Este texto faz parte do Periferias Plurais, uma parceria entre o Plural, o Gasam e a Itaipu Binacional.
Instituído oficialmente em 23 de março de 2023 pela Câmara Municipal, o Corredor Cultural Ubuntu consolidou a periferia de Maringá como um polo efervescente de arte e resistência. Nascido da articulação de coletivos culturais, lideranças comunitárias e moradores dos conjuntos João de Barro I e Santa Felicidade, este corredor é um marco que reconhece a produção cultural intensa e diversificada desses bairros, que por muito tempo foram pouco valorizados pelo poder público.
A proposta do Ubuntu surgiu do acúmulo de anos de mobilização. Artistas da periferia, produtores e grupos comunitários reivindicavam algo que sempre existiu, mas nunca havia sido formalizado: um território reconhecido como polo cultural, capaz de abrigar apresentações, oficinas, saraus, feiras, memoriais, espaços de leitura e atividades que expressassem a identidade local. Com a aprovação do projeto, o corredor passou a abarcar um circuito que integra pontos importantes da vivência comunitária, incluindo a Praça Zumbi dos Palmares, considerada o coração do Ubuntu, a Capela São Benedito, o mural “Muros que Unem”, quadras esportivas, espaços de convivência e áreas destinadas a atividades artísticas ao ar livre.
Esse roteiro não é apenas geográfico; é também emblemático. Ele organiza memórias, reconhece trajetórias e valoriza espaços que, por décadas, foram essenciais para a formação cultural do bairro. As caminhadas culturais, que já acontecem há alguns anos, dão forma a esse percurso: visitantes percorrem ruas históricas, casas emblemáticas, pontos de encontro e locais onde a produção cultural comunitária ganhou corpo muito antes de existir qualquer lei.
A importância do Ubuntu para Maringá está justamente nesse gesto de reconhecimento. O corredor reafirma que a cultura da cidade não nasce apenas nos grandes palcos, nos auditórios centrais ou nos editais mais tradicionais, ela nasce, sobretudo, nas bordas, onde arte, memória e resistência se encontram com o cotidiano. Ao legitimar oficialmente a periferia como território de produção cultural, o Ubuntu amplia a compreensão do que é fazer cultura em uma cidade que ainda se debate entre modernidade e desigualdade.
Hoje, quase 3 anos após sua instituição, o panorama do Ubuntu é de avanços e desafios. A estruturação completa ainda não foi concluída, e parte das ações previstas permanece em estágio inicial, especialmente no que diz respeito à infraestrutura física. Por outro lado, iniciativas comunitárias continuam dando vida ao corredor: eventos culturais independentes, caminhadas históricas, ações de arte urbana e projetos educativos mantêm o Ubuntu em movimento, mesmo sem que todas as promessas oficiais tenham sido materializadas. O que existe hoje é um corredor vivo, sustentado principalmente pela força da comunidade e esse talvez seja o ponto mais revelador da sua importância.
O Ubuntu nasceu para reconhecer o que a periferia de Maringá sempre produziu: cultura, pertencimento e história. Revisitar sua trajetória é também revisitar a forma como a cidade enxerga seus próprios territórios e o quanto ainda precisa avançar para garantir que esse reconhecimento se traduza em política pública consistente.
Esse texto foi produzido por um jornalista com o apoio editorial da IA do Plural.