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Prefeitura ignora pedido de informação sobre contrato milionário com hospital falido

Contrato de R$ 14,9 milhões por ano foi assinado em dezembro de 2025, às vésperas da conversão da Recuperação Judicial em falência

Prefeitura ignora pedido de informação sobre contrato milionário com hospital falido
Giorgia Prates. Foto: Tami Taketani/Plural

Há mais de um mês a Prefeitura de Curitiba não responde a um requerimento da Câmara Municipal que cobra a íntegra do contrato firmado com o Hospital XV — o mesmo grupo cuja falência foi decretada pela Justiça em março — para a prestação de serviços de traumato-ortopedia no SUS, com capacidade contratada de 1.800 pacientes por mês. O pedido, protocolado pela vereadora Giorgia Prates (PT) em 31 de março de 2026, foi remetido ao Executivo no dia 1º de abril, por meio do Ofício 400/2026-DAP, e segue, segundo o sistema da Câmara, no estado “Aguardando ação ou manifestação do Executivo”. Hoje, 4 de maio, completam-se 33 dias sem resposta.

Identificado pelo código 062.00556.2026, o requerimento pede à Secretaria Municipal da Saúde a íntegra do processo administrativo nº 01-139569/2025, que originou o Edital nº 01/2025-SMS — credenciamento de serviços de traumato-ortopedia. A vereadora cobra todos os movimentos, pareceres técnicos e jurídicos, despachos, notas técnicas, atas, gravações de sessões públicas, documentos anexos e decisões proferidas no chamamento, além de eventuais processos administrativos acessórios, preparatórios ou posteriores.

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No bloco sobre o edital, Prates quer ver os estudos técnicos, levantamentos de demanda e instrumentos de planejamento que subsidiaram o chamamento — especificamente o estudo de necessidade assistencial em traumato-ortopedia no SUS de Curitiba, a justificativa técnica para a definição da capacidade de 1.800 pacientes/mês e os critérios usados na programação física e financeira. Pergunta ainda se houve consulta pública, audiência pública ou “outro mecanismo de participação social prévia à publicação do edital”.

Foco no Hospital XV

O coração do requerimento é o pedido de informações sobre quais estabelecimentos foram habilitados — com nome, CNPJ, natureza jurídica (filantrópica ou com fins lucrativos) e pontuação — e, especificamente, sobre a contratação do Hospital XV: data de habilitação, critérios que ensejaram a seleção, resultado da análise documental e da visita técnica e a programação física e financeira atribuída ao hospital. A vereadora também solicita a cópia integral do contrato firmado, incluindo eventuais termos aditivos, e os relatórios das visitas técnicas realizadas nos estabelecimentos habilitados, com destaque para o Hospital XV.

Sobre a execução, o requerimento cobra a quantidade de atendimentos realizados até o momento, os valores já pagos ao(s) contratado(s), as metas quantitativas e qualitativas pactuadas e seu cumprimento, além de eventual aplicação de penalidades, glosas ou apontamentos de irregularidades.

Questionamento jurídico

O documento ainda pede que o Executivo esclareça a opção pelo modelo de credenciamento, com base no artigo 79 e correlatos da Lei 14.133/2021 (a nova Lei de Licitações), apresentando “justificativa para não adoção de procedimento licitatório competitivo” e a “demonstração da inviabilidade de competição, se for o caso”. Outra exigência é que se explique como foi observada a diretriz de preferência às entidades filantrópicas prevista na legislação do SUS — uma cláusula que, na prática, pesa contra a contratação de hospitais com fins lucrativos como o Hospital XV.

Na justificativa anexa, a vereadora afirma que o requerimento tem por objetivo “assegurar a transparência, o controle social e o exercício da função fiscalizatória do Poder Legislativo, especialmente diante da relevância do objeto contratado — serviços de assistência ambulatorial e hospitalar em traumato-ortopedia no âmbito do Sistema Único de Saúde”. E acrescenta que “o volume de recursos públicos envolvidos, bem como a essencialidade dos serviços prestados, demandam total publicidade e acesso às informações, nos termos dos princípios da administração pública e da legislação vigente”.

Por que importa

O requerimento foi protocolado duas semanas depois da sentença que decretou a falência do Hospital XV Ltda. e do Instituto de Medicina e Cirurgia do Paraná Ltda., assinada em 17 de março pela 27ª Vara de Falências e Recuperação Judicial de Curitiba. O contrato com a Prefeitura, firmado pouco antes da quebra, ampliou a oferta de leitos e atendimentos de urgência e trauma na rede municipal — e foi citado pela própria juíza, na sentença de falência, como uma das razões para autorizar a continuidade provisória das atividades do hospital.

Em outras palavras: o Município mantém um contrato ativo no SUS com um grupo cuja administração agora está sob comando de uma administradora judicial, e a Câmara, até aqui, não conseguiu sequer ver o contrato. Além disso, como o Plural revelou, o contrato em si não foi assinado com o Hospital, mas sim com uma entidade filantrópica que presta serviços na área de sáude e que não é parte no processo de falência do hospital. Em manifestação junto à justiça, credores da massa falida pedem que seja detalhada a relação entre a entidade contratada pela Prefeitura e o hospital.

Rosiane Correia de Freitas

Rosiane Correia de Freitas

Jornalista, mestre em educação e fundadora do Plural

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