Francisco Camargo, jornalista e cartunista histórico de Curitiba, morreu hoje em decorrência de uma pneumonia.
A Avenida João Gualberto, no Juvevê, tem três pontos famosos da boemia local. Vindo do centro para o bairro, o primeiro desses pontos é a Lanchonete Aquarius — onde foi gravado o famoso clipe de Acorda Pedrinho, da banda Jovem Dionísio —, um corredor estreito que termina em caixas de cerveja empilhadas e uma oportuna mesa de sinuca nos fundos do bar. Ao lado, a Pastelaria Juvevê, que distribui cartões amarelo e vermelho para clientes que se comportam mal. Lá você pode comer pastéis maiores do que uma língua de boi. O terceiro ponto é o bar Luzitano, com z mesmo, onde se sentava na última mesa, todos os dias, o mítico cartunista Pancho.
Entre esses pontos, contam os boêmios mais antigos do bairro que, a cada 10 anos, durante madrugadas chuvosas dos meses de inverno, abre-se um portal para outra dimensão, que leva as almas mais iluminadas que passam por ali.
Eu encontrava o Pancho todos os dias quando passava pelo Luzitano para cumprir tarefas ordinárias da vida. Éramos vizinhos. Sempre tive o bom-senso de nunca incomodá-lo. Às vezes acenava com a mão. Ele abria um sorriso, respondia ao aceno e continuava o que estava fazendo, ou seja, bebendo uma cerveja e revisando textos e desenhos. Um amigo me disse que ele odiava gente chata, e eu nunca soube se ele me incluía nessa categoria ou não.
Mas certa vez eu estava sentado no Luzitano com o Pancho e, duas mesas adiante, um outro jornalista de sua geração, famoso e também falecido recentemente. Eles haviam tido uma briga décadas atrás e se odiavam. Ainda assim, frequentavam todos os dias o mesmo bar. Nunca se cumprimentaram, muito menos se falaram, mas não abriam mão de frequentar o mesmo boteco.
Para a maioria das pessoas, Pancho era o jornalista Francisco Camargo, lenda do jornalismo desde os anos 70. Era mais fácil o Pelé furar um chute do que o Camargo cometer um erro ortográfico. Não passava nada. Já para mim, Francisco Camargo era o Pancho, um cartunista clássico que desenhava em papel de fax — pesquisem no Google o que é fax — e fazia piadas cotidianas sobre Curitiba. Seus traços eram simples, mas de acabamento elaborado com hachuras e aguadas. Todos os seus personagens exibiam uma bundinha de fora. Era sua marca registrada.
Foi o Pancho quem me trouxe para Curitiba, há 26 anos. Eu já publicava no caderno Fun, da Gazeta do Povo, quando resolveram criar o popular Primeira Hora. E eles precisavam de um ilustrador. Quando deixei por lá um portfólio, o Pancho me ligou e disse: “Venha, tá contratado”. Dividi com ele tiras diárias e cartuns por um ano, até o pasquim fechar. Depois, publicamos tiras diárias na GP, ele com seus Rollmops & Catchup e eu com Salmonellas. As tiras meio que se complementavam, a começar pelos títulos. Durou até o jornal impresso fechar.
Depois ele veio para o Plural, onde publicou por um bom tempo crônicas ilustradas com suas tiras em quadrinhos. Algumas vezes ele deixava um maço de desenhos comigo para eu digitalizar. Eu pensava em não devolver mais, mas ele sempre vinha buscar, infelizmente.
Pancho morreu hoje, por complicações de uma pneumonia. É bem provável que um portal para outra dimensão tenha se aberto quando ele deixava o Luzitano e levado sua alma iluminada. Vai ser estranho passar por ali e não vê-lo na última mesa, com uma cerveja, uma pilha de papéis e caneta na mão, rindo mentalmente da cara da Humanidade.
Abaixo, alguns cartuns publicados pelo Plural.






Aqui um texto sobre o Pancho, de 2008, recuperado do antigo jornal onde trabalhávamos:
Pancho é um gênio
Meu vizinho de tira no jornal é o Pancho, autor da série Rollmóps & Catchup — talvez a tira mais celebrada nos botecos de Curitiba. Aliás, somos vizinhos há… ahn… quase uma década.
Publicamos juntos no Primeira Hora, quando enchemos de mendigos as páginas do jornal: ele com a dupla que dá nome à tira, e eu com o Zé Mané, meu primeiro personagem baseado em mim.
Bem, o fato é que as tiras do Pancho são brilhantes. Normalmente vêm com uma ironia tão sutil que é bom conhecer o autor para poder rir junto com ele (e para ter certeza de que ele não está rindo da sua cara). A dupla de personagens — reparem na bunda de fora deles — é gaiata, niilista, inusitada; praticamente surreal, eu diria.
E ele tem um método especial de desenhar, diferente de todos os cartunistas que já vi: desenha na própria mesa de computador da redação, em meio a toneladas de papéis e jornais, em papel de fax mesmo, com uma caneta nanquim descartável e aquarela. Quando abre a gaveta de sua mesa, explodem para fora maços e maços dessas tiras.
Ao contrário das minhas tiras, o Pancho não precisa subir num andaime para construir suas piadas. Elas são erguidas por observações inteligentes, sacadas filosóficas direto do balcão do boteco, um sarcasmo às vezes melancólico, frases inusitadas e situações nonsense — como quando a dupla desembesta a ler um trecho de Freud ou aparece, inexplicavelmente, falando latim.
Benett