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"O mysterioso assassinato de Haroldo de Alencar", Capítulo 10

Leia o capítulo semanal do romance policial de Nicolas Wolaniuk que o Plural está publicando

"O mysterioso assassinato de Haroldo de Alencar", Capítulo 10

Quando voltei para meu apartamento, encontrei a carta. O envelope era de papel pardo, sem nenhuma informação a não ser a alcunha do remetente e o meu nome. Não precisei da argúcia de Terra para concluir que a correspondência tinha sido entregue sem envolvimento do correio. O próprio médium, ou alguém enviado por ele, tinha se incumbido de enfiar o envelope por debaixo da porta.

A caligrafia era exígua, espremida ligeiramente acima das linhas pautadas do caderno. As letrinhas se encolhiam sobre o branco da folha envergonhadas. Só consegui ler apertando bastante os olhos.

Querida Amália,

Li o seu bilhete com muita surpresa. É raro que as pessoas desistam no último momento de me visitar. Geralmente, quem vem até a minha porta acaba por entrar. Ainda assim, gostei de ler suas breves palavras, por mais que me desagrade seu tom desafiador. Eu nada tenho a ganhar provando para você que a alma sobrevive à morte. Que diferença me faz que você acredite ou não que é possível para os mortos se comunicarem conosco? É você que perde em não perceber. As melhores mentes da arte e da ciência confirmam, desde a metade do século passado, o que o melhor dos gregos intuía: os homens podem, habitando este mundo, alçar vôos ao outro. Essa é a grande revolução científica de nossa época.

Mas você – é bastante claro para mim – já sabe disso. Seu coração, se ainda não tem consciência da verdade, já anseia por ela. Não teria vindo até minha porta, feito o pedido que fez, da maneira que fez, se não nutrisse, intimamente, a ideia que sua mãe pode ser capaz de se comunicar consigo. Mal posso imaginar como lidará com o fato de que ela, de fato, apareceu para mim.

Você acreditaria se eu dissesse que a vi logo depois de ler seu bilhete? Ela circulava ao meu redor, movia as cortinas, mostrava-se inquieta. Perguntei ao vento, em alto e bom som: “Alguém está aí?” e, ato contínuo, vi, com meus próprios olhos, a caneca em que tomava café quebrar em pleno ar. Como se tivesse sido esmagada por uma prensa invisível, imediatamente a louça que jazia sobre a mesa se desfez em pedaços inumeráveis. Depois, perguntei: você é a mãe que procuram? A ira dela deve ter se acalmado, porque a próxima manifestação foi mais branda. Vi, na minha estante, como se fosse puxado por uma mão imaterial, um volume escorregar para fora da estante.

Até aí as coisas estavam indo bem. Havia uma comunicação acontecendo. Mas a pergunta talvez tenha sido demasiado precipitada. Convidei-a a usar meus serviços mediúnicos. Disse que estava para escrever para sua filha o que quer que ela quisesse escrever. E nada mais aconteceu.

Esses fatos devem ser para você inverossímeis. Talvez sejam a prova cabal, na sua concepção, da minha charlatanice. Nada posso fazer, se for esse o caso. É bastante provável que ela retorne para terminar de dizer o que tinha a dizer. Se for do seu agrado que eu transmita a mensagem para você, responda, por gentileza, essa carta. Estou certo de que será prova suficiente da minha capacidade mediúnica o fato de que descobri seu nome e endereço a partir simplesmente do seu bilhete.

Sem mais no momento,

Médium do Arpoador

Terminei de ler a carta e a coloquei sobre a mesa. O que eu deveria pensar sobre isso tudo? Não sabia se acreditava ou não nas palavras do Médium do Arpoador, mas ter recebido uma resposta me surpreendeu. Como ele tinha descoberto meu endereço?

Com um susto, vi que havia um apêndice colado na carta. Ali, a letra era ainda mais miúda e difícil de ler:

P.S. Um fato curioso acaba de acontecer. Dormi ontem depois de ter escrito a sua carta.

Coloquei o ponto final na história logo antes de ir para cama. Acordei hoje cedo com a sensação de uma boa noite de sono, dormida sem interrupções, mas, para minha surpresa, percebi que estava com calçados nos pés... Do mesmo modo, lembro de ter lavado as mãos antes de ir me deitar, mas acordei com os dedos sujos de tinta! Quando fui até a minha escrivaninha, encontrei, sobre a mesa, uma folha que não estava lá no dia anterior. Sobre ela, estava escrito um pequeno parágrafo que talvez lhe diga respeito: Apesar do que fizeram com ele, seu espírito está em paz. Ele confia que você será capaz de desvendar a identidade do assassino. Estou orgulhosa do que tem feito.

Alternando entre o assombro e o ceticismo, controlei o tremor das mãos para escrever uma resposta. Várias vezes fui e voltei, ora amassando as folhas que me saíam erradas, ora continuando, apesar do erro. A carta que escrevi em resposta ao médium foi mais ou menos assim:

Caro Médium do Arpoador,

Muito me surpreende o fato de o senhor ter tornado para mim tão rapidamente a partir do pequeno bilhete que deixei segunda-feira à noite em sua porta. Minha intenção era entrar em sua casa, conversar com o senhor. Mas, quando estava na soleira da porta, senti as mãos tremerem de medo. Lembrei do meu pai que sempre disse que consultar os mortos era coisa do demônio ou, pior ainda, de outros deuses. Tive medo: escrevi o bilhete que você leu e fui embora o mais brevemente possível.

