Pular para o conteúdo

Movimento de Luta Antimanicomial critica internação forçada de mulher em Curitiba

Para o movimento, prefeito Eduardo Pimentel fez uma ação midiática, parte de uma política higienista

Movimento de Luta Antimanicomial critica internação forçada de mulher em Curitiba
Publicado:

O Movimento da Luta Antimanicomial criticou a internação involuntária de uma pessoa em situação de rua em Curitiba, feita pela Prefeitura na sexta-feira (9). Para o movimento, tratou-se uma ação midiática do prefeito Eduardo Pimentel (PSD), que expôs uma mulher em situação de rua, e parte de uma política de higienização social.

A Prefeitura anunciou a ação somente na terça-feira (13) e Eduardo Pimentel publicou um vídeo nas redes sociais. Segundo o prefeito, a mulher é usuária de drogas e estava colocado em risco a própria vida e de outras pessoas na Avenida Comendador Franco (Avenida das Torres). "Haverá internação voluntária nos casos em que a vida estiver em risco", garantiu o prefeito.

Para o Movimento da Luta Antimanicomial, o número de pessoas em situação de rua vem aumentando em função da especulação imobiliária, da precarização do trabalho, de cortes em políticas públicas e do desmonte da Rede de Atenção Psicossocial.

"Curitiba não garante, de forma efetiva, CAPS suficientes, equipes de Consultório na Rua, unidades de acolhimento, moradia, trabalho, renda e acompanhamento territorial. Em vez disso, concentra recursos em abrigos precarizados e em internações forçadas em comunidades terapêuticas privadas, muitas delas ligadas a igrejas, que recebem recursos públicos por pessoa internada", denunciou o movimento.

A nota lembra ainda que especialistas do Ministério Público Federal e da Defensoria Pública da União já se manifestaram contrariamente a projetos semelhantes em outras cidades.

Curitiba faz primeira internação forçada de pessoa em situação de rua
Segundo funcionário de Caps, número de pessoas encaminhadas aumentou neste ano; Primeiro caso foi na sexta e vereadoras pediram informações sobre critérios

Segue a nota:

O Movimento da Luta Antimanicomial vem a público denunciar a política de internação compulsória anunciada pelo prefeito de Curitiba, Eduardo Pimentel, que vem sendo apresentada de forma midiática por meio da exposição pública de uma mulher em situação de rua. A ação integra uma política de higienização social que criminaliza a pobreza e transforma o sofrimento em instrumento de propaganda.

A medida ocorre em um cenário de crescimento acelerado da população em situação de rua, agravado pela especulação imobiliária, precarização do trabalho, cortes em políticas públicas e pelo desmonte da Rede de Atenção Psicossocial. Curitiba não garante, de forma efetiva, CAPS suficientes, equipes de Consultório na Rua, unidades de acolhimento, moradia, trabalho, renda e acompanhamento territorial. Em vez disso, concentra recursos em abrigos precarizados e em internações forçadas em comunidades terapêuticas privadas, muitas delas ligadas a igrejas, que recebem recursos públicos por pessoa internada.

Denúncias recorrentes indicam que nessas instituições há violações de direitos, trabalho forçado, restrição de liberdade e ausência de cuidado em saúde. A política de internação compulsória, portanto, não responde às necessidades da população, mas a interesses econômicos e eleitorais, articulados à expansão desse mercado.

A gravidade da situação é reforçada por recentes episódios de violência institucional, como o assassinato de um jovem pela Polícia Militar dentro de sua casa durante uma crise psicótica, após o SAMU acionar a polícia. O caso ocorreu no mesmo período em que a prefeitura anunciou operações conjuntas com a PM para “ordenar” a cidade.

A prefeitura afirma existir um protocolo para internações involuntárias, mas até o momento não apresentou critérios públicos, instrumentos de controle, garantias de esgotamento prévio das alternativas de cuidado em liberdade nem mecanismos de fiscalização social. Isso viola frontalmente a Lei nº 10.216/2001, que institui a Reforma Psiquiátrica brasileira e estabelece que a internação deve ser excepcional, temporária e articulada à reinserção social.

Especialistas do Ministério Público Federal e da Defensoria Pública da União já se manifestaram contra projetos semelhantes em outras cidades, classificando essas medidas como inconstitucionais por violarem direitos fundamentais, especialmente da população em situação de rua.

O Movimento da Luta Antimanicomial se soma aos movimentos em defesa da população em situação de rua e exige a suspensão imediata dessa política. Exigimos a abertura de um debate público real, com trabalhadores, sociedade civil e conselhos de direitos, para construir respostas realmente eficazes. Defendemos investimento em cuidado em liberdade, moradia, trabalho, renda e políticas territoriais que garantam dignidade. Convocamos os conselhos de classe, as categorias profissionais, os movimentos políticos, os mandatos e toda a população de Curitiba a se posicionarem e se mobilizarem em defesa dos direitos humanos e do cuidado em liberdade.

José Marcos Lopes

José Marcos Lopes

Jornalista formado pela UFPR.

Todos os artigos

Mais em curitiba

Ver todos

Mais de José Marcos Lopes

Ver todos

De nossos parceiros