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Escolas municipais e CMEIs voltam às aulas em Curitiba. Mas será seguro?

Educadores temem contaminações e fechamento das unidades como ocorreu no início do ano

Escolas municipais e CMEIs voltam às aulas em Curitiba. Mas será seguro?
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Caíque, de 5 anos, não vê a hora de voltar ao Centro Municipal de Educação Infantil (CMEI) São José Operário, no Boqueirão, em Curitiba. "Ele pergunta todo dia se já pode ir para a escola." Quem conta é a mãe do menino, a manicure Franciele Gonçalves, que embora acredite na necessidade do retorno das atividades presenciais por conta da convivência e do aprendizado das crianças, tem medo da exposição do filho ao coronavírus. 

"Por mim eu não mandaria o Caíque de volta, ainda mais que ele tem asma. Ele fica bastante de máscara, mas vai chegar uma hora que ele vai ter que comer, vai correr e vai querer tirar. Mas eu sinto que ele tem muita dificuldade e a gente não tem a didática de um professor para explicar a matéria", diz Franciele.

O receio sobre o retorno presencial das aulas na cidade não se restringe apenas à mãe de Caíque. Desde que foi anunciada pela prefeitura no dia 24 de junho, a volta das aulas presenciais na rede municipal  de ensino - que acontecerá na próxima segunda-feira (19) para 50 CMEIs e 50 escolas com estudantes com maior dificuldade de acesso ao ensino remoto, e no dia 2 de agosto para o restante das 400 unidades que compõem a rede municipal - vem sendo discutida por pais e professores. 

A justificativa para a decisão seria, segundo a prefeitura, o avanço na vacinação dos professores. No entanto, conforme dados da Secretaria de Saúde de Curitiba, dos 45.000 trabalhadores da educação estimados no Plano Municipal de Imunização, 42.567 receberam a primeira dose da vacina e apenas 19 a segunda. 

Imagem: Painel da Covid-19 em Curitiba, da Secretaria Municipal de Saúde (SMS).

"É um retorno precoce. A prefeitura está apostando nessa primeira dose que eles [professores] tomaram, mas nem todos receberam. Além disso, muitos trabalhadores terceirizados da limpeza e da alimentação escolar não foram imunizados. Poderiam prolongar mais 30 dias, já daria uma grande diferença na imunização", afirma a diretora do Sindicato dos Servidores do Magistério Municipal de Curitiba (Sismmac), Luciana Kopsch.

Uma das preocupações de Luciana é que se repita o que ocorreu no começo do ano. Em 22 de fevereiro, a rede municipal deu início ao ano letivo de 2021, com turmas no formato híbrido de ensino. Entretanto, apesar das medidas de segurança, as contaminações no ambiente escolar e o agravamento da pandemia fizeram com que o retorno fosse cancelado quatro dias depois. "A prefeitura confia no protocolo que foi feito pela Secretaria Municipal de Educação, mas a gente sabe que nenhum protocolo pode garantir efetivamente a segurança de que não vai haver casos."

O documento citado pela diretora do Sismmac é o Protocolo de Retorno das Atividades Presenciais, elaborado pelo Comitê de Técnica e Ética Médica da Secretaria Municipal de Saúde (SMS), no ano passado, que prevê os cuidados necessários para a retomada das aulas. Entre as medidas estão o uso obrigatório de máscara, distanciamento entre as carteiras de 1,5 metro, horários alternados de intervalo, uso de álcool gel, tapetes sanitizantes, interdição de bebedouros coletivos, aferição de temperatura e a ocupação máxima de 50% da capacidade, que varia conforme o tamanho da escola. 

Para a coordenadora do Sindicato dos Servidores Públicos Municipais Curitiba (Sismuc), Cristiane Schunig, nada garante que desta vez será diferente do início do ano. "No retorno desastroso que houve em fevereiro de 2021 nós alertamos que não daria certo. Tivemos muitos casos de covid, escolas e CMEIs fechados por conta disso. Fora as inúmeras denúncias de irregularidades com relação ao cumprimento dos protocolos de segurança que chegaram para nós."

De acordo com a prefeitura, a escolha pelo modelo de estudo - formato híbrido (presencial + videoaulas) ou remoto (videoaulas + kits pedagógicos) - fica a critério dos pais, que terão do dia 19 ao dia 23 de julho para formalizar a preferência por meio do site da Secretaria Municipal da Educação (SME).

Estruturas precárias

A professora da Educação Infantil Débora Ribeiro cuida de uma turma de berçário em um CMEI no Portão. Ela conta que são três os motivos que mais a preocupam sobre o retorno das atividades de modo presencial. O primeiro é a baixa taxa de professores imunizados, isto é, que receberam as duas doses da vacina (ou a dose única). Inclusive, em seu local de trabalho, Débora será a única com o esquema vacinal completo.

A segunda razão é a dificuldade de garantir o cumprimento dos protocolos de segurança com as crianças. "Eles são muito pequenos, se movimentam muito, são muito afetivos, querem abraçar, beijar, estar junto dos colegas", explica a professora. A diretora do Sismmac, Luciana Kopsch, relembra que não há obrigatoriedade do uso de máscaras para crianças de até dois anos e para as que estão na educação especial. "A gente tem relatos de crianças que levam sua máscara de casa mas retornam com a do amiguinho. Assim como fazem com outros materiais." 

O terceiro motivo elencado por Débora é a estrutura precária da instituição. "É um CMEI antigo, as janelas são pequenas, tem pouca ventilação nas salas, tudo isso dificulta", afirma.

Um dos complicadores para cumprir as medidas de segurança, especialmente nos CMEIs, é o tamanho das salas, consideravelmente menores que as das escolas. "Muitas unidades não conseguem garantir o distanciamento de 1,5 metro por conta da quantidade de crianças e do espaço físico das salas", relata a diretora do Sismmac, que cita ainda outros problemas como o sistema de ventilação e a qualidade do álcool gel e das máscaras proporcionados pela prefeitura. 

Para o professor de educação física de uma escola na Cidade Industrial de Curitiba (CIC), Arthur Prats, os educadores só deveriam retornar após a segunda dose da vacina. "Está muito confuso esse retorno, principalmente para minha disciplina, porque a gente não sabe se vai poder trabalhar com os alunos as práticas na quadra, ouse vai ficar só em sala com conteúdo teórico", diz o professor, que recebeu só a primeira dose da vacina. 

Procurada pela reportagem, a Secretaria Municipal de Educação informou que as escolas estão preparadas para o retorno, "equipadas com itens de limpeza e de proteção individual, como totens de álcool gel, tapetes sanitizantes, máscaras, face shields, termômetros, entre outros". De acordo com a secretaria, foram gastos mais de R$ 2 milhões na aquisição de itens para prevenção ao coronavírus e "novas compras deverão ser feitas nas próximas semanas".

Em caso de contaminação, a Secretaria esclarece que deverá ser feito o isolamento do indivíduo, que passará a acompanhar as aulas de forma remota. 

Os sindicatos orientam aos professores que, quando souberem de alguma suspeita entre colegas ou entre estudantes, devem comunicar a direção e ficar atentos ao processo de monitoramento que será feito pela SME. 

Ao todo, são 17 mil profissionais e 140 mil crianças e estudantes no sistema municipal de ensino da cidade.

Unidades que retornam na próxima segunda-feira (19):

Bairro Novo

Boqueirão

Boa Vista

Cidade Industrial de Curitiba (CIC)

Cajuru

Matriz

Pinheirinho

Portão

Santa Felicidade

Tatuquara

Reportagem sob orientação de Rogerio Galindo

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