Este texto integra o projeto Periferias Plurais, uma parceria entre o Plural, o Gasam e a Itaipu Binacional
"Tá filmando o quê, moço?", questiona com repulsa uma catadora de papel diante da câmera nos arredores da Vila Capanema. Luciano Coelho, diretor, se aproxima e explica que sua equipe está fazendo um documentário sobre o cotidiano dos carrinheiros em Curitiba. Após ouvir a resposta, a personagem se familiariza com o cineasta e se dispõe a contar algumas histórias sobre si. A cena é cortada e sobreposta pelo vaivém dos carrinheiros no calçadão da Rua XV.
Parado e de costas para o Teatro Paiol – ponto turístico da capital –, João e seu carrinho carregado de papelão são enquadrados na imagem. Olhando para a filmadora, o carrinheiro narra suas experiências profissionais do passado e cita os familiares que não vê mais. De tanta afinidade com a equipe de filmagem, João os convida para sua casa; apresenta os 11 animais de estimação e alcança um álbum de fotografias. "Aqui está a minha vida, o que fui e o que sou hoje", diz enquanto deixa as fotos nas mãos do assistente de câmera. Assim começa Papel de Catadores, longa de 2003.
A produção faz parte de um vasto catálogo do Projeto Olho Vivo, coordenado por Luciano Coelho e Marcelo Munhoz entre 2003 e 2012. Assim como o filme dos catadores, os outros 50 lançados pelo projeto mostram, com um olhar humano, as histórias de pessoas ignoradas nos cartões-postais da cidade. Na gravação sobre os carrinheiros curitibanos, por exemplo, Luciano procurou abordar a contradição da "capital ecológica" propagada na época.
Através dos editais de incentivos, a iniciativa cultural liderado por Luciano e Marcelo levou oficinas de cinema a bairros periféricos de Curitiba. Nas atividades, cada turma aprendia os princípios teóricos e práticos de roteiro, gravação e edição. Antes de concluir o curso, os participantes produziam documentários com temas ligados a Curitiba. Vila Torres, Terminal Guadalupe, Carnaval, Racismo... esses foram alguns dos lugares/temas escolhidos como pautas.
"Passamos a selecionar uma média de quinze alunos por turma. As oficinas eram gratuitas e teve muita procura. As pessoas se inscreviam, faziam uma entrevista. Eu ministrava uma oficina que envolvia linguagem cinematográfica e os aspectos da produção de vídeo; os participantes mexiam em câmera e microfone. No projeto final, as pessoas escolhiam uma abordargem sobre a cidade para gravar", disse Luciano.

Essa mescla entre fazer e ensinar cinema de forma acessível trouxe ao projeto uma carga de educomunicação — elo entre educação popular e comunicação. E é no filme Minha Vila Filmo Eu (2005) que essa lógica fica evidente. Gravado na Vila Torres, o longa mostra a produção de três curtas feitos por crianças da comunidade. Luciano e sua equipe atuam no documentário em tripla função: são professores de cinema, diretores dos curtas que nascem das oficinas e diretores do longa que registra toda a experiência.
Como professores, na sala de aula improvisada, os adultos apresentam algumas referências do cinema, ensinam as diferenças de plano, como operar a filmadora, ajustar o tripé e pensar os roteiros.
Depois, todos saem com os equipamentos pelas ruas da vila. Os 15 mini cineastas param em frente às suas casas e filmam as fachadas com os familiares nas janelas e nos portões. Assim como os professores de educação infantil nos passeios com as turmas, há cenas que mostram os pequenos e os responsáveis de mãos dadas pelas ruas movimentadas. Imagens de afeto.
Na volta para a sala, começam as conversas sobre os temas dos curtas. Cada aluno conta alguma história ou lembrança viva do bairro. Um fala do cavalo que comprou para o trabalho e foi roubado, outro conta dos sons de tiro que escuta na rua, outra lembra do dia em que o chinelo ficou preso nos galhos de uma árvore enquanto catava papelão. Tudo é dito com inocência.
Com os temas e os grupos definidos, o longa passa a registrar os bastidores das produções. Os pequenos assumem os papéis de atores (protagonistas e coadjuvantes) e vão construindo as falas e escolhendo os lugares de filmagem. Comerciantes locais e familiares aceitam compor o elenco das tramas. A partir daí, a equipe de Luciano deixa a produção nas mãos das crianças e se torna mera ajudante até o fim das gravações. Os adultos voltam a trabalhar na edição e na organização da sessão de exibição para as crianças e a comunidade. A sessão de cinema aberta aos moradores da Vila Torres é a despedida desse belo filme dos filmes.

