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Divertir e subverter

Se, diante de seu bebê recém-nascido, a mãe passasse voando, esse bebê esbugalharia olhos de espanto?

Por Admin
Divertir e subverter
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Se, diante de seu bebê recém-nascido,a mãe passasse voando, esse bebê esbugalharia olhos de espanto? Desconfio quenão. Se o pai atravessasse uma parede, o bebê ficaria maravilhado achando que opai fosse super-herói? Arrisco dizer, também, que não. Se, diante do bebê, aspessoas apontassem uma cadeira e falassem “mesa”, o bebê as corrigiria? Se,embalada em carinho e afeto, o bebê recebesse palavras como: quem é ababaquinha da mamãe? quem é a tontinha do papai?, essa criança se ofenderia?Não e não. Se todos chamassem de teto aquilo que chamamos de parede, a paredeseria teto, não parede (emoji pensativo).

Esses dias fui falar numauniversidade. Era a primeira vez que eu entrava naquela sala específica. Logo,vi lá também pela primeira vez as suas janelas, a tomada, a cadeira, e váriaspessoas. Acho que me saí bem, não cumprimentei a tomada, não pluguei meucomputador na janela, nem me sentei nas pessoas. Consegui, por meio de umaordenação que sistematizei ao longo da vida, plugar meu computador na tomada,abrir a janela para entrar um ar, cumprimentar as pessoas e me sentar nacadeira. Civilidade pra ninguém botar defeito.

Duas palavras que garantem ànossa sobrevivência um pouco menos de agonia: automatização e identificação.Não penso mais, mesmo entrando num lugar pela primeira vez, o que seriam umatomada, uma janela, uma cadeira, umas pessoas reunidas. As coisas acontecem automaticamente,já que sou capaz de identificar elementos e atribuir um valor a cada umdeles – a tomada era idêntica a tantas outras que já vi na vida, assimcomo janelas e cadeira e pessoas. Identidade, identificação, idêntico.

Portanto, automatizar eidentificar nos poupam um grande trabalho. E permitem um pouco de comunicação –nunca integral, jamais tornamos rigorosamente comuns as coisas que queremosdizer. Comunicação é tornar comum, pero no mucho.

Quando a garganta secou, esvazieium copo de água. E perguntei, apontando para o copo: o que é isso? Eu fiqueicom um pouco de vergonha diante do silêncio e fui me apressando a responder àquelapergunta tão idiota, fingindo que era apenas retórica, mas ainda tive tempo deouvir umas vozes rindo e soltando: um copo. Obrigado, gente. Então quer dizerque esse copo é, tipo, um copo? Faz sentido. Esse era o significante comum queparecia tornar possível a nossa comunicação. Um copo é um copo, o quemais seria? Estávamos sendo objetivos, ou seja, colocando no objeto acapacidade de ele praticamente se autonomear, precisando apenas de nossa voz, semnos dar alternativa. A verdade estava no objeto. Mas alguém poderia terrespondido: esse objeto é plástico. Outro poderia ter respondido: esse objeto éum cilindro. Outra poderia ter dito: esse objeto é um objeto. Estariam errados?Não, e ainda continuariam a ser objetivos (dá pra problematizar isso, eu sei).

No entanto, veja só, já temosaqui nesse plástico-cilindro-objeto um deslocamento, uma forma de ver, mesmoque objetivamente, outras dimensões do copo. Se quiséssemos nos divertir mais,poderíamos colocar o sujeito na parada e assim partir para definiçõessubjetivas, desviantes da nomeação concreta: olhar um objetoplástico-copístico-cilíndrico e dizer “isso aí é um túnel, sem saída”. Quealguém dissesse que não era sem saída porque bastaria sair por onde entrou, nãoseria de espantar. Vê como o sujeito vai se colocando?

