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Dois livros, um país

Lançados em 2025, Coisa de Rico, de Michel Alcoforado, e Brasil no espelho, de Felipe Nunes, jogam lupa em temas importantes para o debate público

Dois livros, um país
Michel Alcoforado. Foto: Reprodução/Instagram

Dois dos livros mais interessantes sobre o Brasil contemporâneo foram lançados em 2025, receberam boas críticas e seguem sendo lidos. Coisa de rico, do antropólogo Michel Alcoforado, publicado pela Todavia; e Brasil no espelho, do politólogo Felipe Nunes, pela Globo Livros. O primeiro, ensaístico; o segundo, resultado de uma grande pesquisa nacional. Ambos, portanto, das ciências sociais; ambos na lista dos mais vendidos – quase um milagre em um país que, indicam pesquisas, pouco lê.

Coisa de rico é um ensaio diferente. O pressuposto é analisar como vive o andar de cima da sociedade brasileira. Em menos de 300 páginas, Alcoforado estuda o perfil de alguns personagens e a inserção deles em seus respectivos grupos. Manejando autores como Pierre Bourdieu, Erving Goffman e Sérgio Buarque de Holanda, o texto apresenta descrições em primeira pessoa, reconstrução de diálogos vividos quase como se em um romance, análises de situações e criação de conceitos, chegando a algumas conclusões. Entre elas, a de que rico é o outro; que dinheiro não define riqueza; e que há uma disputa simbólica entre os grupos, principalmente entre os ricos tradicionais e os novos ricos.

A ideia de que o rico é o outro é simples: quem está no 0,1% dos mais ricos acredita que são os 0,01% que, sim, são os ricos. E assim sucessivamente. Quanto ao dinheiro não definir riqueza... Bem, não é questão de valor, é sim sobre manejar as coisas de rico, como ter a agenda ocupada, obras de arte instaladas na própria casa casa, contatos com gente importante. Se tudo é uma disputa simbólica, ora, ter um Pollock na parede aciona um mecanismo que automaticamente levam o outro a pensar em Museu de Arte Contemporânea de Nova York ou coisa que o valha – mesmo que o proprietário não entenda nada de arte. Mas ele tem um item. Uma coisa de rico.

Entre os conceitos criados, gostei principalmente de dois: tempo legitimador e tempo transformador. O rico tradicional, normalmente herdeiro, cujo sobrenome tem peso e história, usa o tempo para validar ainda mais quem ele é, o passado, e as coisas de rico que possui, como a cadeira de vovó (simbolizando uma linhagem), como diz o autor. O novo rico, por outro lado, precisa do tempo para se transformar, e marcar bem a data de mudança, de quando se tornou quem é atualmente – alguém que acessa bons restaurantes, carros de luxo, casas em bairros com segurança, talvez com o quadro de um expressionista abstrato na parede. Os novos costumam ostentar para os “de fora”; os bem-nascidos, para os “de dentro”. Eis outra das disputas simbólicas.

Também gostei da provocação do autor, que inverte o que, de modo geral, estabeleceu-se nas ciências humanas brasileiras, o fato de se estudar pobre, negro, indígena. “Meu objetivo é compreender os códigos, a visão de mundo e os sentidos que aqueles que habitam o topo da pirâmide da renda dão à própria vida. Com isso, busco captar melhor o funcionamento da sociedade brasileira. Ao fim e ao cabo, é também olhando para ‘os de cima’, desvendando suas estratégias de dominação e opressão, que poderemos entender como e por que, apesar dos esforços individuais e das políticas públicas, ‘os debaixo’ seguem onde estão”.

O texto, por vezes, parece ser condescendente com o andar de cima. Alcoforado reforça mais de uma vez que a ideia de luta, de batalha, de disputa – claro, dentro de um espaço definido – o da riqueza, mas, em certos momentos, em um país que ainda tem gente sem saneamento público, achar difícil a vida de quem ganha mais de seis dígitos por mês é um tanto quanto descolado da realidade.

