Esta quinta foi o Dia da Consciência Negra. Começo com duas perguntas:
- Eu sou racista?
- O que posso fazer pra me tornar menos racista?
Creio que a honestidade da primeira resposta pode oferecer bons caminhos para responder a segunda pergunta.
Importante observar que todos nós, inconscientemente, carregamos o racismo em alguma medida. É muito difícil reconhecer em nós mesmos algo tão intrínseco e que é diariamente reforçado em qualquer pequeno recorte do filme da vida.
Por isso é tão difícil ser honesto na resposta da primeira pergunta, dá trabalho, exige esforço e coragem, mas, creio, é possível.
Datas especiais como essa servem para refletirmos sobre nossa história, especialmente para não repetirmos os erros do passado no futuro.
Dia da Independência, Finados, Corpus Christi, Orgulho LGBT, Dia da Mulher, além do Outubro Rosa, Novembro Azul, etc, estão aí para cuidarmos da nossa saúde física, mental e social.
Estamos em 2025 e ainda tem gente que pergunta: “e o dia do homem?” “e o dia da consciência branca?” “e o dia do hétero?”, revelando ao mesmo tempo sua pequenez e sua ignorância em relação ao mundo. Fraco e com autoestima do tamanho de uma ervilha, não é capaz de reconhecer em si os privilégios de ter nascido em pele branca, masculina e, pra fechar o combo do abençoado, heterossexual.
Se você ainda tá mergulhado nessa ideia do “e o dia da consciência branca?”, mesmo que em tom de piadinha, talvez o primeiro passo (bem fácil) seja parar de alardear esse tipo de estupidez. Uma próxima atitude pode ser repreender alguém quando reproduzir essa fala, normalmente naqueles grupos de zap da turma da escola. Ao sentir certo constrangimento essas pessoas talvez parem pra pensar um pouco. Outra opção, agora já em nível um pouco mais avançado, é ler sobre o assunto.
Pra começar pode ser na internet. Vai lá e digita “racismo” na barra de buscas. O material é vasto. Depois avance sobre a leitura de excelentes livros como TORTO ARADO de Itamar Vieira Júnior, O AVESSO DA PELE de Jefferson Tenório, O PEQUENO MANUAL ANTIRRACISTA de Djamila Ribeiro, e autores como Lélia Gonzalez, Angela Davis, Bell Hooks, Frantz Fanon, entre tantos outros. Eu mesmo preciso melhorar muito o meu repertório, desses aí, não li nem metade.
Me entristece um pouco, nesse momento, lembrar que o racista geralmente não é muito afeito a leitura. Mas, vai que…
E assim, devagarinho, ao tentar sair do fosso do racismo, talvez possamos começar a perceber que os lugares que frequentamos revelam algo chocante: os clientes são, em maioria, brancos; já os funcionários são, em maioria, negros. Shoppings Centers, Clubes de Campo, Restaurantes, até Aeroportos (esses, felizmente, já apresentam muito mais diversidade que nos anos 90). Chamam esse exercício de olhar ao redor de “teste do pescoço”, também podemos chamar de “chá revelação”.
Não se pode achar normal que exista um grupo de pessoas que desfruta dos bens e serviços e outro grupo que serve basicamente de sustentação dos privilégios alheios. Se você acha que sim, volte para a primeira casa. Mas se você entender que esse cenário é o que chamamos de RACISMO ESTRUTURAL e que essa diferença não tem relação com mérito e sim com diferenças de oportunidades, opa, que bom, seguimos juntos, podemos avançar para a próxima casinha.
Chegamos a um consenso: o RACISMO ESTRUTURAL está presente em nossa sociedade. Herança dos tempos da escravidão, a barbárie que segue mal resolvida, já que os “ex escravos” foram largados à própria sorte, sem moradia, sem identidade nem certidão de nascimento, sem profissão nem trabalho digno, sem direitos políticos, ou seja, foram marginalizados através de um projeto político.
