O salário médio das contratações formais em Curitiba subiu de R$ 1.679 em 2020 para R$ 2.307 em 2025 — um avanço nominal de 37,4%. O problema é que o IPCA acumulou 41,8% no mesmo intervalo. Resultado: corrigido pela inflação, o piso típico de admissão na capital paranaense ficou estagnado, com uma variação real de apenas +1,55% em seis anos.
A conclusão emerge da análise dos microdados do Novo Caged, do Ministério do Trabalho, entre janeiro de 2020 e março de 2026. São 2,62 milhões de admissões formais em Curitiba no período, depois de filtros para excluir erros de digitação na fonte (havia, por exemplo, uma admissão com salário declarado de R$ 70 milhões para alimentador de linha de produção), contratos com remuneração em base horária e o trabalho de aprendizes.
Salário médio de admissão em Curitiba (2020-2025)
Nominal vs. real (corrigido pelo IPCA, base março/2026)
Fonte: Novo Caged/MTPS. Elaboração: Plural.
A inflação venceu o salário
Quando o gráfico é destrinchado mês a mês, fica nítido que o salário nominal sobe em uma trajetória contínua, enquanto o salário real desenha uma curva em forma de U: cai bruscamente entre 2021 e 2022 — período do choque inflacionário pós-pandemia — e só volta ao patamar de 2020 ao longo de 2024 e 2025.
O movimento explica por que muitos trabalhadores recém-contratados nesses anos relataram dificuldade para repor o orçamento doméstico mesmo com aumentos nominais expressivos. O reajuste, em média, apenas acompanhou os preços.
Salário médio mensal de admissão em Curitiba
Janeiro/2020 a março/2026, todas as ocupações (Caged)
Fonte: Novo Caged/MTPS. Elaboração: Plural.
As 20 ocupações que movem o mercado
As vinte ocupações com mais admissões em Curitiba no período concentram 53,1% de todas as contratações registradas pelo Caged. São empregos majoritariamente de nível médio: faxineiro, alimentador de linha de produção, vendedor de comércio varejista, assistente administrativo, operador de telemarketing, auxiliar de escritório, operador de caixa.
Entre essas 20 ocupações campeãs de volume, 17 tiveram ganho real inferior a 10% entre 2020 e 2025 — quase todas, portanto, ficaram a poucos pontos percentuais da estagnação. Três delas chegaram a perder poder de compra: cozinheiro geral (-7,3%), faxineiro (-1,7%) e operador de caixa (-0,8%).
Há, porém, exceções relevantes. Trabalhador da Manutenção de Edificações — função de zelador técnico — teve o maior ganho real do grupo (+17,5%), num movimento que pode estar associado à profissionalização da manutenção predial em condomínios e empresas. Cobrador interno (+12,4%) e recepcionista (+11,5%) também avançaram acima da inflação.
Top 20 ocupações: variação real do salário (2020-2025)
Ocupações com mais admissões em Curitiba no período. Verde = ganho, vermelho = perda em poder de compra.
Fonte: Novo Caged/MTPS. Elaboração: Plural.
Gerente administrativo no topo, programador no fundo
Quando o recorte se amplia para todas as ocupações com pelo menos 500 admissões em 2020 e em 2025 (para evitar distorções de cargos raros), aparecem ganhos e perdas mais expressivos.
No topo do ranking, gerente administrativo registrou alta nominal de 89,6% — o salário médio de admissão saltou de R$ 3.969 em 2020 para R$ 7.524 em 2025. Mesmo descontada a inflação, o ganho real é de +39,6%, o maior do levantamento entre ocupações com volume relevante. O movimento é consistente com a expansão do setor de serviços corporativos e administrativos na capital e indica disputa por talento gerencial.
Outras ocupações que valorizaram acima da inflação:
- Auxiliar de faturamento: +29,1% real
- Operador de telemarketing receptivo: +25,7% real
- Eletricista de instalações: +12,1% real
- Atendente de farmácia/balconista: +14,2% real
- Zelador de edifício: +12,4% real
Na ponta oposta, programador de sistemas de informação liderou as perdas: o salário médio de admissão recuou de R$ 5.842 (em valores de mar/2026) para R$ 5.277, uma queda real de -9,7%. O número provavelmente reflete o ajuste pós-bolha de TI — depois da expansão acelerada das contratações de tecnologia durante a pandemia, a oferta de mão de obra cresceu mais rápido que a demanda, comprimindo os salários iniciais.
Também perderam poder de compra:
- Supervisor administrativo: -4,7% real
- Contador: -3,9% real
- Administrador: -2,2% real
- Vendedor em comércio atacadista: -1,9% real
Chama a atenção a concentração de perdas em ocupações de nível técnico e médio-gerencial — exatamente a camada da pirâmide salarial que costuma ser usada como referência de mobilidade social pela classe média curitibana.
Ganhadores e perdedores em poder de compra (2020-2025)
Variação real do salário médio de admissão. Apenas ocupações com 500+ admissões em 2020 e em 2025.
Maiores ganhos reais
Maiores perdas reais
Fonte: Novo Caged/MTPS. Elaboração: Plural.
O que esses números dizem (e não dizem)
Os dados do Caged mostram o salário declarado no momento da admissão. Eles não capturam reajustes ao longo do contrato, bônus, comissões nem aumentos pós-convenção coletiva. Em algumas ocupações de comércio e serviços, parte expressiva da remuneração efetiva vem justamente do variável — o que pode subestimar o salário de fato recebido.
Por outro lado, o salário de admissão é um dos indicadores mais sensíveis das condições do mercado de trabalho local: ele mostra a remuneração que empregadores estão dispostos a oferecer aqui e agora para atrair mão de obra. Quando ele cresce abaixo da inflação por seis anos seguidos, há um sinal claro de que a recuperação do emprego em Curitiba — que de fato existiu, com 88% mais admissões em 2025 do que em 2020 — veio acompanhada de pressão para baixo sobre os salários iniciais.
A leitura combinada com a evolução do volume sugere um mercado curitibano que abriu mais vagas do que nunca, mas em um padrão remuneratório que, na média, apenas repõe a inflação. Quem entra agora ganha, em poder de compra, praticamente o mesmo que quem entrou há seis anos.
Nota metodológica
Fonte: microdados do Novo Caged (Ministério do Trabalho e Previdência), com filtro para o município de Curitiba (código IBGE 410690).
Período: janeiro de 2020 a março de 2026 (75 competências mensais).
Cálculo das médias: salário médio anual ponderado pelo número de admissões em cada competência.
Deflator: série mensal do IPCA/IBGE acumulada até março de 2026 (base 100). Salários "reais" estão expressos em reais de março/2026.
Códigos CBO: Classificação Brasileira de Ocupações 2002. Algumas ocupações aparecem como "(Desativado em 2010)" porque o CBO 2002 segue em uso pelo Caged ainda que a CBO 2010 já tenha consolidado os códigos.
Limitação: os dados refletem apenas o vínculo formal celetista. Trabalhadores informais, autônomos e MEIs ficam fora do Caged.
Análise produzida com base nos microdados da Bússola Plural — o aplicativo do Plural que rastreia movimento do mercado de trabalho de Curitiba a partir do Caged.