Quem passa pela Avenida Presidente Arthur Bernardes, que liga os bairros Portão, Vila Izabel, Seminário e Santa Quitéria, percebeu o trânsito mais intenso na via e nas ruas próximas devido às obras do projeto Novo Inter 2. Retomadas em abril de 2026 em diferentes pontos da cidade, as intervenções têm causado transtornos para motoristas e pedestres. No entanto, a maior preocupação de ambientalistas e moradores é com os impactos após a conclusão das obras.
Uma das principais inquietações da população é a supressão de árvores adultas e saudáveis. Segundo integrantes do movimento S.O.S Arthur Bernardes, a prefeitura não apresenta de forma detalhada quais árvores serão cortadas, nem disponibiliza um inventário completo das já existentes no parque. “Decidimos fazer um inventário por conta própria e descobrimos, no meio do processo, que a prefeitura havia tomado conhecimento da nossa iniciativa e resolveu produzir um também”, explica Ionete Hasse, bióloga, professora aposentada e integrante do movimento.
O trabalho foi realizado entre setembro e novembro de 2024. Foram identificados 1.619 indivíduos de plantas acima de 50 cm, distribuídos em 130 espécies de 41 famílias botânicas. O inventário foi conduzido por Anderson Soares Alves, estudante de Ciências Biológicas da UTFPR, e pela bióloga aposentada Ionete Hasse.
Com a retomada das obras, o movimento acompanha os trabalhos e utiliza o inventário para monitorar possíveis cortes, mas ainda não teve acesso ao projeto atualizado. “Até hoje não sabemos quais árvores serão cortadas e qual será o plano de compensação”, afirma Anderson. Ele e Ionete planejam publicar um artigo científico com o inventário arbóreo completo para registrar a importância da área.
A falta de acesso à informação também é alvo de críticas. “Se a população quiser saber algo sobre a obra da Arthur Bernardes, é preciso ir até o centro esportivo da Arthur nas sextas-feiras, das 14h30 às 16h30. Mas quem pode ir nesses horários? Que tipo de escuta é esta que a prefeitura diz fazer?”, questiona Verônica Rodrigues, do movimento S.O.S Arthur Bernardes.

Contratos e execução das obras
Outra questão que chama atenção é a execução das obras. Os contratos firmados entre a prefeitura e as empresas responsáveis possuem uma cláusula específica sobre o andamento dos trabalhos. Segundo os documentos, “a contratada deve finalizar completamente os serviços de cada trecho iniciado antes de abrir novas frentes de serviço. Esta exigência garante a conclusão sequencial e integral de cada etapa, assegurando qualidade e consistência na execução”.
Integrantes do movimento S.O.S Arthur Bernardes afirmam que essa regra não vem sendo cumprida. “Quem anda pela região sabe que há obras acontecendo simultaneamente na Arthur Bernardes, na Airton Plaisant, na rua Professor Doracy e em outros pontos da cidade. Onde está a fiscalização da prefeitura? Onde está o cumprimento dos contratos que impedem que um novo trecho entre em obras sem a finalização do anterior?”, afirma Rodrigues.
Atualmente, as obras do Novo Inter 2 acontecem simultaneamente em diferentes regiões de Curitiba, incluindo Centro, Mercês, Campina do Siqueira, Santa Quitéria, Portão e Vila Izabel. Em maio de 2025, a prefeitura rescindiu o contrato do Lote 1 devido a atrasos, com apenas 12% de execução após 11 meses de trabalho. Para evitar novos impasses, o município dividiu o lote em quatro sublotes (A, B, C e D), cada um com contratos específicos.
De acordo com a prefeitura, “o plano de ataque das obras do Novo Projeto Inter 2 é proposto pela contratada para execução dos trabalhos e submetido à aprovação dos envolvidos, como Secretaria Municipal de Obras Públicas (SMOP), Superintendência de Trânsito (Setran) e URBS”.
Em nota enviada ao Plural, a prefeitura informou que “a execução das obras deve seguir uma sequência planejada, preferencialmente prevendo a conclusão das etapas já iniciadas para início de outras. No entanto, alterações no planejamento inicial e a abertura de novas frentes de serviço podem ocorrer, desde que autorizadas pela fiscalização, mediante avaliação técnica da sequência lógica de execução, condições de segurança e dos impactos na mobilidade”.
A prefeitura também ressaltou que cada lote possui um contrato distinto, o que permite a execução simultânea de diferentes lotes e pacotes. Segundo o município, “somente a execução simultânea dos lotes, de forma planejada e articulada, pode assegurar que as obras sejam concluídas dentro da vigência do programa”.
