Pular para o conteúdo

Meu desejo da encruzilhada

Têm coisas que ultrapassam os limites, até mesmo para “ele”

Por Admin
Meu desejo da encruzilhada
Publicado:

- ... e assim, eu te invoco!

Kléber terminou de falar, ajoelhado numa toalha aveludada vermelha, meio brilhante. Na sua frente, desenhado com sangue de galinha d’angola, uma mandala invertida com velas pretas nas pontas e velas amarelas nos pontos do pentagrama. Tinha oferendas de comida, de todos os tipos, porque ele realmente não sabia o que usar. A parte mais importante era clara: estava numa encruzilhada.

Um cheiro de enxofre apareceu no ar, enquanto o vento se agitava como no momento que antecede a tempestade. Kléber foi obrigado a fechar os olhos por causa do pó das ruas, protegendo o rosto com o braço esquerdo - ele fez todo o ritual com a canhota, caso os mais antigos tivessem razão sobre isso também. Quando o vento cessou e ele voltou a abrir os olhos. Para a absoluta alegria e espanto, lá estava “ele”.

- Olá Kléber.

- Você veio…

- Você chamou. Eu vim.

- Nossa, eu… eu…

- Será que dá pra você não ficar ajoelhado? As pessoas fazem muito isso pro meu pai, dá um nervoso! Tipo quando chamam a gente de “senhor”, sabe?

- Opa! - Kléber se levantou, tirando o pó de cima da roupa. Ficou surpreso de ver que o convocado era um pouco mais baixo que ele.

- Então... eu sei porque você me chamou. Quer dizer: eu sei pra quê você me chamou.

- Pra vender minha alma!

- Ah, Kléber!

- O que foi?

- Não precisava dizer! Tava um clima sinistro gostoso, de mistério. Quando a gente fala tudo o que tá acontecendo parece que a nossa vida vira um capítulo de novela ruim.

- Desculpe.

- Orra… Vamos tentar de novo, o clima?

- Claro, claro.

- Então - ele dá uma limpada na garganta, faz-se um segundo de silêncio - Kléber! Eu sei pra que você me chamou.

- Sim, senhor!

- Você sabe o preço?

- A minha alma!

- NÃO FALA! Poxa, Kléber…

- Desculpa, desculpa.

- Saí de casa pra isso...

- Não, não, desculpa! Desculpa mesmo. Eu sou muito distraído.

- Vou falar a mesma coisa, e você não diz o que é! Até porque tá aqui no documento, ó - ele mostra o contrato, todo escrito em letras serifadas contra uma espécie de papiro.

- Uau, que bonito.

- Quando eu te perguntar você não precisa me explicar nada. Mensplaning pra cima de mim?

- Perdão, foi sem querer. Mas aproveitando que a gente parou...

- Fala, vamo.

- Como eu te chamo? Você tem muitos nomes, eu fiquei na dúvida. Devo usar algum pronome de tratamento…

- Nunca use o meu nome.

- Claro, claro… por quê?

- A gente acabou de se conhecer, por isso. Não te dei essa intimidade. Depois do contrato, você mora lá em casa uns milênios, aí rola.

- Tá.

- Na dúvida, me chama de “meu anjo”.

- Sério?

- Claro que é sério. Sou o primeiro, não enche!

- Sim, sim, meu anjo!

- Voltamos pro clima… Kléber! Você sabe o preço?

- Sim, meu anjo!

- Então assina aqui.

- …

- Então assina aqui! Assina… ô Kléber, qual é? O que aconteceu?

- ... eu me senti muito estranho te chamando de “meu anjo”, deu um nó aqui. Sabe, sei lá, meio íntimo demais. Não posso te chamar de senhor?

- Senhor é meu pai. Literalmente.

- Então deixa eu te chamar de outra coisa.

- Chama de rei. Eu gosto de rei.

- Gosta? Ah, ótimo. Acho que nunca vi ninguém te chamando de rei.

- Claro que eu gosto, é por isso que eu uso essa coroa.

- Que coroa?

- Essa!

- ... isso não são chifres?

- Nunca foram! Por que eu iria ter chifres? Por acaso na minha queda o calor da reentrada ia causar esse efeito? Se fosse assim o Neil Armstrong também teria.

- Eu sempre pensei que fossem chifres. E não só eu.

- Eu sei, é culpa daquele Gabriel. Ele posava pra pintores da Renascença e espalhou pra todos essa fofoca.

- De qualquer maneira, eu entendi.

