Ele intercala goles de expresso com outros de água sem gás e sem gelo. Enquanto fala sobre as suas conexões com Curitiba, gesticula os braços e modula a voz. Em menos de dez minutos, dá para perceber que Luís Henrique Pellanda é um contador de histórias. Nas crônicas, nos contos, nos livros, na internet, nos cursos e oficinas que ministra, ou ali, na mesa de um café no Centro da cidade. Há quem assimile a vida assim, por meio de narrativas.
As histórias de Pellanda começam em casa,com ouvidos atentos à mãe, que narrava fábulas cheias de aventura e personagenspitorescos. Do pai, de família italiana, herdou o vozeirão e o talento para amúsica. De ambos os progenitores, a sensibilidade para as artes. “Acho meu pai,tanto quanto minha mãe, pessoas muito sensíveis ao outro”, diz.
Foi nas estantes de casa que começou suaformação de leitor – o que mais tarde o levou a escrever. No princípio eram asenciclopédias, compradas do vendedor que batia no portão da residência no CapãoRaso, e a Bíblia. Entre capas de couro, papel couché, ilustrações e letras douradas, Pellanda aprendeu a ler e anarrar: “Sempre gostei de folhear, desenhar as coisas a partir da enciclopédia,fazer histórias em quadrinhos”, diz. Depois veio a assinatura do “Círculo doLivro”, uma espécie de clube literário dos anos 1980 responsável por apresentarao jovem Pellanda os trabalhos de outro Luís – o Fernando Veríssimo.
Depois vieram Rubem Braga e Drummond, entre outros que chegavam sempre pelo correio. Desde cedo, Pellanda associa a leitura à exploração da subjetividade, da possibilidade de fala e do desenvolvimento do pensamento próprio. Mais do que o estudo acadêmico, foi o acesso a livros e a materiais artísticos que formaram o jornalista, escritor e músico. Dos oito aos dez anos, Pellanda fez aulas de piano na casa de uma senhorinha; da infância até boa parte da adolescência, frequentou o ateliê do artista plástico Luiz Carlos de Andrade de Lima.
Luís Henrique Pellanda
Carregando a imensa pasta quadrada com os papéis e as tintas, nas viagens de expresso até a rua Buenos Aires, Pellanda aprendeu uma lição importante sobre a ideia de representação. O escritor conta que o professor – sua primeira referência artística – lhe dava um exercício: que escolhesse, no ônibus, a pessoa que mais achasse interessante, e a observasse. A proposta consistia em chegar ao ateliê e desenhar o objeto de estudo. Durante um dos exercícios, o professor passou a questionar quem era a figura do desenho. “Não sei, não perguntei para o cara. É o cara do ônibus”, respondeu Pellanda. Quando a pergunta se repetiu, e o “não sei” também, veio a lição: “Claro que você sabe quem ele é, porque esse cara foi você quem fez, não é o cara do ônibus”, teria dito Lima.
Ele virou uma chave. Para Pellanda, odiálogo deixou claro que era preciso um filtro: “Você olha para as coisas de umjeito, muitas vezes, imenso, e você tem que saber controlar essa força paraentender melhor o que você sente em relação às coisas que você vê, que vocêconhece”, explica. Não se trata da pessoa real, jamais, mas sim de umarepresentação criada pelo artista.
O conceito se expande, ainda hoje, para os textos.“Aquilo é a representação de algo que eu vi, ou que eu pensei, moldado para quediga algo a alguém”, diz. Para o escritor, a história é uma representação compoder de provocar uma reação: “O que é relevante é a experiência da leitura. Oque importa é a experiência que aquilo produz no leitor. Não importa seaconteceu ou não, porque a reação é que é real”.
A vida por meio de histórias
Talvez isso explique por que ele experimenta a vida por meio de histórias. Para Pellanda, são esses pequenos fragmentos que formam a nossa leitura do mundo: “A gente evoluiu a partir das histórias que nos contam, que são feitas para criar tradição, guardar conhecimento e passar para outra geração, e para criar emoção – movimentar as pessoas”, diz.
Pellanda chegou ao jornalismo por umaespécie de vocação para ouvir e observar, e pela vontade de se aproximar de umambiente no qual as pessoas escrevessem para ganhar a vida. Começou na sala deestar de sua mãe, cheia de senhorinhas aprendendo a tricotar e de visitas detodo tipo – padre, gaiteiro, amigos de primos e uma multidão de parentes.
