Preste atenção na cena:
O personagem narrador de Máquinas como eu,romance mais recente do inglês Ian McEwan, está transtornado com o contexto(fictício) de Londres, numa hipotética década de 1980. Há o assassinato de umprimeiro ministro, uma bomba explodida em um hotel, a cidade está chocada, jáexiste internet e robôs quase idênticos aos humanos começam a ser vendidos,ainda em edição limitada. Ele tem um: Adão. A inteligência artificial estáavançadíssima, os compradores podem programar seus robôs conforme traços depersonalidade que lhes convêm. Uma utopia distópica, na contradição dos termos.Em meio a esse arrazoado aterrorizante, o personagem guarda dúvidas a respeitoda adoção de um menino, Mark, que a esposa quer muito.
Depois de ler as notícias sombrias que acontecem dolado de fora de sua janela, ele vai até o quarto onde a mulher e a criançamontam um quebra-cabeças:
Eles estavam dequatro, montando um quebra-cabeças numa bandeja de chá. Quando entrei, Markergueu uma peça azul e anunciou, com ar sério, citando sua nova mãe: ‘O céuazul é o mais difícil’.

Literatura é isso. Não é só isso, mas é muito isso.Retomo essa cena lá no final. Agora, uma pequena reflexão:
Dois modelos consagrados pela lógica são a dedução e aindução. Na primeira, parte-se de uma premissa maior e a partir delaencaixam-se outros pressupostos que nos levam a conclusões irrefutáveis.
Todo o ser vivo é mortal | Eu sou um ser vivo | Logo,eu sou mortal.
Desculpe o spoiler, mas: Todo ser vivo é mortal | Vocêé um ser vivo | Logo, você é mortal.
Inescapável (#tamojunto).
A indução faz uma espécie de caminho contrário. Porexemplo, percebo que o cobre é bom condutor de eletricidade, aí percebo que ometal x também é, e o metal y, assim como o metal z e todos os metais quesubmeto ao experimento. A premissa se constrói no fim: todos os metais são bonscondutores de eletricidade. É meio que um caminho inverso ao da dedução.
Isso já vem lá de Aristóteles. Algo de que ele falou,e que depois foi retomado pelo semiótico americano Charles Peirce, mas poucagente ouviu dizer, é sobre o processo nem de dedução nem de indução, mas deabdução, que nada tem a ver com sequestro extraterrestre.
Abdução tem a ver com insights, sacadas que nãoseguem um processo lógico universalizante, isto é, não nos conduzem todos a umapremissa única. Relaciona-se com o deslize dos significantes que se associam demodo livre-associativo. Unem-se dois quadros conceituais diferentes para fazeremergir daí um sentido novo, costurado pelas subjetividades (o sujeito que falae ouve, que escreve e lê etc).
Há uma performance (Barbed hula) da artistaisraelense Sigalit Landau que sempre me chamou muita atenção. Num vídeo em looping,aparece o corpo nu de uma mulher, na praia deserta, e ela tem um bambolêgirando ao redor de sua cintura. Só que, veja bem, o bambolê é feito de aramefarpado. E marca o corpo da mulher de um jeito cuja dor a gente sente e fazcareta e solta um ssss chiado.
Ora, não há um processo dedutivo nem indutivo aí, masabdutivo, que é em grande parte o processo criativo da arte. Pense nosignificante bambolê: a que outros significantes ele remete? Pensei aqui, porexemplo, em diversão, ludicidade, brincadeira infantil, alegria, ou, associandoao título do trabalho dela, em hula, dança havaiana que consiste emgirar os quadris de forma semelhante a quem brinca de bambolê. Por outro lado,o barbed é o farpado, é o que agride, é o que impõe um limite que, seultrapassado, pode machucar. Bambolê e arame farpado fazem parte de quadrossemânticos distantes entre si e, talvez por isso, nos provoquem oestranhamento, a testa franzida. A junção de dois significantes que remetem acampos tão diferentes não nos permite mais chegarmos todos a uma premissa ouconclusão idêntica.

Nós somos convidados a preencher com os nossossignificantes essa união insólita entre bambolê e arame farpado. Se nós vamosentender isso como uma bobagem, ou como uma reflexão sobre a opressão do corpofeminino ou como uma leitura dos muros que separam Israel e Palestina ou como afronteira entre o eu e o outro, ou sei lá mais o quê, aí é por nossa conta.Quando falamos em abertura da obra de arte, acho que é por aí, o que nãosignifica, no entanto, que qualquer interpretação seja válida. Não posso pensarqualquer coisa, como alguns dizem sobre a arte, mas também não fico preso àpergunta escolar do tipo “o que a autora quis dizer?”, como se houvesse apenasuma resposta certa, como se devêssemos nos valer da dedução e da indução paraacharmos a premissa única da conclusão interpretativa. É a nossa vez detrabalhar, somos nós que completamos com sentidos possíveis e os penduramosnesse espaço lacunar e abissal que há entre um bambolê e um arame farpado.
Da mesma forma, veja só, o personagem de McEwan estavacom a cabeça transtornada por causa dos eventos acontecidos em seu país. Entranuma sala em que a esposa e o filho prestes a ser adotado montam umquebra-cabeças. E ele apenas ouve a criança dizer: “O céu azul é o maisdifícil”.
Ora, podemos passar batidos e seguir a leitura. Masvocê não acha que esse céu azul do quebra-cabeças ganha amplitude? Céu azul,céu de brigadeiro, símbolo de céu ideal, sem nuvem, sem turbulência, tudo claroe limpo. O céu sai do plano literal e ganha o terreno da metáfora. Chato seriase o autor nos desse a interpretação, fizesse o personagem refletir e costurara situação nebulosa do país com a dificuldade em encaixar o céu azul emum quebra-cabeças. Ele coloca esses dois elementos, o resto é com o leitor. Nãoà toa o Umberto Eco chamava, em tom elogioso, o texto literário de “máquinapreguiçosa”. O autor joga uns elementos ali e somos nós que devemos fazê-lostrabalhar, engrenando-os, conectando-os, criando novos significantes que deemconta de unir partes aparentemente desencontradas, como o bambolê e o aramefarpado, como o contexto político e o céu azul.
Não por acaso, escritores que já tiveram questões arespeito de livros seus em vestibulares “erraram” a resposta. Aliás, errar temum sentido bonito, a errância é própria de quem se desloca da estabilidade evagueia, sempre em busca de algo, que muitas vezes nem sabe o que é.
O título completo do romance de McEwan é Máquinascomo eu. E gente como vocês. E quanta coisa cabe nessa “gente como nós”.