O administrador do perfil “Militar do Paraná” afirmou ter apagado arquivos porque o conteúdo poderia comprometer policiais. Em mensagens de áudio analisadas pelo Plural, o responsável por vender acesso a conteúdos de tortura diz que retirava material de circulação para evitar prejuízos aos “colegas” e afirma que a maior parte dos vídeos que mantinha em seu poder poderia envolver agentes.
“Dá merda ali, nós temos que remover, senão fode ali os colegas que tá junto, entendeu?”, alerta o administrador em um dos áudios. Na sequência, ele diz que não pretendia excluir o material, mas que tomou a decisão por receio das consequências: “Eu não queria apagar, entendeu? Mas tive que apagar”.
Em outro trecho, o administrador do Grupo Vip da Gurizada também demonstrava preocupação com a presença de policiais do serviço reservado entre os participantes. “Tem P2 nessa porra de grupo aqui”, declarou. P2 é a denominação usual das áreas de inteligência das unidades da Polícia Militar.
“Eu vou selecionar uns vídeos aqui. Eu tenho mais 'presunto' aqui pra postar. Mas eu quero postar umas coisas boas pra vocês. Só que, igual eu falei, a maioria que eu tenho aqui vai comprometer uns policiais aí, vai me foder, entendeu?”
As gravações registram o que o administrador identificado como “Militar do Paraná” dizia sobre o próprio acervo e os motivos alegados para excluir ou reter arquivos.
Instagram, Telegram e WhatsApp
As três plataformas utilizadas pelo grupo - Instagram, Telegram e WhatsApp - tinham funções distintas na circulação do conteúdo. O Instagram funcionava como vitrine pública. O perfil @militardoparana, com 22,9 mil seguidores, utilizava stories com imagens borradas de vítimas ensanguentadas como isca publicitária, prometendo conteúdo sem censura no ambiente privado.

O Telegram era usado para operar financeiramente o esquema por meio do "Grupo Vip da Gurizada", concentrando assinantes pagantes via plataforma Botgram, que cobrava mensalidade de R$ 20,00 para conteúdos explícitos e registrava mais de 100 assinaturas ativas vendidas.
No canal, o administrador mantinha um acervo interno de pelo menos 132 mídias para os pagantes, incluindo a exposição de corpos dilacerados por munição de grosso calibre acompanhada de legendas jocosas como "Mais um pro colo do capeta heheh".
Já o WhatsApp mantinha um grupo paralelo no qual o administrador distribuía mídias consideradas mais leves, interagia com participantes e explicava por que determinados arquivos haviam sido apagados.
Policiais militares em collabs
Reportagem anterior do Plural identificou ao menos 20 policiais militares da ativa em publicações feitas pelo perfil “Militar do Paraná” no Instagram. A análise dos perfis confirmou a utilização do recurso de “collabs" na plataforma, o que exige aceite ativo da segunda conta e a torna coautora da postagem.
O Plural pondera que esse vínculo público não comprova, isoladamente, que os policiais sejam os “colegas” mencionados nos áudios, visto que a confirmação da identidade e do vínculo funcional dos perfis depende de checagem documental e inquérito oficial.
A apuração da reportagem começou após o deputado estadual Renato Freitas (PT) denunciar o caso em suas redes sociais na última quarta-feira (22) e encaminhar o caso ao Ministério Público do Paraná (MPPR), que confirmou ter instaurado um procedimento preliminar para apurar os fatos.
Procurada, a Secretaria da Segurança Pública do Paraná, comandado pelo coronel Hudson Leôncio Teixeira, ainda não se manifestou. O espaço segue aberto.
