Este texto integra o projeto Periferias Plurais, uma parceria entre o Plural, o Gasam e a Itaipu Binacional
Andando pelas ruas de sua comunidade, dona Junia mal consegue completar uma quadra sem que alguém a cumprimente, faça uma pergunta ou peça uma ajudinha. Isso porque Junia Celle da Costa é liderança da Vila Joanita há mais de 10 anos. Ela conhece a história de cada vizinho, família e casa construída na região.
A ocupação, localizada entre o Tarumã e o Bairro Alto, existe desde 1989. Uma das primeiras famílias a adquirir um terreno no local foi a de Joanita, sogra de Junia. Foi ela quem tomou a frente no diálogo com o poder público para solicitar a instalação de rede elétrica e de saneamento na comunidade, além de pedir a abertura da primeira via, a Travessa Brasílio de Lara. Por esse motivo, a vila ganhou o nome de sua mais antiga e mais engajada moradora.
Joanita morreu aos 50 anos, deixando terrenos para os filhos. Apenas um deles continua morando no local: Edival José da Silva, marido de Junia.
“Eu me sinto honrado de ter ficado e, junto da Junia, ter levado o nome da minha mãe ao conhecimento de muitas pessoas. Ela faleceu cedo, mas deixou esse legado para a gente”, diz.
Junia conta que começou a seguir os passos de Joanita e despontar como liderança comunitária em 2014, quando a Cohab (Companhia de Habitação Popular de Curitiba) iniciou um estudo da área. Os moradores temiam, na época, ser removidos de suas casas sem que houvesse um projeto concreto de reassentamento.
“Nisso, eu fui conversar com a Cohab. Quis entender o processo”, relata Junia. “Então, começamos a mobilizar os moradores. Fizemos reuniões e oficinas para que todos entendessem o que estava acontecendo com o lugar e como era o diálogo com a Prefeitura.”
Na falta de um endereço oficial para sediar as reuniões entre os moradores e também com o poder público, Junia transformou parte de sua casa na Associação de Moradores da Vila Joanita. O espaço segue como referência para as quase 400 famílias que habitam a comunidade, pois é lá onde acontecem os projetos sociais e, ainda, onde acontecem as entregas dos Correios, uma vez que muitas casas não têm CEP e, portanto, não recebem encomendas.
“Aqui, a gente também promove ações da Delegacia da Mulher, do posto de saúde, da universidade [UniBrasil]. Tem doação de material escolar, festa de Dia das Crianças, Natal e Páscoa. Já tivemos alfabetização de adultos, oficinas de tear, brechó. É uma forma de fortalecer e acolher o morador”, conta Junia.
A realidade dos moradores da Vila Joanita é similar à de mais de 122 mil pessoas que habitam favelas e comunidades urbanas em Curitiba, segundo o Censo de 2022, realizado pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística). Segundo o levantamento, existem quase 47 mil domicílios nessas condições na capital paranaense.
“O primeiro impacto das ocupações irregulares é na vida das pessoas que moram ali. Elas vivem em vulnerabilidade, seja para receber uma encomenda, obter um financiamento ou conseguir um trabalho. Muita gente mente o endereço porque pode não conseguir emprego se disser que mora em uma ocupação irregular”, afirma Alexandre Pedrozo, professor de Urbanismo na FAE Centro Universitário e orientador de um projeto de pesquisa que envolve a Vila Joanita.
“Além disso, como essas ocupações ocorrem em lugares que a gente diz no planejamento que não podem ser habitados, como fundos de vales, setores de risco ou locais que atrapalham a fluidez do trânsito, a cidade toda acaba perdendo”, observa.
O problema da regularização versus reassentamento
Alexandre leciona uma disciplina relacionada a regularização fundiária e, por isso, decidiu aproximar estudantes do caso da Vila Joanita. Ele iniciou um projeto de pesquisa universitário para estudar a possibilidade de regularização dos terrenos da comunidade e, ao mesmo tempo, buscar uma solução para melhorar a relação da cidade com o rio — visto que a Vila Joanita, próxima a um curso d’água do Rio Bacacheri, é considerada um local com risco de inundação.
“A vontade da população é de permanência e de regularização fundiária. Porém, regularizar os terrenos é algo que dependeria de uma comprovação de que há uma solução para que as famílias não estejam em risco”, afirma.
A administração municipal já determinou a inviabilidade da regularização das residências da Vila Joanita, dado que elas se encontram em uma “faixa não edificável de drenagem”, ou seja, uma região onde não é permitido construir, para garantir o escoamento da água e evitar alagamentos.
