O Comitê de Trabalhadores da Celepar, a estatal paranaense de tecnologia da informação, acusou o governo de Ratinho Júnior (PSD) de usar inteligência artificial para a confecção da Política Estadual de Governança de Tecnologia da Informação e Comunicação (TIC) do Paraná. O documento de 124 páginas seria uma resposta apressada ao Tribunal de Contas do Estado (TCE-PR), que suspendeu o processo de privatização da Celepar no dia 11 de setembro.
De acordo com o comitê, após checagens em ferramentas de detecção do uso de inteligência artificial, é possível afirmar que entre 60% e 80% do documento foi feito com auxílio de IA. O texto foi publicado pelo Conselho Estadual de Governança Digital e Segurança da Informação (CGD-SI), ligado à Casa Civil do governo.
Ao suspender o processo de privatização da Celepar, após análise da Quarta Inspetoria de Controle Externo (4ª ICE) do TCE, o Tribunal ressaltou a inexistência de uma política de governança em Tecnologia da Informação e Comunicação no governo, falta de estrutura técnica nas secretarias e priorização indevida do cronograma de desestatização.

A ideia de Ratinho Júnior era vender a companhia até novembro deste ano. Com a suspensão determinada em setembro pelo conselheiro substituto Livio Sotero Costa, o governo estaria trabalhando com o prazo de 13 de janeiro, segundo o deputado estadual Arilson Chiorato (PT), líder da oposição na Assembleia Legislativa do Paraná.

“O governo recorreu a um atalho algorítmico para produzir um documento que deveria refletir planejamento, estratégia e visão de longo prazo”, disse o advogado Paulo Jordanesson Falcão, representante do Comitê de Trabalhadores. “Não estamos falando de um relatório qualquer, mas da política que orientará toda a governança digital do Estado. Gerar esse planejamento tecnicamente apenas com o uso da inteligência artificial, apenas para tentar sanar um problema apontado, é no mínimo irresponsável”.

O Plural entrou em contato com a Casa Civil e com a assessoria do governo do Paraná e fica à disposição em caso de alguma manifestação sobre o assunto.
Sem estrutura, governo contrata a Celepar
Uma das provas de ausência de estrutura técnica no próprio governo seria a contratação da própria Celepar pela Superintendência-Geral de Governança de Serviços e Dados (SGSD). A SGSD recebeu um crédito adicional de R$ 41,5 milhões do governo do Paraná, mas declarou não possuir equipe técnica suficiente para cumprir suas funções. Com isso, contratou por R$ 86,5 milhões a própria Celepar – empresa que Ratinho Júnior quer vender.
“A SGSD não tem equipe técnica, mas é responsável por supervisionar um contrato milionário e conduzir a reorganização da TI estadual. Isso mostra que o governo está tentando cumprir formalidades, não resolver problemas reais”, disse Paulo Jordanesson Falcão.
Arilson Chiorato disse que apresentará ao Supremo Tribunal Federal (STF) a documentação necessária para mostrar que o governo do Paraná depende da Celepar. O Supremo vem analisando uma Ação Direita de Inconstitucionalidade (Adin) contra a lei que autorização a desestatização da companhia. “Esse acordo comprova a dependência tecnológica em relação à Celepar. No STF, o governo Ratinho Júnior diz que não precisa da empresa. Aqui dentro, mostra que precisa, e muito. Isso não é coerente".
Leia o que já foi publicado sobre a privatização da Celepar