Todo final de semana, milhares de pessoas estão envolvidas em jogos de futebol amador em Curitiba. Jogadores, dirigentes, técnicos, torcedores e personagens da economia popular. A Suburbana mobiliza bairros inteiros.
Entretanto, apesar disso, os holofotes da grande mídia se voltam quase que exclusivamente ao milionário futebol de elite. O jornalismo esportivo de Curitiba esquece, muitas vezes, de Curitiba. O gol na Champions League, do outro lado do oceano, torna-se mais importante do que a rede que balançou a poucas quadras de casa. Estranho, não?
Quando o futebol amador aparece na chamada grande mídia, hoje, é pelos motivos errados. Confusões, brigas ou episódios pitorescos ganham as manchetes na TV, na internet e no rádio. Não estou dizendo que a imprensa não deveria pautar essas situações, pelo contrário. Mas só faria bem para a própria imprensa e para a comunidade na qual ela está inserida, se as redações também olhassem para quando a paz prevalece nos gramados da cidade.
Quando me dou conta disso, penso em um tópico que gera longas discussões acadêmicas. Qual é a função social do jornalismo?
Uns podem responder que é informar. Outros, que é investigar. Há os que acreditam que a área é uma ferramenta do conceito de esfera pública, preconizado por Jürgen Habermas, da Escola de Frankfurt, mediando o debate sobre questões de interesse da sociedade.
Não sou nenhum teórico, mas me arrisco a acrescentar uma outra função tão importante quanto essas: dar voz às comunidades que, dentro e fora das quatro linhas, constroem a Curitiba real.
Um dia foi diferente
Durante décadas, o futebol de bairro ocupou um espaço natural na cobertura esportiva da cidade. Era uma Curitiba de outros tempos, menos populosa, e com uma vida esportiva estreitamente conectada ao cotidiano das comunidades. Ele nascia do Centro para os bairros. Nos primeiros anos de bola rolando no estado, o futebol profissional e amador coexistiram de maneira sinérgica. Afinal, o profissionalismo, de fato, surgiu no Brasil apenas nos anos 1930.
Mesmo com a cisão, o futebol amador compunha o mesmo ambiente. Os próprios clubes profissionais tinham suas divisões amadoras e eram muito mais acessíveis à população do que nos dias de hoje, em que deixaram de ser clubes sociais para ser uma mercadoria.
A Suburbana como conhecemos hoje surgiu no início da década de 1940. Desde então sempre teve espaços nas páginas dos jornais. Nos anos 1980 e 1990, a cobertura talvez tenha alcançado seu auge. Na imprensa escrita, Levi Mulford e Irineu Horbatiuk eram as principais referências ao levar a várzea para as páginas da Tribuna do Paraná.
No rádio, a presença era forte. Diversos programas dedicavam espaço ao futebol da contracapa, inclusive com transmissões ao vivo. A Equipe Rolando a Bola, criada por Altair Ferreira, o Taíco, é um dos principais exemplos desse movimento.
A televisão, por limitações de formato e custo, sempre teve uma presença mais discreta. Ainda assim, nos anos 2000, a TV Educativa cumpriu seu papel como TV pública ao transmitir algumas edições da Suburbana.
O futebol amador, por natureza, tem menos apelo midiático. É compreensível. E creio que todos os envolvidos estão satisfeitos com isso. Mas, em algum momento, o número de páginas diminuiu, o tempo de sintonia nas ondas do rádio foi sendo cortado aos poucos, e o espaço na TV que já era pequeno, virou pó.
Novo fôlego
A digitalização dos meios de comunicação a partir dos anos 2000, que poderia ampliar a diversidade de vozes, produziu o movimento inverso na cobertura do futebol amador.
A grande mídia praticamente abandonou esse universo. Na Tribuna do Paraná, por exemplo, a coluna do seu Levi foi ficando cada vez mais enxuta. Na Gazeta do Povo, algumas poucas iniciativas eram levadas adiante, mais por interesse de alguns poucos abnegados do que por decisão editorial. Nas rádios, o AM do dial ainda resistia, mas no FM a presença era quase nula. E na TV as portas se fecharam.
Comercialmente, a Suburbana nunca foi um case de grandes audiências ou de grandes acordos de publicidade. Estamos falando de um futebol comunitário que, na teoria, não paga ninguém. Mas culturalmente, a força da Suburbana e de outros torneios da capital e da RMC sempre esteve aí.
Felizmente, o vazio deixado pelos grandes veículos começou a ser ocupado a partir dos anos 2010. Projetos independentes passaram a assumir a responsabilidade de contar essas histórias na internet. O portal Do Rico ao Pobre é um deles, mas podemos citar outras iniciativas, como a webrádio Capital Sul FM, herdeira do legado da Equipe Rolando a Bola, e o canal Suburbana na Tela.
Cada um do seu jeito, esses projetos carregam uma bandeira importante: o jornalismo tem a função social de divulgar o que é nosso. Existe público, existe interesse e existem muitas histórias que precisam ser contadas com profissionalismo.
A parceria entre Plural e Do Rico ao Pobre, que oferece espaço a esse texto, é mais um passo nesta luta que abraçamos enquanto comunicadores, de dar voz a quem não é ouvido.
Dia do Jornalista
Hoje, 7 de abril, é Dia do Jornalista. A data é propícia para discutir o assunto sob a nossa ótica de quem vivencia a Suburbana. Mas também é válida para exaltar quem pavimentou o caminho até aqui e, por isso, relembro um encontro que tive com Levi Mulford, o principal nome da história da crônica esportiva paranaense.
Falecido em 2020, ele era o guardião de toda a história da Suburbana. No porão de sua casa, no bairro Pilarzinho, mantinha um verdadeiro tesouro para qualquer apaixonado por futebol. Jornais, revistas, recortes, textos e desenhos feitos à mão. Tudo minuciosamente encadernado.
Em 2018, tive o prazer de ser recebido por Levi. Ao lado do também jornalista Vinícius do Prado, conhecemos aquele lugar que, para nós, tinha toda uma aura mística. Esperávamos ouvir histórias e mais histórias. A boa “resenha”, como costumamos falar hoje em dia. Mas o seu Levi já era um senhor de muita idade, beirava os 90 anos, falava pouco e baixo. Isso não foi problema algum, porque o seu trabalho falava por si. Sua mão passeava pelas prateleiras. De repente, pegava um daqueles fascículos e nos mostrava com a maior calma do mundo e um flagrante orgulho no olhar o motivo de sua dedicação diária.
Ele amava o que fazia. Amava o futebol. Amava o jornalismo. Esse legado, felizmente, permanece. Em outros meios, em outros formatos. Nem sempre na grande mídia, mas sempre com tudo aquilo que caracteriza a Suburbana: a identidade 100% curitibana.