“A área foi destinada a obras de drenagem e contenção de inundações, conforme intervenções previstas no Rio Bacacheri pelo Programa PAC 2 — Gestão de Riscos, o que demanda a realocação das famílias que ocupam a faixa de 50 metros para cada lado do rio”, afirma a Promotoria de Justiça de Habitação e Urbanismo de Curitiba, do Ministério Público do Paraná, que acompanha o caso. “Tanto a realocação quanto as obras dependem de disponibilidade orçamentária, motivo pelo qual não foi indicado prazo específico.”
Outro impedimento para a realização das obras de drenagem, segundo a Cohab, seria a resistência dos moradores à opção do reassentamento, uma vez que “já possuem vínculo com a região e sentimento de pertencimento”.
Embora essas intervenções para prevenção de inundações não tenham sido executadas, existem, de acordo com a Defesa Civil de Curitiba, outras maneiras de atuar em prol da segurança dos moradores caso haja previsão de cheias. A Coordenadoria Técnica de Proteção e Defesa Civil conta com um dispositivo que monitora o índice pluviométrico na região, para que se possa agir rapidamente na proteção das pessoas, caso necessário.
Como a cidade acelera o rio
Alexandre Pedrozo observa que o Rio Bacacheri sofre impactos desde a sua nascente e, quando chega até a Vila Joanita, tende a ser “estrangulado”. Assim, quando há chuvas mais fortes e aumento no volume do rio, existe a possibilidade de inundações.
“A cidade acelera a água”, explica. O crescimento urbano, como a construção de ruas e a impermeabilização do solo (pelo asfalto e concreto) faz com que a água da chuva escoe mais rapidamente para os rios, aumentando sua velocidade e volume.
A canalização de um rio intensifica ainda mais esse efeito. Portanto, para Alexandre, essa não seria a solução ideal para a Vila Joanita, pois apenas passaria o problema da água para a região que estiver mais adiante, rio abaixo.
“Precisamos criar mecanismos para a cidade desacelerar essa água. Se ao longo do rio forem criados espaços de contenção, quando tiver muita chuva, a água não vai chegar lá na frente e transbordar. Essas soluções de barragens, lagoas e parques são muito bem-vindas para a cidade. É o que se chama de cidade-esponja, como o que a China está fazendo”, afirma.
Um Projeto de Lei voltado a formas de combate a enchentes e alagamentos foi aprovado, no fim de 2025, pela Câmara Municipal de Curitiba. A proposta inclui na política municipal de drenagem urbana mecanismos como os jardins de chuva. Eles são áreas verdes projetadas para captar e infiltrar a água da chuva no solo, o que acontece por meio de camadas de brita, terra e composto orgânico inseridas abaixo da vegetação. A proposta, apresentada pela vereadora Laís Leão (PDT), entra em vigor neste mês.
De acordo com Alexandre, tanto o estudo quanto a execução desse tipo de medida na região da Vila Joanita são muito necessários — e são uma responsabilidade do município como um todo.
“A cidade toda teria que financiar uma obra dessa porque a cidade toda contribuiu para o problema do rio. Boa parte da região do Bacacheri foi impermeabilizada. Asfalto, pátio, prédio. Ela acelerou o rio. Então essa água que chega na Joanita é responsabilidade de toda a cidade”, diz.
O direito à moradia na nova Curitiba
Além da resolução do problema da água, outro grande desejo de Junia é que a regularização fundiária volte a ser considerada, apesar dos entraves encontrados até o momento.
“Queremos que a Vila Joanita esteja dentro do planejamento dessa nova estrutura de Curitiba”, ressalta. Para ela, a permanência e a revitalização da comunidade são as prioridades.
“Vai fazer 35 anos que moro aqui, neste mesmo lugar, neste mesmo endereço. Meu bisneto está na creche onde a minha neta ficava. Todos passaram pelo Madre Antônia [escola municipal] e pelo Paulo Leminski [colégio estadual]. É um ciclo”, diz. “Então, pensar na possibilidade de remover a Joanita é aterrorizante.”
Segundo a Promotoria de Justiça de Habitação e Urbanismo de Curitiba, do Ministério Público, casos como o da Vila Joanita são complexos.
“A despeito do risco, há significativa resistência das famílias em aceitar o reassentamento, em razão do rompimento dos vínculos comunitários e sociais estabelecidos ao longo dos anos. O Ministério Público reconhece essa complexidade e atua como mediador do conflito, buscando acomodar e legitimar os interesses das famílias”, afirma.
Junia vê de maneira positiva o estabelecimento de diálogo com a Cohab e demais órgãos do Executivo Municipal, mas considera que a luta pela moradia em Curitiba ainda está longe de ser resolvida. Ela segue atuando como a voz da Vila Joanita para fora, fazendo serem ouvidas as demandas por melhorias, e para dentro, transmitindo informações e ouvindo a comunidade.
“A gente tem sempre uma conversa para fazer com os moradores, ou uma conversa em alguma secretaria, porque a Joanita não para. Ela está em constante movimento.”