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Fila do SUS em Curitiba encolhe após investimento, mas exames e consultas ainda atrasam

Investimentos do Programa Nacional de Redução de Filas reduziram cirurgias no SUS em Curitiba em 2025, mas exames e consultas especializadas ainda têm espera acima de seis meses

Fila do SUS em Curitiba encolhe após investimento, mas exames e consultas ainda atrasam
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Entre 2024 e o início de 2026, Curitiba registrou redução expressiva nas filas de cirurgias eletivas graças ao Programa Nacional de Redução de Filas (PNRF), mas a espera por alguns exames e consultas especializadas ainda permanece longa. Endoscopias, colonoscopias e avaliações para cirurgias plásticas reconstrutivas estão entre as maiores filas, com pacientes aguardando mais de seis meses por atendimento.

Além do reforço financeiro do Programa Nacional de Redução de Filas (PNRF), do governo federal, a diminuição de parte das filas do SUS em Curitiba também foi influenciada por iniciativas do governo do Paraná e da Prefeitura de Curitiba. O Estado ampliou o financiamento de procedimentos de média e alta complexidade, especialmente cirurgias eletivas, por meio de convênios com hospitais filantrópicos e prestadores privados.

Já o município investiu em mutirões locais, reorganização da regulação e ampliação temporária da oferta de consultas e exames, utilizando recursos próprios e contratos emergenciais. A combinação dessas três frentes — federal, estadual e municipal — ajudou a acelerar atendimentos represados desde a pandemia, embora os dados mostrem que a redução das filas foi desigual entre especialidades.

Curitiba enfrentou em 2024 filas recordes no SUS, resultado de procedimentos eletivos suspensos durante a pandemia de covid-19. Especialidades inteiras acumularam milhares de pacientes à espera. No início de 2025, o governo federal lançou o Programa Nacional de Redução de Filas (PNRF), financiando mutirões de cirurgias, exames e consultas para atacar esse passivo. Os efeitos logo apareceram nos números: entre o fim de 2024 e o fim de 2025, muitas filas diminuíram drasticamente. Por outro lado, algumas demandas reprimidas continuaram a crescer apesar do esforço. 

Segundo dados da Secretaria Municipal da Saúde, a fila para consultas oftalmológicas gerais era a maior de todas em 2024, com 56.199 pacientes aguardando atendimento. Esse número foi reduzido em etapas ao longo de 2025 – para 28.773 no primeiro semestre e 18.414 no fim do ano –, reflexo de mutirões de atendimento oftalmológico. No início de 2026, a espera por consulta em oftalmologia geral praticamente zerou, eliminando uma fila que antes levaria anos para ser vencida. A média de espera, que chegava a ultrapassar seis meses, caiu para menos de 3 meses ao final do processo.

Exames: ultrassom zerado, endoscopia em alta

No campo dos exames e procedimentos diagnósticos, o impacto do PNRF foi desigual. Alguns dos exames com maiores filas em 2024 foram praticamente eliminados em 2025. Ultrassonografias são exemplo claro: havia cerca de 23 mil pacientes aguardando ultrassom de abdômen total em 2024, fila reduzida para 9,3 mil em meados de 2025 e apenas 399 no fim de 2025.

Em janeiro de 2026, a fila de ultrassom de abdômen total chegou a zero – sinal de que a demanda reprimida foi totalmente atendida e novos pedidos estão sendo marcados sem espera significativa.

O mesmo ocorreu com outros exames de imagem, como ultrassom transvaginal (fila de 6,7 mil em 2024, zerada em 2025) e mamografia de rastreamento (reduzida para praticamente zero). Esses exames, antes adiados na pandemia, ganharam força-tarefa especial e agora apresentam tempo médio de espera de até 3 meses ou menos para novos pacientes.

