Num sábado frio, pouco mais de uma dezena de mulheres, todas de diferentes idades e etnias, se reuniam em um semicírculo na paróquia Imaculado Coração de Maria, em Curitiba. Algumas compartilham histórias sobre relacionamos que as machucaram e buscam apoio para retomar as rédeas dos próprios sentimentos. Esta é uma reunião do grupo Mulheres que Amam Demais Anônimas (Mada).
O movimento tem grupos de apoio em vários países e se define como uma irmandade. O nome deriva do livro de Robin Norwood, que escreveu livro homônimo. O programa de recuperação é baseado em 12 passos e 12 tradições, semelhante ao que ocorre no Alcoólicos Anônimos (AA).
Em Curitiba há reuniões presenciais às quartas-feiras às 19h15 e aos sábados às 9h30. O encontro começa com uma breve apresentação de todas as participantes – sobretudo para ambientar as mais novas.
Depois há leitura e reflexão de textos e as participantes novatas recebem um material impresso para identificar atitudes e sentimentos que eventualmente possam a tornar uma “Mada”, uma mulher que ama demais. Não é preciso verbalizar nada, basta ouvir as histórias.
Uma senhora de mais de sessenta anos, muito bem-vestida, lamenta por ter caído em um golpe financeiro. Ao lado, uma moça de menos de 30 anos menciona que é “muito emocionada”. No canto, uma participante mais antiga fala da relação com a mãe.

Todas as situações se encaixam em alguma descrição de dependência emocional, que não é uma experiência individual, mas tem incidência do patriarcado, do machismo e de como mulheres são socializadas, conforme explica a psicóloga Luana Marques.
“Mulheres não foram ensinadas a se ver como importantes nos relacionamentos. Desde criança, meninas são socializadas para o cuidado, para a responsabilidade em manter o vínculo então não é apenas o conceito de dependência emocional, mas toda a análise da sociedade que tem uma grande influência nisso”, diz.
No Mada não há uma “profissional responsável”, ou seja, uma psicóloga, médica, assistente social ou alguém que faça as vezes de atender as mulheres que estão lá. As pessoas que são mais antigas de grupo – as Madas em recuperação – são quem conduzem as atividades.
Todavia, para Luana Marques, é importante que haja também este acompanhamento multidisciplinar. “A terapia não resolve tudo, é preciso políticas públicas de saúde mental e discussões mais amplas sobre violência de gênero, violência contra a mulher, racismo e todas estas outras agressões que as levam para a dependência emocional”.
Sofrimento
Uma das características das “Madas” é fazer qualquer coisa para impedir o fim do relacionamento por medo do abandono. Este é um dos atributos que constam no livro de Norwood.
Colocar o outro – namorado, marido, pais, filhos, amigos – acima da própria existência e se anular ou subjugar com medo de perder a relação indica que a pessoa deve procurar ajuda.
Para além do Mada, o Sistema Único de Saúde (SUS) conta com Centros de Atenção Psicossocial (CAPS), que oferecem serviços com equipes especializadas para atender as necessidades de saúde mental da população.
O atendimento nos CAPS está disponível para qualquer pessoa que precise de suporte, e pode ser acessado de forma espontânea ou por encaminhamento de outros serviços da rede de saúde, como as UBs. Para isso, basta ir até a unidade de saúde e pedir atendimento psicológico.
Na rede de saúde suplementar, planos e profissionais autônomos da psicologia fazem o atendimento, mas é preciso ficar atento aos valores. Outra opção é buscar ajuda em universidades que têm cursos de graduação em psicologia.
Vergonha
Nos sistemas de saúde existe o sigilo, ou seja, as informações sobre os pacientes não são compartilhadas com ninguém sem o consentimento. O mesmo o ocorre no Mada. Ninguém precisa dizer o nome real ou dar informações que possam identificá-la no “mundo de fora” das reuniões.
Os depoimentos compartilhados também não devem ser comentados fora das reuniões, que devem ser um lugar seguro para quem busca apoio. Manter o anonimato é importante porque existe um tabu sobre dependência emocional, bem como com saúde mental, e por isso muitas participantes têm vergonha dos comportamentos que tiveram por conta da dependência.
“Eu não sei como fui cair nisso, eu não sou burra”, disse, envergonhada, a senhora que foi vítima de um golpe financeiro enquanto compartilhava sua história com as companheiras.
A vergonha é um dos fatores que impede mulheres de sair de relacionamentos abusivos ou tóxicos, por exemplo. Muitas delas têm dependência emocional, financeira, ou ambas do companheiro ou da família e não se sentem confortáveis em buscar ajuda pelo medo dos julgamentos.

Segundo a psicológica Luana Marques, é necessário entender os relacionamentos abusivos a partir de uma perspectiva macro, que versa sobre o patriarcado e o machismo. “Por exemplo, quando temos indivíduos que se recusam a discutir sexualidade ou racismo na escola, indivíduos poderosos, existe um problema de poder: quem está com o poder não quer deixar. Então precisamos pensar essas violências não apenas como experiências individuais, mas como questões da sociedade”, menciona.
Ajuda
Para acompanhar a agenda do Mada, basta entrar em contato por meio das redes sociais (clique aqui).
Para atendimento na rede pública de saúde em Curitiba é possível ir até uma UBS ou agendar consulta direto no aplicativo Saúde Já!

