O Solar do Barão, espaço cultural no Centro de Curitiba, pode ter abrigado uma câmara de tortura ou uma fossa para ossadas durante a ditadura militar brasileira. O espaço na Rua Carlos Cavalcanti, que já foi um quartel, está sendo reformado pela prefeitura e os arquitetos encontraram uma espécie de câmara lacrada com concreto. A Secretaria Municipal de Obras Públicas (Smop) informou que a obra foi temporariamente interrompida para avaliação da estrutura.
Profissionais de arquitetura e arqueologia ouvidos pelo Plural disseram que foram informados sobre a descoberta – um piso de concreto, no lado esquerdo do andar térreo, que esconde uma espécie de câmara. Segundo a assessoria da Secretaria, a princípio foi localizado um reforço da estrutura, na sala onde eram armazenadas as pedras de estilografia, utilizadas em processos antigos de impressão, o que justificaria a construção de um reforço na estrutura. A altura seria apenas de 90 centímetros.
"Talvez seja apenas um contrapiso, mas fica esquisito quando proíbem o acesso", disse um dos profissionais ouvidos pela reportagem. "Só queremos saber se além do cimento e do concreto existem remanescentes ósseos humanos, vestes ou outros vestígios". A estrutura teria chamado a atenção dos trabalhadores por ser diferente do restante do prédio e não ser comum em edificações construídas no século 19.
A descoberta será informada ao Iphan (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional), autarquia ligada ao Ministério da Cultura responsável pela preservação do patrimônio histórico e cultural, e à Polícia Científica.
Solar foi listado por pesquisadora da ditadura
O Solar do Barão foi construído em 1880 e pertencia ao produtor de erva-mate Ildefonso Pereira Correia, o Barão do Serro Azul. A família viveu no local até a morte de Correia, em 1894. Em 1912 o Solar foi incorporado à Fazenda Nacional e transformado em quartel do Exército.
Em 1975, o edifício foi adquirido pela prefeitura de Curitiba e em 1980, após uma reforma, passou a funcionar como espaço cultural. Hoje é sede do Museu da Gravura, do Museu da Fotografia, da Gibiteca de Curitiba e do Centro de Pesquisa Guido Viaro.

O quartel do Solar do Barão foi incluído pela historiadora Stella Castanharo em sua tese de doutorado sobre espaços da ditadura militar em Curitiba como um dos "lugares de atividades repressivas, detenção e das forças policiais" até 1975.
A tese "Os passados no presente: espacialidades e memórias sobre a ditadura civil-militar em Curitiba" lista outros locais da cidade, como o antigo quartel da Praça Rui Barbosa (onde funciona a Rua da Cidadania da Matriz), os quartéis do Boqueirão e do Pinheirinho e o antigo prédio da Auditoria Militar, na Rua Riachuelo, no Centro da cidade.
Para Stella Castanharo, é necessário investigar o local. "Tem que ver de quando é, porque a construção (do Solar) é anterior à ditadura. O edifício teve várias funcionalidades. É preciso fazer uma investigação arqueológica para determinar o período a que ela pertence para determinar o uso", disse a historiadora. "No período do Barão do Serro Azul, por exemplo, podia funcionar como esconderijo ou algum tipo de depósito. Durante a função como quartel poderia ser um depósito, algum tipo de cela, ou mesmo um lugar para esconder documentação e materiais".
O que diz a Secretaria de Obras
A Smop informou que ao lado do espaço funcionava um local chamado "sala de ácidos", utilizada para processos de gravação em metal com o uso de substâncias químicas. A Secretaria afirmou ainda que o acesso ao Solar está bloqueado durante o período de obras e que visitas de especialistas dependem de agendamento prévio. Segue a nota:
Na última semana, durante os serviços de retirada do piso em uma das salas do bloco central da Casa do Barão, a equipe responsável pelo restauro encontrou uma estrutura de reforço sob o assoalho.
É uma base de tijolos com cerca de 90 centímetros de altura e aproximadamente 2,5 metros por 1 metro.
O reforço foi localizado na sala onde eram armazenadas as pedras de estilografia, utilizadas em antigos processos de impressão. Cada peça pesava cerca de 10 quilos ou mais, o que explicaria a necessidade de uma estrutura reforçada para suportar a carga. A descoberta também ajuda a compreender as adaptações feitas no imóvel ao longo do tempo.
Ao lado do espaço funcionava ainda a chamada “sala de ácidos”, um ateliê utilizado para processos de gravação em metal com o uso de substâncias químicas, reforçando que a área possuía características técnicas específicas.
Os trabalhos no local foram temporariamente interrompidos para que a estrutura seja avaliada pela equipe técnica de arqueologia da empresa responsável pelo restauro.
Durante o período das obras, o acesso ao Solar do Barão segue restrito apenas à equipe técnica diretamente ligada a obra, por questões de segurança, devido à presença de equipamentos e serviços em andamento. Quando necessária a entrada de outros profissionais deverá ser solicitada à fiscal responsável pela obra, mediante agendamento prévio.
Reforma foi anunciada no ano passado
Em outubro de 2025, o prefeito Eduardo Pimentel (PSD) esteve no Solar do Barão e anunciou um restauro completo das instalações. O objetivo é criar um corredor cultural conectando o espaço ao Estúdio Riachuelo e ao Cine Passeio.
O Solar do Barão tem três blocos de edificações construídas em diferentes períodos, entre 1880 e 1940, com uma área construída de 3.377 metros quadrados. O projeto de restauro, sob a responsabilidade do Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano de Curitiba (Ippuc) e da Fundação Cultural de Curitiba, prevê a renovação dos sistemas elétrico e hidráulico, a reforma completa da cobertura e a instalação de rampas e equipamentos voltados à acessibilidade.