Pular para o conteúdo

Locutores de calçada

Luís Henrique Pellanda conta como uma família de haitianos quase fez um locutor chorar em plena rua, emocionado com os elogios que recebeu

Por Admin
Locutores de calçada
Publicado:

Às vezes o discurso de um homem pesa menos que o microfone que ele empunha. Os locutores de calçada sabem disso. Não importa o que vendem: refeições, sapatos, cosméticos, conveniências. Importa o jeito de vender. Não o que se diz, mas como. Um bom preço é essencial, claro, só que para o consumidor pragmático, não para a plateia que passa. Cliente mesmo é um bicho raro, tão escasso quanto o dinheiro. Plateia, por sua vez, é mato, brota entre as pedras da rua. Para ela, o que conta é o carisma da abordagem. A rememoração da infância ao som das falas familiares, o eco da rádio de antigamente. O arco de toda uma vida revista num instante, das manhãs de domingo no interior às madrugadas solitárias na cidade. O povo tem o ouvido diretamente ligado ao coração. Importante é o timbre perfeito, a modulação exata. E os locutores de calçada dominam tudo isso. Reis sem trono, você nunca os verá sentados sobre os seus amplificadores. Passam o dia de pé, altivos. O cetro sempre em riste.

Tenho os meus locutores preferidos, e eventualmente até me enrosco pelo Centro, paro num banco de calçadão ou num balcão de café só para assisti-los com calma. Meu favorito trabalha na XV (não direi quem o emprega, nem o que divulga). Gosto de vê-lo ao meio-dia, quando o movimento é mais frenético. E não só porque profere cada sílaba como se a cantasse numa nota musical única, recém-descoberta, mas porque tudo, em seu estilo, é planejado em detalhes. Consciente de seu potencial, sente o peso do microfone, quer nos agradar e sofre com essa responsabilidade. É pago para nos seduzir com a voz, e essa estranha convicção de produzir beleza por conta própria o atrapalha e embevece, o humaniza ainda mais.

Tudo, em sua figura de artista, ele quer que se equipare à excelência do seu timbre e da sua dicção. Tudo nele é projetado para atrair. A mecha descolorida no cabelo, alourada, o excesso de pomada no topete, ereto feito um penacho. Lembra, às vezes, um pássaro. Quantos anos têm? Não interessa, a voz é jovem. As roupas impecáveis, cuidadosamente escolhidas. Nunca um par de chinelos, jamais uma bermuda, calça curta é para moleques, e não para sedutores sérios, comprometidos. A camiseta estampada com motivos majestáticos (a coroa, a cruz, a águia-de-cabeça-branca) está sempre justa demais, revelando um locutor não exatamente gordo, mas, para usar de alguma benevolência, quase harmônico em sua mistura de músculos, banha e sensualidade. E o fato de portar uma grossa aliança dourada na mão esquerda, e de não a esconder enquanto seduz toda uma população, tudo isso o torna mais cativante.

Destaca-se, todavia, pela generosidade. Elogia e saúda ao microfone todos os colegas de profissão que vê passarem por ali, indo e voltando dos bandejões da região, em horário de almoço, palitando os dentes. Os amigos acenam de volta, emocionados. Mas, como todo sujeito que se crê a um só tempo gentil e poderoso, ele não tem nenhum poder realmente tangível. Trabalha com o imaginário, vive num mundo de faz-de-conta, de sonho. Porque a verdade é que muito poucos notam a sua presença, ou mesmo ouvem sua voz, desinteressados do que propõe e representa. É uma gente premida por problemas pessoais insolúveis, gente que o desamor, o vazio, o desemprego, a raiva ou as dívidas ensurdeceram. Mesmo assim, o locutor também sorri para elas, se deixa enganar pela ilusão de um sucesso absoluto, mais amoroso que comercial. Ah, ter uma voz bonita é também um perigo, pode conduzir um homem sóbrio a extremos de indiscrição e tagarelice, transformando-o num Narciso linguarudo. Mas não será culpa dele, não totalmente.

Um dia vi uma família de haitianos recém-chegados parar num banco diante do locutor, só para ouvi-lo. Sorriam, maravilhados com a musicalidade do que ele dizia, embora não apreendessem, de seus anúncios, uma só palavra. O grupo e o locutor, simpáticos um ao outro, logo tentaram se comunicar, primeiro em português, em francês e em crioulo. Depois por meio de monossílabos em inglês. Por fim apelaram também para a mímica. Em suma, entenderam-se.

Os haitianos só queriam parabenizá-lo pelo timbre encantador, e era fácil perceber que um deles também tinha uma voz lindíssima, treinada para as grandes cerimônias. Comovido diante de tamanho reconhecimento internacional, o locutor por pouco não chorou. Abraçou os forasteiros, um a um, desejando que fossem todos muito bem-vindos ao Brasil. Obrigado, disseram os haitianos, várias vezes e em português, obrigado, testando o som daquela novidade bonita, a primeira palavra que aprendiam em nossa língua, obrigado, obrigado.

Mais de Admin

Ver todos

De nossos parceiros