Onde eu quero chegar? Não sei.Mas já que vim, vou entrar nesse túnel – minha única saída agora é entrar. Sealgumas linhas aí pra cima eu comemorava aliviado a existência da automatizaçãoe da identificação, agora já posso olhar para o outro lado dessa moedinhasacana. Legal ver forma e atribuir função a uma tomada, automatizando-a eidentificando-a como tomada. O que acontece, porém, é que muitas vezesautomatizamos conceitos nada objetivos. Uma criança que cresce ouvindo posiçõesmarcadamente fundamentalistas sobre etnia, gênero, classe social etc, temchance grande de ser fundamentalista e explicar o mundo a partir dessas lentes.Se o entorno da criança apontar para uma mesa e disser cadeira, aquele objetoserá uma cadeira (qual ponto uso aqui, final ou de interrogação?). Se o entornopassa a dizer que se armar é um modo de eliminar violência, que bandido bom ébandido morto, que há subtipos de humanos, isso vira uma verdade que, de tãorepetida, massacra a capacidade de refrescar o olhar, de reinaugurar o jeito dese ver no mundo, de ver o mundo, de ver o outro. Há aqui automatização eidentificação, mas de tipo diferente daquele de que falávamos acima.

Ilustração: Conde Baltazar

Preciso de identificação aonascer, ela nos dá as primeiras ideias de quem somos (“antes de falar, somosfalados”, sabe?), ela me dá um nome, sobrenome, me dá um lugar entre os demais.Se essa identificação, contudo, que me diz quem sou e quem o outro é, passar ame prender e a aprisionar em caixinhas o que me cerca (atenção ao duplo sentidodesse “me cerca”), precisarei me reposicionar subjetivamente, a fim de meseparar das tais identificações que funcionam mais como rótulos grudados numaembalagem, cujo conteúdo, porém, não é bem o que a propaganda diz.

Criam-se identificações rígidasque levam a associar pessoas a um catálogo de rótulos instalado desde muitocedo no sujeito rotulador. Assim é até com nós mesmos: se crescemos ouvindo quesomos bonzinhos ou pestinhas, burrinhos ou geniozinhos, vamos grudando taisrótulos colados pelo Outro e depois temos uma baita dificuldade para saber oque é nosso desejo e o que é o desejo de corresponder ou frustrar o desejo do Outro,a expectativa que ele criou em nós, a narrativa que ele inscreveu em nós.

Aí, eis que me lembro desse encontro:as “definições” do José Paulo Paes (do livro Poemas para brincar):

Caveira:a cara da gente quando a gente não for mais gente

Excelente:lente muito boa

Isca:Cavalo de Troia para peixe

Rei:cara que ganhou coroa

Urgente:gente com pressa

Zebra:bicho que tomou sol atrás das grades

É um verdadeiro dicionário, de Aa Z, de que pus aqui apenas alguns vocábulos. O ranzinza (essa espécie semgraça de rã cinza, estritamente objetivo, automatizado e identificado –definição que inventei agora) vai achar isso uma grande baboseira. Ora, o quetem de mais nessa bobajada de poeta?

Muitos de nós, menos ranzinzas,vamos rir, mas achar que é “só diversão”. E é aí que eu implico. Sódiversão? Sabe que minha implicância não está com a palavra diversão, e simcom o só. Diversão é dividir a versão (fonte: vozes da minha cabeça), é proporuma versão que estava escondida sob a versão oficial, portanto: subversão(prende o comunista). Então a diversão é excelente (“excelente: lente muitoboa”) e isso não é pouca coisa, daí a minha implicância com o só. É pelareinvenção da palavra que a gente desautomatiza e desidentifica o mundo e a nósmesmos, que a gente arranca os rótulos que escondem mais do que mostram. Apoesia expande o significante, torna-o aberto para a metáfora, torna-o abertopara novas entradas de percepção do mundo. Sem isso, seríamos um sujeitoobjetalizado, um sujeito sem desejos assujeitado ao que o Outro diz que somos.Seríamos muito pouco, quase nada. E o que é o nada?

“Uma faca sem lâmina da qual setirou o cabo”.

Adoraria que fosse minha essadefinição do nada, mas é do Guimarães Rosa.

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