Opa, agora que chegamos nessa casinha, estamos prontos para entender a importância de políticas públicas de reparação histórica. Sim, estamos falando das cotas raciais, seja nas universidades, seja em instituições públicas ou privadas. Melhor não passar mais vergonha falando mal delas, combinado?
Seguimos:
Chegou a hora de compreender que as principais transformações virão de POLÍTICAS PÚBLICAS. Claro que ações individuais são importantes, como abrir oportunidades para pessoas negras ocuparem cargos de liderança dentro das empresas, mas não podemos perder de vista nem ignorar a importância da força das leis.
Isso significa que além de botar a mão na consciência no dia de hoje, precisamos usar a consciência na hora de votar. Opa, avançamos de fase: depois de aprender tudo isso não votaremos mais em candidato racista, certo? Tampouco naqueles que negam a sua existência.
Alguns breves fatos:
Curitiba elegeu a primeira vereadora negra da história em 2020, a Carol Dartora, que hoje é Deputada Federal.
Apreendi na quinta ou sexta série que a escravidão no Brasil foi abolida em 1888. Apenas 132 anos depois da abolição é que UMA (não estamos falando de várias, estamos falando de UMA) vereadora negra assumiu um mandato en Curitiba. Curitiba tem população em média 25% composta por negros (acabei de ver no Google). Atualmente a Câmara de Curitiba conta com 38 vereadores, sendo apenas 2 pessoas negras. Numa proporção equilibrada em relação à população, o número adequado seria oito, não dois. Conseguem perceber, também nesse número, o retrato de uma sociedade que concentra poder nas mãos de pessoas brancas e como isso se torna um ciclo vicioso? Não estamos pedindo MAIS, estamos pedindo equilíbrio, paridade.
As casas de leis precisam de mais representantes negros.
Então, sugiro mais um exercício. Diferente do que vimos nas últimas eleições, quando patrões tentaram enfiar seus candidatos goela abaixo de seus funcionários, que tal inverter a lógica e perguntar a eles “quem é o político que vocês acham que vão trabalhar por suas comunidades?” “Quem é que vai fazer a TUA vida melhor?”. Me parece um excelente caminho para demonstrar um pouco de solidariedade àqueles que dizemos sentir gratidão, não?
Eu sou cheio de esperança, se não fosse, não estaria escrevendo tudo isso. Tenho fé, apesar de alguns chamarem de ingenuidade.
Mas, apesar do otimismo, não dá pra ignorar a violência e truculência que ainda vertem de dentro de muita gente. Faço questão de resgatar uma memória. Em 2020 quando enfim a primeira vereadora negra de Curitiba foi eleita eu fiz um post no Instagram chamando a atenção para o assunto, enfim, parecia que estávamos diante de uma virada de chave. Porém foi assustador ler a quantidade de mensagens que diziam algo como “agora temos que ficar em cima dessa aí”, “vamos ver se ela vai trabalhar de verdade”, “cor da pele não importa, eu quero ver é serviço, será que ela tem capacidade?”.
Todos sabemos, sem nenhum pingo de dúvida, que nenhum parlamentar branco, quando eleito, é alvo desse tipo de cobrança. O que vemos são aplausos pela vitória e muitas frases carinhosas tipo “você merece”.
Essa semana, mais um caso: uma torcedora de um time em Santa Catarina vomitou palavras racistas contra torcedores do outro time “vão pra casa, seus pobres”, dizia, esfregando o dedo indicador da mão direita no antebraço esquerdo, alertando para a diferencia da cor da pele.
Tomada por um sentimento delirante de superioridade aproveitou pra demonstrar tudo aquilo que ela é, ou que não é, ou que almeja ser, não sei. Essa cidadã não chegou nem na primeira casinha do tabuleiro antirracista, e olha, aparentava ter mais de 40 anos e viver no século XXI.