Sashira Evans entrou como um tornado no palco do teatro do Museu Metropolitano de Arte. Com 1m82 somados a um salto 15 cm, desfilou na primeira passagem do Miss Drag Curitiba com um vestido vermelho. Na segunda entrada, causou impacto ainda maior: entrou com uma fantasia coberta de mensagens antirracismo, que arrancou em seguida para dançar freneticamente com um traje de bailarina. Na última passagem pelo palco, destinada ao desfile com trajes de gala, apareceu com um vestido todo brilhante que foi elogiadíssimo pelas juradas.
O Miss Drag Curitiba 2024, promovido pelo Grupo Dignidade, tinha outras cinco candidatas, mas para quem estava na plateia era fácil ver desde a metade da noite quem seria a vencedora. Só quem pareceu ficar surpresa ao receber a coroa foi a própria Sashira, que disse à reportagem estar esperando no máximo um terceiro lugar. “Eu tinha duas preferidas e pensei: ‘elas são as mais competentes’. Para mim, elas iam ganhar. Quando chamaram uma delas para o terceiro lugar na minha cabeça, achei que ia ficar em segundo. Na hora que me chamaram, fiquei ‘nossa’. No dia seguinte, eu não acreditava que tinha ganhado”, diz.

Aos 31 anos, o venezuelano Angelo empresta há dez o corpo e suas habilidades na dança, maquiagem e costura para a personagem Sashira. Sem participar de concursos de beleza há pelo menos seis anos, desde que chegou no Brasil, Sashira viu no Miss Drag de Curitiba a oportunidade de voltar aos palcos. Até aqui, desde a saída da Venezuela, país mergulhado no caos econômico e político, Angelo vinha trabalhando como cabeleireiro. Mas ele sabia que Sashira voltaria, até por ter uma mensagem para passar aos brasileiros.
"A drag além de levar uma maquiagem, levar uma performance, tem que levar uma mensagem. Eu acho que isso foi o que fez eu ganhar essa faixa, o pessoal gostou do que fiz, do que entreguei, que foi algo além da beleza”, diz ela conversando com a reportagem no Centro da cidade dias depois da coração, apontando para a faixa branca e dourada no peito que ostenta os dizeres Miss Drag Curitiba.
Mesmo que fale com orgulho e desenvoltura da vitória, Sashira revela que plateias causam nela um certo nervosismo. É que embora a drag seja por natureza uma artista, a pessoa por trás da personagem é tímida e reservada. “No meu dia a dia, eu sou totalmente diferente. Quem não me conhece bem nunca ia imaginar que eu me monto. Eu sei desligar essas duas pessoas. A Sashira para mim é uma personagem. Quando eu me monto eu mudo minha personalidade, mudo meu jeito de ser, de andar, de vestir, porque a Sashira é assim”, conta.

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Tanto Angelo quanto Sashira nasceram na Venezuela. “Lembro que uma vez eu fiz um nevou no cabelo", diz ele, usando uma gíria usada quando uma pessoa descolore o cabelo todo. "E na época uma dançarina da Beyoncé tinha o cabelo branco e raspado como o meu. Daí uma amiga começou a me chamar de Sashira, o nome da tal dançarina” diz ela, explicando a origem do nome.
Na brincadeira da montação, chegou um dia que fui participar do meu primeiro concurso. Me perguntaram ‘como é teu nome?’ Pensei, meu Deus, como que eu vou me chamar? Daí a minha amiga falou, mas você já tem o nome, você é a Sashira para todos nós”.

Depois do concurso do batismo e da criação de sua drag, foi ainda na Venezuela que Sashira aprendeu boa parte do que sabe sobre arte. “Eu cresci em uma família que é de arte, porque minha mãe, ela toca instrumento, ela canta. Minhas irmãs sempre foram dançarinas, então eu cresci em um ambiente bem cultural. Além disso, trabalhei durante muitos anos em um bar na Venezuela onde fazia um teatro musical junto a outras drags”, conta ela.
Mesmo com toda a experiência quando veio para o Brasil, aos poucos a artista foi deixando a drag de lado, ocupado com o trabalho de cabeleireiro e com a adaptação em um novo país. Angelo deixou Sashira guardada na memória. “Graças a Deus, eu sempre fui bem recebido. Nunca sofri diretamente xenofobia ou racismo. No início, não é fácil sair de um país e chegar sem nada, principalmente em uma cidade que costuma ser preconceituosa, mas conheci pessoas que me ajudaram, que me ensinaram e que hoje em dia são meus amigos de paixão”.

Agora, depois do concurso e de se reconectar com sua arte, ele vislumbra trilhar novos caminhos por Curitiba. Além de dançarino, Angelo vem estudando a possibilidade de se tornar DJ e quem sabe começar a tocar na noite de Curitiba, isso é claro como Sashira. O futuro profissional da drag só está começando e para quem ficou interessado no seu trabalho é só procurar por ela nas redes sociais aqui.