Por outro lado, procedimentos endoscópicos e alguns diagnósticos especializados viram suas filas aumentarem. A endoscopia digestiva alta (esofagogastroduodenoscopia) tinha cerca de 4,2 mil pessoas na fila em 2024, mas esse número mais que dobrou em 2025 – atingindo 10.154 no primeiro semestre e 10.230 no fim de 2025. No início de 2026, a fila subiu para 10.818 pacientes aguardando por uma endoscopia, com tempo médio superior a 6 meses de espera【15†】.

A explicação pode estar no represamento de casos novos: mesmo com mutirões, a oferta não acompanhou o salto de demanda quando as rotinas voltaram ao normal, fazendo a fila estourar. Situação semelhante ocorre na colonosocopia, outro exame fundamental: a fila saltou de 5,2 mil em 2024 para 9,4 mil em meados de 2025. Houve um pequeno alívio até o fim de 2025 (8.652 pacientes aguardando), mas em janeiro de 2026 o volume voltou a passar dos 9,2 mil – com espera média de 3 a 6 meses para realizar o exame.

Até raios X de tórax, normalmente de execução rápida, acumulam pedidos em aberto. Com a retomada pós-pandemia, a fila de radiografia de tórax (posição PA e perfil) subiu de apenas 346 pacientes em 2024 para 4.035 no fim de 2025. No início de 2026, 7.215 pessoas aguardavam pelo exame de tórax, embora com espera estimada em até 3 meses, indicando que a rede está absorvendo esses casos com certa agilidade apesar do grande número. 

Outros procedimentos como densitometria óssea e espirometria também tiveram aumento de filas após 2024 – cada um com cerca de 1,9 mil pacientes na fila em 2026 e espera de até 3 a 6 meses –, mostrando que nem todos os exames receberam a mesma prioridade ou capacidade extra durante o PNRF.

Cirurgias eletivas: catarata e hérnias em mutirão

No front das cirurgias eletivas, os resultados em Curitiba das ações para atendimento da demanda foram positivos na redução das filas originais. Procedimentos cirúrgicos que haviam ficado represados durante a pandemia finalmente deslancham em 2025, reduzindo drasticamente o número de pessoas à espera.

O caso emblemático é o das cirurgias de catarata: tradicionalmente uma das filas mais volumosas, a catarata tinha 1.011 pacientes aguardando em 2024. Com os mutirões, em vez de crescer, essa fila foi praticamente dissolvida – chegou a 1.583 pessoas no meio de 2025 e caiu para 898 no fim do ano, mesmo com novos pacientes ingressando. No início de 2026, praticamente não havia mais espera para cirurgia de catarata em Curitiba, um alívio para milhares de idosos que recuperaram a visão sem tanta demora.

Outras cirurgias de médio porte também tiveram suas filas encurtadas. Cirurgias gerais de aparelho digestivo (como vesícula, hérnias, etc.) acumulavam 2.390 pacientes em fila no fim de 2024. Após um ano de PNRF, restavam 464 pessoas aguardando por essas cirurgias, evidenciando uma redução de mais de 80% na fila.

No início de 2026 a fila voltou a crescer modestamente – 840 pacientes esperando, com tempo médio de 3 a 6 meses – o que sugere que novos casos continuaram surgindo após o impulso inicial do programa, demandando atenção contínua para não retomar patamares altos.

Apesar do sucesso em muitos procedimentos, algumas filas cirúrgicas voltaram a aumentar após terem sido quase zeradas. Cirurgias pediátricas, por exemplo: a fila para correção de fimose em crianças havia sido eliminada em meados de 2025, mas terminou aquele ano com 20 pacientes na espera e saltou para 272 crianças aguardando pela cirurgia no começo de 2026. Ainda assim, o tempo médio estimado para esses casos é de até 3 meses, indicando que há capacidade local para absorver a demanda em prazo relativamente curto.

Já a cirurgia ginecológica (esterilizações, miomas, etc.) teve cenário parecido: reduziu de 132 mulheres na fila em 2024 para apenas 7 em meados de 2025, mas encerrou 2025 com 95 pacientes e subiu para 417 aguardando em 2026. Essa reviravolta sugere que, passado o esforço concentrado do PNRF, novos casos foram se acumulando novamente, possivelmente demandando novas rodadas de mutirão ou expansão permanente da oferta cirúrgica para evitar retrocessos.