- Ótimo. Bóra lá… Kléber!

- Oh, meu rei!

- Você veio nessa encruzilhada pra… do que você tá rindo?

- É que antes a gente falou de novela. Quando eu disse “oh, meu rei” eu me senti muito aqueles atores que fazem sotaque de merda quando interpretam baianos.

- Eu vou embora.

- Não! Não, não vai, é importante!

- Ok… Kléber!

- Meu rei!

- Você invocou e eu vim. Aqui está o contrato. Ele tem três espaços para serem preenchidos: seu nome completo, o seu desejo, a sua assinatura. Qual o seu nome completo?

- Kléber Augusto Saroiti.

O contrato flutuou no ar e, como se brotasse sangue de dentro, preencheu uma das três partes vazias com o nome completo de Kléber.

- Está preenchido. Agora… qual é o seu desejo?

- Eu quero ser um gênio do blues.

- Repete.

- Eu quero ser um gênio do blues!

- Mas eu nunca vi você encostando numa guitarra, Kléber.

- Mas é o que eu quero.

- Desde quando?

- ... desde semana retrasada, quando eu ouvi a história do Robert Johnson.

- Kléber… me diz o nome de três grandes nomes do blues.

- Tem que fazer testes pra…?

- Não fala pra que serve o contrato que eu vou embora sem te dar nada!

- Tá bom, é que eu não sabia que tinha que fazer teste. Bom… Robert Johnson…

- Esse não vale, né?

- Péra, não muda a regra, você falou que podiam ser três. Um já foi.

- Tá bom. Pode ser. Mais dois.

- É… a Aretha Franklin.

- Ok, perfeito. Desculpe… talvez eu tenha te julgado mal, de maneira prematura. E isso me chateia muito porque o meu pai fez o mesmo comigo. E o último nome?

- ... Coldplay!

- ... é, não vai rolar, Kléber!

- Mas eu quero, muito!

- Quando eu soube que millenials queriam tudo pra ontem, sem esforço, eu achei que era exagero. Mas pelo visto eu vou vir parar em muita encruzilhada nos próximos anos.

- Eu não posso fazer isso com o blues porque não sou negro?

- Oi?!

- Porque eu não tenho ritmo em…

- Pára de falar Kléber, porque tem pecado que nem eu topo! Tá maluco? Isso é racismo, puro e simples! Vocês são uns merdas que animalizam os outros pra se sentirem superiores. Esse papo do contrato do Johnson comigo é mentira! Ele, simplesmente, sentou a bunda perto de alguém que ensinasse ele e praticou até o dedo sangrar. Mas pra branco entender que alguém “assim” seja um gênio tem que ter uma outra explicação, né?

- Desculpa, eu não…

- “Eu não sou racista, só falo coisas assim porque, no fundo, eu sou”.

- Tá bom! Tá bom! Já parei. Você nunca fez contrato com músicos?

- Nunca! Quando você escuta essas maravilhas você se sente abençoado, elevado, você compreende através da arte que existe algo além do mundano. Você acha que eu quero isso?

- Faz sentido. Mas então… o que eu peço?

- ... posso sugerir?

- Sim, meu rei.

- Você assina e daqui por diante, até o fim dos seus dias, você vai poder falar sobre blues em rodas de conversa. Você vai poder citar músicos, músicas, vai comentar sobre a “blue note” e escala pentatônica como se realmente entendesse profundamente sobre isso. Vai conhecer o histórico e algumas anedotas da vida dos mestres do estilo.

- Uau… e eu posso entender de vinho também?

- Tudo tem limite, você tem que escolher que tipo de chato você quer ser.

- O chato do blues! O chato do blues!

- Perfeito.

O contrato se completa com “O CHATO DO BLUES”, faltando agora apenas a assinatura.

- Kléber, já sabendo que, ao assinar, você um dia virá para a minha casa…

- Sim, meu rei.

- ... você dá um jeito de se livrar desse racismo estrutural? Porque é insuportável.

- Sim, meu rei. Eu prometo.

- Ok, pode assinar com isso aqui.

- Uma caneta Bic, senhor?

- Claro. No seu país, faz todo o sentido do mundo.


Esta texto foi criado inspirado no podcast História Preta, no episódio “Deus e o Diabo na Encruzilhada”. Escute o episódio clicando aqui:
https://www.b9.com.br/shows/historiapreta/deus-e-o-diabo-na-encruzilhada-a-origem-do-blues/

Mais de Admin

Ver todos

De nossos parceiros