O consultório fica sempre naquela penumbra. Sempre aquele lusco-fusco. Pretensão de deixar o ambiente mais aconchegante? Não funciona.
A mesma coisa quanto às cores da decoração, os objetos sobre a mesa e as prateleiras, entre os livros cuidadosamente selecionados. A mesma coisa até no que se refere ao estranho cheiro de aromatizador de ambiente que está sempre ali. Como se alguém sempre peidasse no fim da consulta anterior, e fosse necessário desinfetar o ambiente.
Isso nós sabemos que de fato era algo que Lia pensava.
O resto…
— Você quer voltar àquilo que a gente estava discutindo na semana passada, Lucília?
…
— Claro que faz diferença.
…
— Não sei se é assim mesmo, Lucília. Mas se você sente que eu tenho determinado essas escolhas, talvez a gente precise conversar sobre isso tam —
…
— Como você quiser.
[silêncio]
— Voltamos ao assunto da semana passada, então?
[silêncio… um suspiro]
— Se você não —
…
— Vamos tentar. De novo.
…
— Eu não posso te dizer se isso é “normal”, Lucília.
…
— Porque não é assim que funciona.
…
— Porque eu não sei o que é “normal”. Ninguém sabe. A questão é saber o que te incomoda, e como lidar com isso.
…
— Não.
…
— Não, eu sei, Lu —
…
— Não, não é uma coisa que aconteça com todo mundo. Mas nada é, no final. Cada pessoa é um —
…
— Não. Eu não posso te dizer isso. E não sei que diferença ia fazer você saber se uma coisa dessas já aconteceu com outro paciente meu. Não ia mudar nada.
…
— Não, não ia. Você ia continuar sozinha com você mesma, e ia continuar não-sozinha aqui, porque eu estou com você.
…
— É claro que eu entendo, Lucília. Mas que importância tem isso?
…
— Não. O que é importante é saber se você entende. Se você perdoa?
…
— Não! Eu não estou dizendo que você precisa ser perdoada! O que eu estou dizendo é que parece que você sente que precisa de perdão. E é só você que vai poder se dar esse —
…
— Não é uma questão de saber se ele “merecia”. A questão é saber se você merece isso que você está se fazendo viver por causa de uma coisa de anos atrás.
…
— E faz diferença, Lucília? Mais ou menos tempo passado ia fazer você mudar o que você acha disso tudo?
…
— E ia fazer diferença também?
[silêncio]
— Você ainda pensa nisso? Hoje?
…
— Com ele, ou qualquer outra pessoa? Essa vontade ainda aparece?
…
— Mas —
…
— Não. Você só vai agir se escolher agir. Contemplar a ideia não precisa ser indício de nada. De “doença” nem de “saúde”. A não ser que você faça planos concretos. Imagine as situações em detalhe mesmo. Ideia é uma coisa. Ideação é bem outra. A gente já falou disso.
…
— Ninguém está cem por cento seguro, Lucília.
…
— É claro que eu não posso garantir. Não me parece que você me dê elementos pra desconfiar, pra ficar em alerta. Mas é injusto você me pedir uma “garantia” desse tipo de coisa, Lucília. Eu não teria como —
…
— [silêncio]
[silêncio]
— O que é que você quer dizer com isso?
…
— Porque você nunca usou esse tipo de linguagem aqui comigo.
…
— Não. Não. Não vejo conexão.
…
— Ok. Talvez seja melhor a gente interromper esse tratamento.
…
— Eu podia te dizer a mesma coisa!