Embora um tanto reticente de início, vou me fiando mais nos seus talentos e na verdade das coisas que me disseram. Estou tão surpreendida com este retorno que me peguei, agora mesmo, pensando que talvez os eventos sobrenaturais que você narrou não sejam apenas fantasias de mau gosto.

É claro que gostaria de receber notícias suas dos contatos eventuais que você trave com a minha mãe. Como você mesmo disse, meu coração anseia por algo e, tolo de solidão e esperança, não exige a verdade. Uma mentira bem contada já me satisfaz.

Esse último evento a que o senhor se referiu, para mim cheira mais a história de fantasma do que a coisa realmente acontecida. Mas quase esqueci disso quando li as últimas palavras e escutei nelas o alento legítimo da voz da minha mãe... Por favor, continue escrevendo!

Muito grata pelo retorno,

Amália

Só quando terminei de redigir essa resposta lembrei que a outra carta endereçada a mim, a de meu pai, continuava me esperando sobre a mesa. Tinha combinado com o comissário que estaria, no dia seguinte, no Botafogo, à porta da casa onde morava Haroldo de Alencar, para entrevistar Clarisse, a tia dele. Depois iríamos ao enterro de Haroldo.

Os olhos pesavam e acabei decidindo que a carta do meu pai bem que podia esperar.

Naquela noite, sonhei que caminhava de mãos dadas com a minha mãe pelo cafezal. O sol pendia de modo que podia ser tanto o começo da manhã quanto o fim de tarde. Íamos em direção à casa velha.

“Venha, Amália, quero te mostrar uma coisa.”

Pôs a mão sobre o intrincado desenho de madeira nas folhas da porta e abriu, com um só golpe, o passado.

“Você não vai me contar o que é, mãe?”

Ela se agachou e falou de frente para mim.

“É uma lembrancinha. Uma coisa que eu trouxe para você lá do Rio. Quer adivinhar?”

“Um livro de histórias?”

“Você é muito espertinha.”

Soltei a mão dela e subi correndo na direção das escadas. Uma fita policial impedia a passagem, esticada de um a outro corrimão. Sem ter como subir até o meu quarto, notei que, ao lado da escada, havia porta de um elevador. Não era um elevador qualquer. Eu estava de frente ao elevador barulhento do apartamento da Candelária. Mesmo o interior era idêntico: o mesmo tipo de botões e o mesmo banquinho vazio de ascensorista. Sem saber direito como mexer naquilo, apertei botões a esmo, esperando que o elevador subisse. Senti um tranco. As cordas rangeram agudo e fechei os olhos, esperando que, a qualquer hora, a engenhoca despencasse, mas enfim a porta abriu e vi o andar de cima da minha casa.

Saindo do elevador, vi minha mãe subindo calmamente a escada. A fita tinha desaparecido. Já não me importava, porque tinha a urgência de encontrar o presente. Fui até meu quarto. Não havia nada sobre a minha cama. Os armários também estavam vazios.

“Tá frio”.

Tentei o banheiro, depois o quarto de hóspedes e a sala de visitas. Na biblioteca, encontrei meu pai, sentado na escrivaninha, escrevendo com dificuldade uma carta. Já estava velho e suas mãos tremiam ao segurar a caneta-tinteiro. Ouvindo meus passos, virou-se lentamente, vencendo com dificuldade a ferrugem do corpo. Seus olhos brilharam ao me reconhecerem. Convidou com um sorriso aberto:

“Venha cá minha filha. Veja que estou te escrevendo uma carta com muito carinho. Por que você não me escreve, querida?”

Gaguejei algumas sílabas, sem conseguir articular resposta.

“É muito bobo o seu pai, não é, Amália? Você ainda não aprendeu a escrever.”

Meu pai me dispensou com um sorriso débil. Depois, com a fala lenta, conseguiu articular antes que eu saísse novamente da biblioteca: “Não se esqueça do seu velho...”

A voz, inicialmente frágil, ecoou insólita, como se ressoasse em uma catedral vazia. E, ao invés das repetições seguidas de suas palavras irem cada vez mais amainando, elas cresceram até que senti uma dor aguda perfurar meus ouvidos. Fechei a porta com violência, selando o estrondo no escritório de meu pai.

Corri até minha mãe, ao pé da escada.

“O que aconteceu, filha?”

“Não tô encontrando, mamãe.”

Me tomando novamente pelas mãos, ela me levou da porta da biblioteca até seu quarto.

O caminho era um longo corredor. Como na infância, suas paredes eram repletas de retratos. Mas, nos retratos do sonho, não reconheci nossa família. Via, em vez dos rostos de outrora, os personagens da investigação. Um retrato para Pires Crespo, um retrato para Raymundo Silva, um retrato para Antônio Alves... Minha mãe, não notando meu incômodo, parou de frente à porta de seu quarto. Com a mão na maçaneta, sem abrir, perguntou:

“Você está preparada?”

A voz doce me trouxe novamente para a infância. Ansiosa, fiz que sim com a cabeça. Quando a porta girou para dentro e entrei no quarto, encontrei, em cima da cama dos meus pais, o corpo nu e morto de Haroldo de Alencar.

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