Embora tenha desistido da carreira comoartista plástico aos 16 (“Eu era ruim!”, reconhece entre goles de expresso), aescrita – presente desde a infância, nas histórias em quadrinhos baseadas naleitura das enciclopédias – se estabeleceu com força. Na pré-adolescência jáescrevia contos. Jogava boa parte no lixo – e ainda joga. Também foram para olixo algumas peças de teatro e dois romances, escritos aos 20 anos. Mesmo emmeio ao trabalho nas redações pelas quais passou (“Veja”, “Primeira Hora”, “Gazetado Povo” e “Rascunho”), Pellanda sempre escreveu.
O macaco ornamental
Seu primeiro livro saiu em 2009, “O macaco ornamental” (Bertrand Brasil), que levou anos para ser escrito. “Lembro de ter chegado a um ponto em que tinha uma quantidade de contos que achava interessante”, diz. Na época, Pellanda resolveu pedir a opinião do amigo Flávio Stein, que sugeriu mostrar os textos para o escritor José Castello. A sugestão não foi acatada por Pellanda, mas Stein acabou falando com Castello mesmo assim. “O Flávio intermediou esse meu interesse pelos escritos do Pellanda”, relembra Castello, que se ofereceu para ler a obra. Porém, Pellanda lembra de Castello ter dito: “Não garanto que vou ler tão cedo”.
Depois de um ano, Castello fez um telefonemaindicando o livro para a editora Bertrand Brasil – e ele foi publicado emseguida. De lá para cá, saíram mais duas antologias de entrevistas do“Rascunho”, um livro de contos e outros quatro de crônicas – o mais recente é “Calma,estamos perdidos”, que saiu no ano passado pela Editora Positivo.
“Jána primeira vez que li o Pellanda senti essa forte vocação dele para a crônica”,explica Castello, para quem o talento de cronista é um item bastante raro nomeio literário. Sedutor, envolvente, rico e original são alguns termos quedescrevem, para Castello, a obra de Pellanda: “Ele tem uma sensibilidadefantástica, isso salta aos olhos como uma característica muito forte. (…)Extremamente atento ao mundo real, o Pellanda faz disso matéria dos seusescritos”.
O escritor
A vocação, de acordo com Castello, não é sem propósito. É do interesse de Pellanda pelas pequenas coisas e pelos personagens do cotidiano que vem uma boa dose dessa aptidão natural do escritor. “O Pellanda caminha na contramão dos preconceitos. Ele pega essas pessoas miseráveis, insignificantes; as situações miseráveis, as pequenas tristezas e trabalha com elas. E faz isso de uma forma não só amorosa, mas extremamente rica e inteligente”, diz Castello. De fato, entre os personagens de Pellanda estão tipos comuns, prostitutas, traficantes, moradores de rua, pedintes, transeuntes, homens mortos em via pública e até mesmo um sabiá afogado em fezes humanas.
Em um mundo que só se interessa pelosucesso, é preciso estar atento para encontrar significado nas coisas que amaioria das pessoas ignora. “Gosto de imaginar que a crônica pode servir comouma ponte para que o leitor possa se identificar com todos aqueles personagenscujas histórias são passadas através da crônica, e não só com o cara que contaa história”, diz Pellanda.
É da relação com os leitores que o autortira as maiores lições. “Pra mim, foi a grande sorte que, trabalhando comocronista eu não só escrevo, mas tenho uma resposta dos leitores”, diz. Além depublicações esporádicas, Pellanda ainda recebe direitos autorais por algunslivros, mas tem como renda principal os cursos, oficinas e palestras queministra, e as leituras críticas que faz. “Dá pra viver disso, ainda”, relata ohomem que já trabalhou como locutor, teve uma assessoria que virou produtora deconteúdo e de espetáculos, foi músico por mais de 15 anos e agora se adapta àspossibilidades da escrita como fonte de renda.
O plano para 2020 é trabalhar em um livro decontos e voltar à música de vez, lançando um disco novo ainda neste ano. Apesarde todas as suas habilidades, Pellanda acha irrelevante o título de “artista”.“Relevante é continuar vivendo, inserido nas coisas”, diz.