi revertida graças ao apoio dos blocos carnavalescos e de alguns parlamentares.

Habituados a circular por carnavais, shows, protestos e eventos esportivos, os comerciantes itinerantes aprendem a se adequarem ao público e ambiente. São várias as convenções internas. Diante de uma partida de futebol por exemplo, evitam demonstrar o time do coração e buscam a neutralidade.

“A gente tem que ser imparcial. Eu chego no Coxa, o pessoal fala que sou caveira; no Atlético, falam que sou fúria; na Fúria, falam que sou coxa e atleticano… De preferência, é bom não vestir a camisa. Tem que torcer para o time da casa”, diz André, de 51 anos, há 18 anos trabalhando nas ruas.

Durante a partida de sábado (23), enquanto 13 mil pessoas ocupavam as arquibancadas da Vila Capanema, Alcione e Simone acompanharam a transmissão da partida pelo celular na via reservada aos ambulantes. Comemoraram os gols e o acesso do Paraná Clube antes do apito final e se prepararam para a segunda leva de paranistas que passaria por ali. Enquanto um fica no fogo, o outro aborda os torcedores.

Eric Rodrigues

Eric Rodrigues

Repórter, fotojornalista e documentarista. Mestrando em comunicação pela UFPR. Participante do 15º Curso de Jornalismo Econômico do Estadão. Autor de "Comadre São".

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