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Opinião: Câmara de Curitiba tem sua legislatura mais covarde

O único futuro que os parlamentares curitibanos parecem contemplar é arrebanhar seguidores suficientes no Instagram para viabilizar uma candidatura à Assembleia Legislativa, para onde vão cumprir o mesmo papel mediocre que já cumprem na Câmara

Opinião: Câmara de Curitiba tem sua legislatura mais covarde
Plenário da Câmara de Curitiba. Foto: Tami Taketani/Plural
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Nos mais de vinte anos em que trabalho acompanhando política em Curitiba como repórter, já vi muita coisa. Debates acalorados, bate boca, empurra empurra. Já vi momentos (raros) de consenso. Vereador recitando poesia para miss sei lá o que. Votações difíceis (lembra do Greca carregando os vereadores para a Ópera de Arame para votar o congelamento das carreiras dos servidores municipais?), protestos. Mas acho que talvez não tenha existido uma legislatura tão covarde quanto a que agora ocupa a Casa dos curitibanos.

Há três indícios fortes de covardia na Câmara: os alvos preferenciais dos vereadores, a ausência de propostas significativas e a preferência dos parlamentares pela performance em redes sociais ao invés do debate real.

Veja, por exemplo, a insistência de vários vereadores em ir atrás da população em situação de rua, o grupo social mais vulnerável que temos em uma sociedade. É uma população que não tem dinheiro, poder, influência.

Ter um vereador "contra" ela me parece, no mínimo, o equivalente a usar um míssil para matar uma formiga. (Não vamos nem falar no quanto isso não serve nem para ajudar quem se incomoda com a presença deles, nem para ajudar a população em situação de rua em si).

Quando isso acontece, eu me pergunto se nossos legisladores perderam a capacidade de colocar as coisas em perspectiva, sabe? Qualquer pessoa em uma posição de poder tem que ter um mínimo de discernimento. Mais de R$ 100 mil por mês gastos com um vereador para ele combater o seu João, que sofre com esquizofrenia, dependência química e não consegue trabalhar? Ou para expôr da dona Maria, que mora na rua porque fugiu de um relacionamento abusivo, do qual saiu sem um tostão?

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Por que não usar sua força, vereador, vereadora, para cobrar transparência no gasto de recursos públicos aplicados em entidades sociais? Ou fiscalizar a qualidade da merenda escolar? Ou quem sabe discutir como é que a cidade vai lidar com a escassez de professores?

Não faz sentido que a cidade gaste tanto dinheiro e tempo e confira tantos recursos e poder a um grupo de pessoas que simplesmente não sabem usar isso para pensar o futuro. O único futuro que os parlamentares curitibanos parecem contemplar é arrebanhar seguidores suficientes no Instagram para viabilizar uma candidatura à Assembleia Legislativa, para onde vão cumprir o mesmo papel mediocre que já cumprem na Câmara.

Isso nos leva ao segundo sinal de covardia: a falta de propostas relevantes. Ok, historicamente a Câmara nunca foi fonte de inovação, relevância ou mesmo ideias. Mas vereadores de todo espectro ideológico sempre foram minimamente capazes de saber acompanhar a execução de políticas públicas, entender como a administração municipal funciona e propor emendas em projetos do prefeito.

Ao acompanhar os pedidos de informação desta legislatura fico preocupada que muitos dos parlamentares não saibam nem o que querem perguntar para a Prefeitura. Vocês não sabem a quantidade enorme de papel (tá bom, bytes, porque hoje é tudo eletrônico) que se gasta para o parlamentar que se diz "o mais produtivo" protocolar um pedido para a Prefeitura sobre informações que qualquer pessoa alfabetizada encontra no site da administração.

Muitos dos nossos legisladores não fazem do que atuar como um 156 "de luxo", submetendo pedidos à administração municipal via o sistema da Câmara para cada cidadão que aparece no gabinete, num volume absurdo.

Como o Plural noticiou, em muitas desses pedidos, os parlamentares expõem dados pessoais dos cidadãos que estão supostamente "ajudando". O que os vereadores esperam desse tipo de ação? Que a Prefeitura dê tratamento especial para os eleitores deles? Isso, obviamente, seria uma ilegalidade.

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Na prática, o que vamos na rotina da Câmara são parlamentares que são leões com umbandistas, população carente, mas que chuchucas com as grandes empresas que prestam serviço ao município e com o prefeito, que deveriam fiscalizar. É fácil bater em quem é menor e mais fraco, não é mesmo?

