Alguns leitores me escrevem dizendo que há muito não dou notícias da cidade. Perguntam o que houve, se me ausentei, se estive doente. Meio a sério, meio brincando, respondo que sim, quem não esteve? Importa é que estou de volta e continuo o mesmo, embora admita (não sem algum rancor): os infortúnios que ultimamente vêm tomando conta do país me fizeram descuidar de muita coisa no ano que se passou.
Por exemplo. No prédio em frente ao meu, haviasempre uma senhora debilitada à janela, na altura do meu andar, acompanhada desua cuidadora. A senhora olhava para fora; a cuidadora só cuidava de seucelular. Nunca nos cumprimentamos, a senhora e eu, apenas trocávamos aqueleolhar cogitativo de quem tenta reavaliar o mundo a partir da posição de umoutro. Como seria estar lá naquele apartamento, postado àquela janela, do ladode lá da rua? Durante anos, jogamos esse jogo. A senhora debilitada me encaravaprofundamente, e eu a ela. A cuidadora jamais nos flagrou.
Pois aquela senhora morreu. Quando foi, não sei, nãopercebi, um dia simplesmente deixei de olhar para fora. E só me dei conta desua morte quando vi colarem, nas vidraças daquele imóvel já vazio, sem suascortinas de renda, sem seus móveis em couro e madeira de lei e seus tapetespersas, meia dúzia de anúncios de vende-se. Onde eu estava quando fizeram amudança? Não faço ideia. Ao menos registrei a chegada dos dois novos moradoresdo apartamento. Um casal de quiriquiris se instalou num dos vãos do cobogó queprotege do sol a extinta cozinha da falecida. Improvisaram ali o seu ninho. Eagora, sempre que olho para o prédio em frente ao meu, sou encarado por dois falcõezinhosque, sabiamente, não se imaginam no meu lugar.
Outra que deixei de contar a respeito do ano passado: pela primeira vez vi um tucano solto no centro da cidade. Empoleirado num cinamomo da Doutor Faivre, bem perto da Fesp. Falei em tucano solto, notem, mas não quero com isso ser dúbio ou irônico, de modo algum. Nossa época não é para ambiguidades. Já escrevi, em outro jornal, que sou contra a predação político-partidária de animais, e das aves em particular. Desse tucano, portanto, reporto só o necessário, o verificável: era pequeno, bonito, tinha o bico verde e talvez fosse um araçari, o que não o tornaria menos belo, mas o pouparia de polêmicas e piadas de duplo sentido. De minha parte, confesso que sua aparição me entristeceu um pouco, pois não creio que Curitiba seja um lugar adequado para tucanos.
Falei em tucano solto, notem, mas não quero com isso ser dúbio ou irônico, de modo algum. Nossa época não é para ambiguidades.
Já os papagaios-verdadeiros, meus velhos vizinhos defronte azulada, continuam bem e se reproduzem a toque de caixa. Dia desses,outra senhora, em visita a minha casa, ao vê-los palestrando nas antenascircundantes, encantou-se. Eram seis pássaros. Ela foi até eles, debruçou-se nasoleira da área de serviço e, ensaiando alguns cracrás e assobios, pretendeudialogar com a turma. Eles se calaram, intrigados, ou quem sabe ofendidos, e sónão debandaram por educação ou timidez. A senhora, todavia, me segredou que, comum pouco de jeito e outro tanto de paciência, podemos não só compreender o que apregoamos papagaios, mas também convencê-los a nos contar tudo. Tudo o quê, pergunteia ela. Tudo, resumiu a senhora, recolhendo-se a seus mistérios, e ao mesmotempo me convocando a desbravá-los. Prometi que o faria, sim, dedicaria mais demeus esforços à tarefa de me comunicar com os papagaios. Se durante o ano merevelarem algo que preste, compartilho com vocês.
Uma terceira senhora, aliás (hoje só estou lembrandode senhoras), me fez improvisar outra promessa, há cerca de um mês. Eu tomavaum sorvete empanado na companhia de um bom amigo, numa das tendas da feirinha daPraça Osório. Conversadeira, a tal senhora, com quem eu dividia o balcão e umapaixão quase infantil pelos refrescos, me aconselhou a experimentar a seguintemaravilha: chupar jabuticabas congeladas.
Sem qualquer pudor, me descreveu a sensação detê-las na boca, uma a uma, e de rolá-las com cuidado da ponta da língua àgarganta, partindo-as com os molares, feito seixos de açúcar. E a descrição queme fez foi tão sensual e perfeita que me é impossível reproduzi-la aqui, porescrito. Deixo a vocês o trabalho de imaginá-las, a cena e a personagem, emborasaiba que muitos leitores, se vissem essa senhora, a achariam desinteressante eaté feia, ou velha demais (usava, inclusive, dentadura). É pena. Estariamenganados. Ela é linda, pois todo ano se entrega ao prazer de colher, congelare chupar as frutinhas negras e redondas que há décadas colhe em seu quintal,apenas pela lubricidade de fazê-lo.
Caso me perguntem se já cumpri o prometido, adianto que ainda não, pois desde então não encontrei jabuticabas (a jabuticabeira de meus pais secou no ano passado). Tão logo as encontre, porém, vão para o gelo. Informo a vocês.
Sem qualquer pudor, me descreveu a sensação de tê-las na boca, uma a uma, e de rolá-las com cuidado da ponta da língua à garganta, partindo-as com os molares, feito seixos de açúcar
Nesse tempo em que andei relapso, muitas outrasárvores, aqui perto de casa, secaram ou caíram. Árvores exuberantes, de que eugostava muito. Caíram sem que eu nunca escrevesse nada sobre elas, ou sobre aqueda que as vitimou. Mas caíram, ressalto, por conta de chuvas, ventanias ouacidentes de trânsito. Não foi por falta de crônica. As árvores continuarão agerminar, florescer, frutificar e morrer normalmente, ao menos em Curitiba,mesmo que nenhum cronista disso tome nota ou conhecimento.
O que permanece mais ou menos igual é a situação da jánotória piranha vermelha do Passeio Público. Sempre me perguntam sobre essepeixe especial, que tanto me comove, assim como me perguntavam dos urubus que,anos atrás, dividiam comigo um terraço na Ébano Pereira. Pois a piranha continuasolitária, lamento. Talvez ainda sonhe com algum cardume a que se reunir, oucom uma enxurrada de sangue fresco vindo libertá-la durante o sono, numa noiteescura. Certo é que continua viva, assim como nós. Me parece que perdeu umdente importante, não tenho certeza, uma presa inferior, à esquerda, o que lheemprestou um ar meio caricatural, e mais humano (o que não é, nem de longe, umelogio).
A novidade é que seu cubículo mudou de posição, está mais de frente para a porta do aquário, o que lhe dá uma vista agradável de quem entra e sai e do exterior do parque. Já é um avanço. Acredito que dali ela possa ver, de vez em quando, um pipoqueiro e seu carrinho ao sol do verão curitibano. E que avalie como seria estar de pé diante daquele carrinho, reintegrada e livre (pelo menos em teoria), estourando milho para esta criançada que, apesar dos infortúnios que ultimamente vêm tomando conta do país, insiste em continuar nascendo.