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Fé, comunidade e arte são os pilares da vida de Leo Mazzarotto

Para Mazzarotto a fé é individual, a religião pode e deve ser debatida, e a igreja é sinônimo de comunidade

Fé, comunidade e arte são os pilares da vida de Leo Mazzarotto
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Este texto faz parte de uma série de perfis preparados pelo Plural para o Mês da Consciência Negra

Leo Mazzarotto é cristão desde a infância e, embora não seja mais o mesmo desde que era criança, a fé ainda é parte importante de sua vida. Aos 28 anos, o mineiro formado em teatro entende que a fé é individual, a religião pode e deve ser debatida, e a igreja é sinônimo de comunidade. Natural de Ipatinga, no leste de Minas Gerais, Leo mora em Curitiba há seis anos.

Embora este não fosse o plano original, ao pisar na cidade em 2018, ele se encantou pela capital paranaense. "Eu vim com a minha mãe para passar uma semana. Ela estava se mudando, e como veio de carro e era uma viagem longa, decidi acompanhá-la. A ideia era ficar uma semana e depois voltar. Mas em 2021, ela voltou e eu continuei por aqui", conta.

Embora tenha se encantado com a cidade e escolhido fazer dela seu lar, ele não esquece que foi aqui que passou por momentos difíceis. "Eu vim de uma cidade do interior onde meus pais eram bem conhecidos e eu também era. Algumas coisas não foram tão difíceis para mim. Eu fui conhecer o racismo na prática, vivenciar o que era o racismo em 2018, quando vim para Curitiba. Foi quando comecei a ser taxado de prepotente, arrogante, violento e agressivo. E isso acontecia quando eu estava em exercício de liderança. Mas eu comecei a liderar dentro de igrejas em 2012 e naquela época isso nunca aconteceu", diz.

Foi também em Curitiba que o jovem enfrentou mais uma verdade sobre si ao se assumir gay e, como ele mesmo diz, destruir o armário em que estava, para que ninguém pudesse colocá-lo de volta lá dentro. "Em 2021, eu me assumi gay. A minha mãe... bom, a gente se distanciou geograficamente. Foi bom, mas também não tão bom. Porque, com a distância geográfica, parece que as coisas não são. Então, não estou vendo, não está acontecendo. Acaba se tornando meio que um elefante branco na sala, sabe?", conta.

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Nascido em um lar cristão, Leo entende e respeita os limites da mãe ao falar sobre sua sexualidade. Ele mesmo, durante muitos anos, frequentou igrejas fundamentalistas e se privou de viver sua completude pela religião. "Eu inclusive frequentei igrejas bem tradicionais e conservadoras. Já fui da Batista, da Assembleia, de igrejas independentes, de igrejas progressistas, onde você pode fazer um monte de coisas, mas não pode ser gay. Em todas elas, eu praticamente fui expulso. Eu sempre usei a igreja como um refúgio, dizendo: 'Deus, eu sou gay, mas então pelo menos vou fazer as coisas na igreja, porque assim você vai me perdoar pela prática homossexual, mas eu não vou deixar de ser gay'. Até que, em 2020 - durante a pandemia de covid - a igreja fechou e eu não tinha mais um refúgio. Foi aí que comecei o meu processo de aceitação, de me perdoar, de me conhecer e me reconhecer", diz.

Mesmo com o afastamento da igreja, Leo nunca abandonou sua fé. "Fiquei três anos fora da igreja, mas continuei conectado com o divino. Durante esse afastamento, eu decidi que não ia mais entrar em nenhuma igreja. E aí no final do ano, eu estive em um terreiro de umbanda e a entidade veio falar comigo e disse: 'Eu não estou falando de religião, mas você precisa estar conectado a uma divindade, porque a espiritualidade é um pilar para a sua existência'. Na hora eu não acreditei. Quer dizer, eu saio da igreja, busco uma outra religião completamente diferente da anterior para que preciso da minha fé."

Aos poucos, Leo foi entendendo que não precisava negar uma parte de quem era para manter sua relação com Deus, mas que seria preciso buscar um espaço que professasse sua fé e ainda o acolhesse. "Desde 2016, eu ouço um pastor de São Paulo, que é o Vitor Azevedo, e eu me identifico muito com a mensagem dele, com a forma que ele prega e a forma que ele fala de Jesus. Ele fala da graça e, infelizmente, em Curitiba não existia nenhum lugar assim, ou pelo menos eu achava. Até que eu conheci o Morada e conheci o Davi - um dos líderes da igreja Morada - e quando eu ouvi pela primeira vez a mensagem dele, pensei: 'Mas gente, eu já ouvi isso em algum lugar e não exatamente a mesma coisa, mas da mesma forma'. E aí, percebi que existe um lugar aqui em Curitiba que me aceita exatamente do jeito que eu sou e que não prega a religião, mas prega Jesus. E aí desde então, aqui estou", diz.

Foi neste período que Leo notou o quanto a comunhão, o estar em comunidade, o se reunir com pessoas era importante para si, mas que também era preciso que a igreja assumisse sua responsabilidade social e passasse a discutir as questões importantes para os fiéis. "Algumas semanas atrás, tivemos a Escola de Justiça Racial aqui na Igreja. E foi assim, explodiu a minha cabeça, de verdade. Recebemos aqui a Lorena Fadi, ela é vocalista da banda Preto do Branco, e como nós estávamos já dentro dessa temática da Escola de Justiça Racial, ela teve uma fala que mexeu muito comigo. Ela cantou uma música que se chama 'Teu amor não falha' e um dos trechos da música é 'Tu fazes que tudo coopere para o meu bem'. E aí ela começou a discursar e falou: 'No país que a gente vive é difícil acreditar que Deus vai fazer que tudo coopere para o nosso bem'. E aquilo pra mim me bateu de um jeito que eu nunca tinha parado pra pensar por este lado, sabe? E quando a gente se posiciona como um lugar na sociedade, a religião tem um papel muito importante na sociedade. A gente precisa falar sobre racismo, sobre feminismo, sobre sexualidade. É aquela máxima: não basta ser racista, tem que ser antirracista; não basta não ser homofóbico, tem que ser anti-homofobia", conta.

https://www.plural.jor.br/noticias/vizinhanca/para-gabriela-percilio-de-araujo-a-medicina-e-politica-e-coletiva/

Hoje, maduro espiritualmente, Leo encontrou sua completude e consegue misturar sua fé com todos os campos de sua vida. Vindo do teatro, o ator e diretor estreou recentemente uma peça que discute sexualidade e religião. "Eu acho que a arte é a minha maior expressão de fé. Os meus textos, eles não são feitos para a igreja e não são textos feitos para atacar a igreja, mas eu acredito que existe muito do que eu acredito espiritualmente, muito do que eu acredito sobre Jesus e sobre Deus dentro desses textos, seja em forma de crítica ou de expressar o amor."

Leo crê em um Deus cheio de amor, que o aceita plenamente e que, como diz a música 'Teu amor não falha', faz com que tudo coopere para o seu bem.

Julia Sobkowiak

Julia Sobkowiak

Formada em jornalismo pela PUCPR.

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