Thiago Tizzot saiu de sua zona de conforto.Como escritor, ele é mais conhecido por livros de fantasia como “O segredo daguerra” e “A ira dos dragões”. Agora, com o lançamento de “Esqueletos quedançam”, o autor curitibano deixa o gênero em que fez carreira paraexperimentar outras formas de narrativa.
“Esqueletos que dançam” compila seis contos– cinco deles publicados previamente e um inédito – que permitiram ao escritortransitar pelo conto policial (em “União da Vitória”, o inédito da lista) e pelaliteratura fantástica (no kafkiano “Caixas”). Em outro texto, ele busca astrivialidades da vida para narrar uma série de eventos que começa com umnascimento e termina com uma morte (em “Assim é a vida”, talvez o maiscinematográfico dos contos – ele parece adotar o ponto de vista de uma câmeraque acompanha os personagens à medida que cruzam uns com os outros).
Na entrevista a seguir, Tizzot – que étambém editor e livreiro da Arte e Letra, em Curitiba – fala sobre como foideixar um mundo de dragões que cospem fogo para escrever sobre algo tãoinsignificante quanto os insetos que dão nome ao conto “Formigas”.
Vocêé um escritor de livros de fantasia e "Esqueletos que dançam" é seuprimeiro livro de ficção fora do gênero. Para você, qual é a maior diferençaentre pensar uma história de fantasia e outra mais realista?
Sempre penso que boa literatura é feita deconflitos e de um bom texto. Com a fantasia, é fácil se esquecer disso edeixar-se deslumbrar pela magia, heróis e monstros que, no fundo, são apenasferramentas para se contar uma boa história com boas personagens. Fora da fantasia,mudam as ferramentas. Foi preciso descobrir que ferramentas eram essas, mas,passada essa etapa, o processo de narrar é parecido.
Écurioso que, nos contos do livro, você tenha optado por narrar acontecimentostriviais, como a chuva chata em “Assim é a vida” e a pedrinha de açúcar queaparece em “Formigas”. Poderia falar um pouco sobre como descobriu esseinteresse pelas coisas simples da vida?
Eu lembro que uma vez, conversando com oCristovão [Tezza, autor de “A tirania do amor”], ele me disse que o escritor éantes de tudo um observador da vida. Fiquei com isso na cabeça e tentavaobservar tudo que passava diante dos meus olhos. Na hora percebi que uma coisainteressante seria transpor, em alguma medida, as coisas do nosso dia a diapara a fantasia. Nesse caminho, acabei fascinado pela coisas simples e pelascoisas que são quase invisíveis para nós. Esses dias peguei um catálogo detinta e fiquei imaginando como seria a rotina de quem trabalha dando nomes paraas cores… Existem regras? Os nomes são aleatórios? De alguma forma, elesescondem uma mensagem? Isso passa um pouco também pelo desafio de escrever fantasia,qualquer um pode escrever uma história com um dragão cuspindo fogo. No início,todo mundo fica impressionado, mas depois que o dragão sai de cena, o quesobra? Acho que tornar as coisas triviais interessantes é o desafio.
Noscontos, você experimenta outros gêneros como o fantástico ("Caixas")e o policial ("União da Vitória"). Das experiências proporcionadaspelos contos, qual delas você sentiu vontade de seguir explorando?
Minhas primeiras leituras foram de livrospoliciais, Agatha Christie e Conan Doyle, e sempre penso em escrever um romancepolicial. Algumas vezes comecei a rascunhar uma história, mas a coisa nunca foipara frente. O que mais me atrai hoje fora da fantasia é o trivial, aconstrução de uma literatura com o simples. E suspeito que trabalhar comescritores de Curitiba nos últimos anos contribuiu de forma definitiva paraisso. Para mim, é difícil ler textos de [Manoel Carlos] Karam, [Jamil] Snege,Luci Collin, Tezza, [Luís Henrique] Pellanda, [Luiz Felipe] Leprevost e [Otavio]Linhares e não querer fazer um pouco daquilo. O escritor é uma soma de suasleituras, não podemos fugir do que lemos.

Serviço
“Esqueletos que dançam”, de Thiago Tizzot.Arte e Letra, 68 páginas, R$ 38.