Pessoas invisíveis no centro da cidade
Em 2005, duas produções do projeto foram Influenciadas pelo cinema de Eduardo Coutinho (maior documentarista do país) e abraçaram a estética de documentários de conversa: Terminal Guadalupe e Programa de Senhoras. Apesar do território central da capital, ambos os abordar pessoas e questões tidas como periféricas.
Em Terminal Guadalupe, a turma passou dias no terminal que alimenta a região metropolitana de Curitiba. Com ênfase na narração de pessoas comuns que frequentam o terminal, o longa apresenta micro-histórias cotidianas de diversos personagens: trabalhadores, passageiros, recém-chegados na cidade, moradores antigos da região, pessoa em situação de rua. Todos opinam sobre o entorno do terminal e compartilham intimidades sobre a vida, o desemprego, a memória e a sensação de abandono.
Segundo Luciano, a ideia era captar imagens e personagens nas mais diversas horas do dia. Ele e sua equipe iam para lá sem nenhum trabalho prévio e tentavam registrar a espontaneidade. Chegavam com uma equipe de cinco, seis, sete pessoas, e os alunos se dividiam em grupos conforme a disponibilidade.
"Eles faziam o contato com as pessoas, ou eu mesma fazia. Conversava com alguém, a pessoa topava e então a gente entrevistava. É realmente impressionante a diversidade, pela própria característica do terminal, que conecta o centro da cidade à região metropolitana. É uma variedade de pessoas que, naturalmente, se desdobra inúmeras histórias distintas", diz.
Curiosamente, no Guadalupe, havia duas meninas catadoras. Uma delas, Camila, era filha de uma senhora catadora que aparece no filme dos catadores de papel. Meses após o lançamento do longa do terminal, Camila fez parte de algumas oficinas do Minha Vila Filmo Eu.
Seguindo a premissa do longa sobre as pessoas que frequentam o terminal, a equipe de Luciano foi ousada ao abordar a vida de mulheres de meia-idade que atuavam como profissionais do sexo. Em Programa de Senhoras, conhecemos as histórias de cinco senhoras e seus pontos de vista sobre trabalho, tabus, família, perdas afetivas, amores e sonhos.
Profundamente sensível, a câmera transita entre o cinema direto (observação) e o cinema de conversação (à maneira de Eduardo Coutinho), ao mostrar lugares do centro da cidade — Passeio Público, Rua São Francisco — e registrar interações com as personagens, que alternam entre risos, choros e confrontos. Das cinco entrevistadas, apenas uma não quis revelar a identidade. Ao contrário do que o público pode julgar antes de assistir, todas elas recusam o papel de vítima e se colocam no controle da situação, seja nas horas de folga ou na hora H.

Histórias de algumas mulheres do Tatuquara
No limite da fronteira sul de Curitiba, o Tatuquara foi (e segue sendo) uma das regiões que mais abrigaram (e seguem abrigando) recém-chegados à capital paranaense. Há pessoas que vêm em massa do interior do estado, refugiados latinos, imigrantes do continente africano. Cercado por rodovias que o separam do centro e dos turistas por longas distâncias, o Tatuquara parece uma cidade à parte.
Em 2016, Luciano e Christiane Spode se aproximaram de um grupo de cinco mulheres que trabalhavam nas imensas hortas comunitárias da região. É por meio desse grande espaço verde que a direção (Luciano) e a produção (Christiane) encontram magníficas histórias de vida femininas para o média-metragem Mulheres do Tatuquara (2016).
A trama une dois métodos das produções anteriores tratados neste texto — o registro das oficinas de cinema e o relato das personagens — e tem seu grande acerto nas escolhas: as oficinas, conduzidas por Jessica Candal Sato, são ministradas para seis meninas e adolescentes, e as entrevistadas são suas mães. As cenas mostram as mulheres de frente para a câmera e a meninas atrás. Os relatos são pessoais, dramáticos e sinceros.
"É muito poderoso quando você coloca uma câmera num lugar com sensibilidade. A gente acabou propiciando aquele contato de mãe e filha permeado pela realidade social daquele ambiente, e isso gerou momentos muito bonitos e emocionantes. A câmera possibilita conversas que talvez nunca acontecessem", relata Luciano.
Para o diretor e editor da obra, o resultado do filme desafiou as expectativas. Ao contrário do distanciamento ou do constrangimento que se poderia supor diante de um equipamento, essa experiência carregou uma atmosfera quase mágica.