Consultas especializadas: avanços e novos gargalos

fila para consultas com especialistas também passou por uma transformação mista. Muitas especialidades médicas reduziram suas filas de espera em 2025, aliviando a população que aguardava diagnóstico ou encaminhamento.

psiquiatria é um caso marcante: eram 3.286 pacientes aguardando consulta psiquiátrica no SUS Curitiba em 2024, fila que foi totalmente eliminada já no primeiro semestre de 2025. O mesmo ocorreu com consultas de psicologia, que caíram de 12 mil para pouco mais de mil em meados de 2025 e a apenas 421 pacientes no fim do ano – praticamente resolvendo o gargalo.

Especialidades clínicas como otorrinolaringologia (ouvido, nariz e garganta) também tiveram uma queda impressionante, de 9,8 mil para 877 pacientes ao longo de 2025Neurologia geral reduziu a fila quase pela metade (de 3.089 para 1.652 pacientes). Em média, essas consultas especializadas que receberam atenção do programa hoje têm esperas na casa de meses, não anos, com muitos pacientes sendo atendidos dentro de 3 meses após o encaminhamento.

Contudo, algumas áreas de consulta sofreram o efeito inverso, com filas inchando conforme a demanda reprimida veio à tona – muitas vezes em setores não priorizados pelos mutirões iniciais. A ortopedia é o exemplo mais gritante: a fila de consulta com ortopedista geral praticamente não existia antes (190 pacientes em 2024), mas saltou para 3.603 no primeiro semestre de 2025 e manteve-se nesse patamar até o fim do ano. No início de 2026, ainda havia 4.041 pessoas esperando por consulta ortopédica geral, reflexo do acúmulo de problemas musculoesqueléticos não tratados durante a pandemia – de dores crônicas a lesões – e possivelmente capacidade insuficiente de especialistas.

Outra fila que disparou foi a de avaliações prévias à cirurgia plástica reparadora. Esse atendimento – necessário para pacientes que aguardam cirurgias reconstrutivas, como correção de sequelas de mastectomia ou grandes perdas de peso – contava 5.899 pessoas em espera no fim de 2024. Em vez de cair, a fila cresceu para 7.981 no primeiro semestre de 2025 e 8.405 no fim de 2025.

Agora em 2026, já são 9.324 pacientes aguardando a tão esperada avaliação para cirurgia plástica reparadora, com tempo médio superior a seis meses de espera. Este parece ser um gargalo não atacado com vigor pelo programa inicial – possivelmente por exigir equipe e recursos específicos – e que segue em expansão.

área de odontologia no SUS também revela desafios contínuos. Filas para procedimentos especializados em saúde bucal aumentaram apesar dos esforços gerais. Para um tratamento de canal (endodontia), havia 4.939 pacientes aguardando em 2024; a fila inchou para 5.418 no fim de 2025 e atingiu 6.551 no início de 2026, com espera de 3 a 6 meses.

Já a fila para cirurgia de remoção de dente incluso (siso ou caninos impactados) praticamente dobrou: de 2.593 pacientes em 2024 para 4.253 no fim de 2025, chegando a 4.777 pessoas aguardando em 2026. A espera média para essas cirurgias odontológicas é superior a 6 meses, tornando-se uma das mais longas do sistema.

Até mesmo o laboratório óptico, serviço que fornece óculos para pacientes do SUS, não escapou – sua fila passou de 2.498 para 6.085 pessoas ao longo de 2025 e hoje soma 7.750 usuários esperando por óculos, significando mais de seis meses de demora para receber o acessório que devolve nitidez à visão.

Rosiane Correia de Freitas

Rosiane Correia de Freitas

Jornalista, mestre em educação e fundadora do Plural

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