Brasil no espelho é um pouco mais técnico, mas não menos ambicioso. O livro talvez seja o mais indicado para jornalistas, cientistas sociais de modo geral e quem mais tiver interesse em conhecer o país real. Com menos de 250 páginas, o trabalho é resultado de uma pesquisa (survey) com quase 10 mil pessoas, realizada entre novembro e dezembro de 2023 em todo o país, feita Quaest, empresa do autor, a pedido do Grupo Globo. O levantamento criou 37 índices divididos em onze dimensões: religiosidade, família, identidade nacional, honestidade, meritocracia, discriminação, sexualidade, insegurança, confiança, comportamento social e ideologia. Felipe Nunes dialoga direta ou indiretamente com Ronald Inglehart, André Singer e Darcy Ribeiro.

De modo geral, Nunes indica que, a partir dos dados levantados, o Brasil de hoje é semelhante ao de 1997. “Na média, somos um país majoritariamente conservador. Prevalecem os valores tradicionais da religião, a valorização da família acima de tudo, a preservação de um pensamento estereotipado sobre o papel dos homens na sociedade, com uma aceitação moderna e conflitiva do papel das mulheres dentro e fora de casa. Na média, somos um povo com pouca aceitação de minorias, onde o diferente é admitido, mas visto como incômodo.”

Claro, este artigo não dará conta de tudo, mas algumas informações saltam aos olhos. Uma delas, por exemplo, é a questão do aborto. Embora uma parte da sociedade defenda a pauta, principalmente em grupo de algumas mulheres e em algumas bolhas de redes sociais, o que a maior parte da população quer é outra coisa. Segundo a pesquisa, a maioria afirma que mulheres que abortam devem ser presas (homens, de 64 a 74%, dependendo da cor; mulheres, de 58% a 64%, dependendo da cor). Isso diz muita coisa. Outro item alarmante. Apesar de termos a maior Parada LGBT do mundo, para 71% do país, a homossexualidade não é justificável – na Suécia, o índice fica em 19%. Isso auxilia a explicação quanto aos crimes de homofobia ou mesmo a discriminação sofrida diariamente por esse grupo.   

A maior parte dos brasileiros não acredita que quem é pobre se esforce para sair da pobreza – os mais jovens são os únicos que discordam. Segundo o levantamento, pessoa que se colocam como militantes e progressistas, em sua maioria, também afirmam isso. Isso explique, talvez, por que há tanto preconceito e crítica em relação a programas sociais, como o Bolsa Família.

Também não confiamos em ninguém. Só 6,5% das pessoas afirmam confiar nas outras. Além disso, no campo cultural o sertanejo é o gênero musical mais ouvido, com 27%. Depois, o religioso/cristão/gospel, 17%. Não à toa, portanto, que há um movimento crescente e orquestrado em relação às igrejas evangélicas por parte da direita e da extrema-direita.

Assim como em Coisa de Rico, a pesquisa corrobora com a informação de que rico é o outro. “A percepção de classe dos brasileiros é substancialmente distorcida: mais da metade dos 5% mais ricos afirma ser de classe baixa ou de média baixa. Entre os que ganham mais de dez salários mínimos, 56% pensam assim.”  

Há informações que podem soar contraditórias em um primeiro momento, como o fato de que progressistas e conservadores, em sua maioria, defendam, por exemplo, prisão para jovens de 16 anos que cometam crimes. Em considerando o dado verdadeiro, o Brasil é ainda mais complexo do que muitos querem fazer parecer ser.

Assim como Alcoforado, Felipe Nunes também cria conceitos. Em vez de geração X ou Y, ele apresenta: Geração Bosa Nova (nascidos entre 1945-1964); Geração Ordem e Progressos (1965-1984), Geração Redemocratização (1985- 1999) e Geração .com (2000-2009). Não sei se irá pegar, mas eu gostei dos nomes.

