A esposa, os filhos e a sogra foram passear. Interrompo a leitura de "Bambino a Roma", do velho Francisco, com a qual prazenteiramente me recreava, para costurar esta crônica.
Por onde seguir? Talvez dizendo que gosto da cidade nessa época. Do dia 26 de dezembro até os primeiros cinco dias de janeiro é um dos melhores períodos do ano. Nada pode ser mais calmo, mais silencioso. O trânsito é leve e sem pressa. Os dias compridos, sem reuniões ou conflitos de trabalho.
Já não sei se tenho vizinhos de cima ou mesmo nos demais blocos do condomínio, tal é a quietude. Furando esse remanso mormacento somente latidos de um cachorro vindo das janelas do alto do quarto andar.
Por outro lado, é claro que os shoppings, com suas liquidações, estão movimentados com pessoas indo trocar as roupas que ganharam de presente no Amigo Secreto e não serviram.
Para nossa alegria pessoal, as livrarias de rua (leia-se Arte & Letra e Telaranha) com seus cafés estão de portas abertas. E especialmente ali mulheres passam de saia e sandália com os cabelos cheirando a creme carregando um livro de poemas da Ana Martins Marques até o caixa.
Um dia vamos ao Cine Passeio com os filhos e encontramos o grande cartunista Benett com as suas crianças na mesma sessão de "Moana 2".
O Barigui, o Tanguá, o Tingui e o Jardim Botânico têm os seus passeadores e os seus atletas. O Passeio Público também, além dos equívocos habitués cheios de intenções sentados nos bancos.
Observadores calmos da decadência dos homens (o que mais se há de fazer quando se é um cronista urbano?), confirmamos que os bares tristes estão abertos com personagens de Dalton Trevisan escorados no balcão. E que há alguns botecos para lá de pasteurizados também em funcionamento com outros tipos de personagens.
Anoitece e as ruas já voltaram a ficar mais escuras do que estavam nos últimos dias, uma vez que boa parte dos enfeites e luzes natalinas foram desmontadas e desligadas.
Noutra tarde, saio sozinho caminhar em direção ao centro. Não é necessário abrir picadas entre o povaréu, há quantidade significativamente menor de transeuntes para lá ou para cá. É a cidade a dar uma pausa em todas as suas alcatéias de ocorrências. Menos a especulação imobiliária, que continua a levantar da noite para o dia os seus mil prédios caros nessas áreas. Curitiba está crescendo, será que feito uma São Paulo, sem harmonia, alterando para sempre e para pior suas restantes áreas com edificações antigas, suas cada vez menos arborizadas ruas?
Volto para casa. Ainda tenho algum tempo sozinho, pois a família decidiu lanchar no Novo Batel e levará uma horas pelo menos para retornar de sua deambulação.
Amo com dom e quase sem nenhum susto quando posso ser um tatu profundo, quando posso me quedar em estado de crepúsculo diante de um filme na TV até sentir que, feito um carrapato chupador de sangue, o tédio se agarrará na noite de verão. Tivesse uma garrafa de uísque em casa, eu tomaria uma dose com muito gelo.
Eu escrevi “tédio”, mas a palavra não é exata para o momento. Acontece que, veja bem, feito um velho navegador, acabo sempre por manter meu tumulto. É assim que, de um jeito de outro, realizo o meu trabalho de escritor e, mesmo com dez minutos de atraso, entrego esta indolente crônica para o meu editor.