Por fim, o terceiro indício está em todos os cantos do espectro político: o de estar mais preocupado com performar nas redes sociais do que participar de debates reais. Claro, nesse caso específico a culpa não é só dos parlamentares. Infelizmente parece que o mundo todo regrediu para um estado de limitação cognitiva que só nos permite ouvir (ou ler, assistir) aquilo com o que concordamos.

Mas no caso de pessoas eleitas para legislar, debater é essência do trabalho que são pagos para fazer. E, vale um adendo aqui, debate pressupõe que: 1) diferentes opiniões são apresentadas e discutidas e 2) os debatedores estão abertos a possibilidade de mudar de opinião (do contrário, vira um show de monólogos). Não existe debate de um lado só.

Aí por conta dessa tolice da "polarização", quando um lado fala, o outro põe os dedinhos no ouvido e canta - lálálálálá. Aí o outro lado fala e o um grita "É o PT!!!!!" E tudo bem, porque no fim ambos os lados produzem seus meses para seus respectivos perfis nas redes sociais e deixam seus seguidores felizes da vida.

Não é papel do vereador ser dono da verdade. Se fosse o caso, nós não teríamos que gastar cerca de R$ 82 mil por mês com uma equipe de profissionais para assessorá-los. Bastava só o vereador e sua vasta (#ironia) sabedoria. Mas não, o parlamentar tem uma equipe cuja finalidade não é ser central do 156, nem assistente de Tiktoker.

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Saber debater exige coragem. Mudar de opinião exige coragem. Mas para jogar para a torcida, usar frases de efeito, não. A cidade passa por dois momentos fundamentais: a licitação do transporte coletivo e a reformulação do Plano Diretor. Nós vamos ter muito em breve um apagão na disponibilidade de professores de ensino fundamental formados. O abastecimento de água da cidade está constantemente em risco.

Mas ouvimos sobre isso nas sessões da Câmara? Não. Eles estão ocupados demais homenageando absolutamente todos os padres e pastores da cidade (nada contra, mas precisa?), criando o Dia do Rock, Dia da Capivara, Dia do Homem Branco Solteiro e fazendo live para meia dúzia de desocupado e seus próprios assessores (imagina a triste de trabalhar tendo que ouvir live do chefe).

Mas nossos vereadores acham que o importante é importunar gente pobre, doente e abandonada e dar chilique porque um único terreiro ia receber Utilidade Pública (enquanto centenas de igrejas católicas e evangélicas e suas entidades já receberam o mesmo título). Importante é combater o PT, muito embora na cidade o partido tenha zero participação no governo municipal e no governo estadual (e uma bancada minúscula na Câmara).

Quer combater o PT, vereador? Arranje 200 mil votos e vá para Brasília. Não conseguiu? Então favor não tumultuar.

Se Curitiba é hoje o que é, é porque no passado houve gente qualificada discutindo, pesquisando, estudando. A UFPR, o então Cefet, a PUC eram ouvidos (não naquele tom protocolar, do presidente da Câmara receber a visita do reitor, mas sim seus inúmeros doutores, mestres, pesquisadores com décadas de estudo e trabalho em áreas específicas).

Não estou aqui idealizando o passado. Só apontando que não usufruímos de uma cidade planejada de graça porque o fulaninho dançou no Tik Tok. Foi porque houve um processo, do qual a Câmara é parte e tem obrigação de cumprir seu papel. Mas na gritaria e covardia que vemos no plenário hoje, o papel da Câmara fica para trás. O que sobra é meme, violência e um grupo de vereadores que não terá legado nenhum.

A covardia da Câmara, porém, não é culpa só dos vereadores. O que vemos lá é uma representação precisa da sociedade curitibana, que acha que democracia e política pública é presente. Cai do céu. Que votou mal e que continua batendo palma para maluco nas redes sociais.

Infelizmente, com essa Câmara, com um prefeito que é um Luciano Huck com sérias restrições orçamentárias, com secretários que não têm qualquer formação na área em que atuam e com uma população apática, nosso futuro parece cada vez mais sombrio. É um fim terrível para aquela que já foi um modelo de cidade para o Brasil.

Rosiane Correia de Freitas

Rosiane Correia de Freitas

Jornalista, mestre em educação e fundadora do Plural

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