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Déficit de mais de 130 servidores compromete atendimento em casas de passagem em Curitiba

Cerca de um mês após a reunião na Câmara Municipal, servidores seguem enfrentando dificuldades dentro das casas de passagem de Curitiba

Déficit de mais de 130 servidores compromete atendimento em casas de passagem em Curitiba
Presidente da FAS dá explicações aos vereadores. Foto: Rodrigo Fonseca/CMC

No final de março, o presidente da Fundação de Ação Social (FAS) de Curitiba, Renan Oliveira Rodrigues, esteve na Câmara Municipal para prestar esclarecimentos sobre denúncias de falta de servidores, assédio moral contra trabalhadores e problemas nos equipamentos do município. Cerca de um mês após a reunião, servidores seguem enfrentando dificuldades dentro das casas de passagem de Curitiba.

De acordo com levantamento feito pelo Sindicato dos Servidores Públicos Municipais (Sismuc) de Curitiba, faltam cerca de 136 funcionários nas casas de passagem para atender à atual demanda do município.

Depois de denúncias do Sismuc, presidente da FAS dá explicações aos vereadores
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Para Ariane de Assis de Andrade, integrante do SISMUC, os números podem parecer pequenos, mas revelam uma sobrecarga dos funcionários.

“Olhando o número isolado pode não parecer que o déficit seja realmente grande, mas no dia a dia esses educadores/cuidadores precisam atender às demandas e cuidar das especificidades de cada um dos usuários. Em determinados momentos não é possível atender a todos de maneira adequada, e os servidores acabam se sobrecarregando ao tentar suprir essa demanda”, afirmou.

Segundo dados internos dos servidores, na Casa de Passagem Boqueirão, com capacidade para 50 usuários, a FAS informou que apenas sete educadores atuam no local. De acordo com os padrões da Tipificação Nacional de Serviços Socioassistenciais do Sistema Único de Assistência Social (SUAS) que estabelece parâmetros técnicos para garantir qualidade e padronização no atendimento,  há uma defasagem de 13 educadores na casa.Segundo o SUAS, no caso das casas de passagem, o documento define que deve haver pelo menos um educador/cuidador por turno para cada 10 usuários, assegurando acolhimento, convivência e proteção social adequada. Seguindo as orientações da documentação, a defasagem se repete na Casa de Passagem das Mulheres, com capacidade para 41 usuárias, onde apenas 10 educadores trabalham, representando déficit de outros 10 profissionais.

Na Casa de Passagem Padre Pio, com anexo Solidariedade, cerca de 200 usuários são atendidos por apenas 19 educadores, o que representa déficit de 61 funcionários. Já na Casa de Passagem Dr. Saraiva, onde 188 usuários são atendidos, apenas 24 educadores atuam, resultando em falta de 52 profissionais.

Em março, na Câmara, o presidente da FAS afirmou que esperava aumentar o número de servidores, mas até o momento desta publicação nenhum planejamento para contratação foi apresentado.

Assédio Moral

Além da falta de profissionais, servidores relatam assédio moral dentro das casas de passagem. Em março, a coordenadora-geral do Sismuc, Juliana Mildemberg, informou que o sindicato vinha recebendo denúncias de assédio moral, nas quais os servidores se sentiam coagidos a não apresentar queixas sobre as condições de trabalho sob risco de sofrer represálias.

Um servidor que preferiu não se identificar relatou ao Plural que a prática de intimidar trabalhadores tem se tornado comum por meio de processos administrativos. Segundo ele, durante a pandemia, a unidade em que atuava estava sobrecarregada e com poucos funcionários.

“No meio da noite me pediram para que eu fosse com alguns usuários para outra unidade. Eu informei que não poderia deixar meu posto porque não havia outro funcionário para ficar no lugar e questionei se o local para onde pediram para eu ir estava realmente funcionando, uma vez que eu sabia que havia sido fechado poucos meses antes por conta de insalubridade”, relatou.

O servidor afirma que, ao negar-se a deixar seu posto, mensagens começaram a circular em grupos internos dizendo que funcionários “insubordinados” deveriam obedecer às ordens de superiores. Dias depois, sem aviso prévio, foi intimado e processado por insubordinação. “Tomei uma suspensão de cinco dias e, ao retornar ao trabalho, tive meu horário alterado sem explicações”, disse.

Ainda de acordo com o servidor, mesmo apresentando documentos que comprovavam que cuidava dos pais durante o contraturno, a mudança de horário demorou a ser revertida. “Meus pais dependiam de mim. A alteração sem aviso foi um transtorno. Tive que me reorganizar de uma hora para outra e ainda buscar documentos que comprovassem a dependência deles.”

Ele revelou que precisou agir com cautela para solicitar a mudança novamente, por medo de sofrer outro processo administrativo. Segundo o servidor, os processos administrativos disciplinares (PADs) têm sido usados como ferramenta para inibir funcionários que apresentam queixas, sendo posteriormente processados por seus supervisores.

O funcionário ainda relatou que, embora a prefeitura mantenha um canal para denúncias de assédio moral, o programa “Cuidando de Quem FAS” , muitos trabalhadores têm receio de utilizá-lo, já que sabem que as denúncias chegam aos superiores.

Em nota a FAS informou que “repudia de forma veemente qualquer prática de assédio moral em seus ambientes de trabalho. O compromisso com um ambiente profissional ético, respeitoso e seguro constitui um princípio permanente da gestão”.

Confira a nota:

Como medida concreta de prevenção e enfrentamento, a FAS assegura a formação obrigatória de todos os profissionais que exercem função de liderança, como diretores, supervisores regionais e chefias de equipamentos. As capacitações abordam conteúdos essenciais relacionados à identificação, prevenção e combate ao assédio moral e reforçam a responsabilidade das lideranças na promoção de relações de trabalho saudáveis.

Desde 2025, a instituição também implementou o programa “Cuidando de Quem FAS”, voltado à promoção do bem-estar dos servidores, por meio de ações de cuidado e fortalecimento das relações institucionais.

Além disso, a FAS disponibiliza, em sua intranet, uma cartilha orientativa acessível a todos os servidores, com diretrizes sobre a prevenção e o combate ao assédio moral. A iniciativa contribui para a conscientização e fortalece uma cultura institucional baseada no respeito.

As denúncias recebidas são tratadas com seriedade e responsabilidade. Os processos administrativos seguem rito criterioso e têm condução da Corregedoria do Município, com garantia do contraditório e da ampla defesa, conforme os princípios da administração pública.

Como a gestão da FAS valoriza o diálogo permanente com seus servidores, o presidente da Fundação e sua diretoria mantêm diálogo contínuo com as entidades representativas e recebem regularmente o sindicato para tratar de pautas de interesse dos servidores.

No âmbito municipal, a Prefeitura disponibiliza canais específicos para o recebimento de denúncias de assédio moral, com garantia de sigilo, escuta qualificada e acolhimento adequado a todos que buscam apoio. Esses canais têm ampla divulgação na FAS, e o link de acesso está disponível a todos os servidores na intranet institucional, o que assegura facilidade e segurança no registro das manifestações.

Julia Sobkowiak

Julia Sobkowiak

Formada em jornalismo pela PUCPR.

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