Vale uma reclamação. A edição de Brasil no espelho traz alguns erros que, espero, sejam corrigidos nas próximas. Há gráficos que contradizem a informação apresentada em texto. Um exemplo está na página 68. O autor registra que “64% dos brasileiros dizem se sentir muito orgulhosos do Brasil e 24% afirmam se sentir orgulhosos”. Na tabela logo acima, o dado é outro: 11% estão muito satisfeitos; 64% estão satisfeitos. Não me parece ser algo que invalide o estudo, mas...

Coincidentemente ou não, ambos os livros utilizam o gentílico de quem nasceu em nosso país em seus subtítulos: Coisa de Rico: a vida dos endinheirados brasileiros; Brasil no espelho: uma guia para entender o Brasil e os brasileiros. Coincidentemente ou não, ambos os autores, Alcoforado e Nunes, estudaram e viveram fora do país; coincidentemente ou não, eles se tornaram figuras midiáticas – e isso é bom.  

Alcoforado, dono de uma consultoria de tendências, deu entrevistas até dizer chega aos principais veículos do país, passando até por programas que falam diretamente com o público sobre o qual ele escreveu como o Saia Justa, a GNT. Nunes, para além de telejornais e podcasts do Grupo Globo, foi até o Altas Horas – quem diria! Ponto positivo menos para as pesquisas e mais para os autores, que se expressam muito bem e dominam o conteúdo que estudaram.  É possível deduzir que, dado o fato de que as obras estão vendendo, estar na mídia ajude. O ensaio de Alcoforado já vendeu mais de 100 mil exemplares.

Não quero parecer precipitado, mas considero esses trabalhos uma espécie de coroação quanto ao acesso do grande público a obras de não ficção de cunho, digamos assim, acadêmico. O Brasil tem visto ser produzido bons ensaios para leitores não especializados, embora nem todos sejam lidos, criticados ou vendidos quanto esses.

De anos recentes, três bons livros. A valsa brasileira, da economista Laura Carvalho e lançado em 2017 pela Todavia, fala sobre a crise econômica vivida pelo país na década anterior, a partir de uma ótica que não a neoliberal, costumeiramente mais em voga nos cadernos de economia dos jornais. Em 2018, foi a vez do Uma história da desigualdade, a concentração de renda entre os ricos no Brasil (1926-2013), do sociólogo Pedro H. G. Ferreira de Souza publicado pela Hucitec – este, sim, um pouco mais acadêmico, visto ser o resultado da tese de doutorado do autor. Ainda assim, importante obra também sobre o andar de cima, com dados estatísticos e análise de intepretação sociológica. Por fim, O tempo dos governantes incidentais, do politólogo Sérgio Abranches, publicado pela Companhia das Letras em 2020. A obra é um ensaio refletindo o estágio da democracia e sua possível corrosão, após a eleição de governantes com espírito autoritário. Abranches discute o fenômeno que surgiu na América (Donald Trump, Jair Bolsonaro), Europa e Ásia (Boris Johnson, Recep Erdogan).

Em um país polarizado como o nosso, Coisa de Rico e Brasil no espelho surgem como uma lupa em questões que podem auxiliar a compreensão de quem somos e quem é o outro, e de que maneira, compreendendo o outro, não necessariamente concordando, um debate quanto à estrutura social pode ser feito.

Por fim, para não dizer que eu não falei sobre nenhuma ficção (e quem se importa?), um romance, em certo sentido, mimetiza o que Michel Alcoforado e Felipe Nunes abordam em seus trabalhos. É o divertido A boba da corte, de Tati Bernardi, lançado pela Fósforo também em 2025. Nessa leva de autoficção, a obra é narrada por Tati, uma publicitária que se torna escritora e frequenta as rodas da inteligência paulistana, o andar de cima cultural e financeiro – ricos, herdeiros, que disputam capitais simbólicos entre si, mas que não se veem como privilegiados e que acham que suas opiniões liberais são a realidade do país. O livro garante umas boas risadas, mas isso é papo para outra hora.

Victor Simião

Victor Simião

Jornalista e sociólogo, com mestrado em Ciências Sociais pela UEM. Escreve sobre livros há mais de uma década, em locais como o jornal Rascunho e O Cândido. Criou em 2013 o Clube de Leitura Bons Casmurros.

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