Na última quarta-feira (23), a prefeitura de Curitiba realizou a segunda edição da audiência pública da revisão do Plano Diretor. O evento aconteceu no Memorial de Curitiba e contou com grande participação. Durante a audiência, tanto membros do Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano de Curitiba (IPPUC) quanto moradores puderam expor suas opiniões sobre a construção da lei que deve reger o desenvolvimento urbano da cidade pelos próximos anos.
Os principais pontos levantados foram a transparência da prefeitura e queixas sobre o andamento das obras na cidade.
O prefeito Eduardo Pimentel (PSD), que abriu a audiência mas não permaneceu até o fim, afirmou em sua fala: “Duas palavras representam a nossa gestão: diálogo e transparência. O diálogo porque estamos ouvindo a cidade — sugestões, críticas construtivas, correções — e transparência porque, desde o início, estamos mostrando todo o processo a vocês.”
Segundo dados apresentados pelo diretor de Planejamento do IPPUC e coordenador-geral do processo de revisão, Thomaz Ramalho, desde abril de 2025 a prefeitura recebeu mais de 9 mil contribuições de cerca de 3 mil pessoas, enviadas por meio dos canais oficiais para a elaboração do Plano Diretor.

No entanto, durante a audiência, populares questionaram o processo de transparência e escuta da prefeitura, principalmente em relação às obras na cidade. Um dos pontos levantados foi sobre a elaboração e as mudanças nas obras da Avenida Presidente Arthur Bernardes.
O trecho, que já está em obras, vem sendo discutido desde 2024, quando a prefeitura divulgou o início do Lote 1 do Projeto Inter 2, com intervenções próximas à avenida. Segundo moradores, o projeto não foi amplamente apresentado à população. Com mobilizações populares, como o movimento S.O.S Arthur Bernardes, o projeto passou por revisões: inicialmente previa o corte de 642 árvores, mas atualmente está previsto o corte de 105.

Apesar da revisão, o movimento alega que ainda não foram apresentados os novos mapas das obras nem os locais exatos dos cortes. “Até hoje não tivemos acesso às informações do planejamento, nem da primeira versão nem da nova. Para agravar a situação, o único jeito de se informar é indo até a Arthur Bernardes, nas sextas-feiras, das 14h30 às 16h30, quando há funcionários da prefeitura tirando dúvidas. Mas quem consegue ir nesses horários?”, disse ao Plural Verônica Rodrigues, integrante do movimento.
A Arthur Bernardes não foi o único foco de questionamentos. Uma moradora levantou preocupações sobre a criação de uma trincheira no bairro Jardim Botânico. Segundo ela, a população já avaliou que o bairro não suporta mais uma obra desse tipo e que, apesar das promessas da prefeitura desde janeiro, os moradores ainda não foram ouvidos.
Já um morador do Campo Comprido relatou acompanhar as obras na Arthur Bernardes, mas questionou o planejamento de mobilidade urbana em outras regiões. Ele destacou problemas nas calçadas do Mossunguê e na altura da Rua Paulo Gorski, que dificultam a circulação de pedestres e ciclistas, levando muitos moradores a priorizarem o uso do carro. O morador pediu que a prefeitura requalifique esses trechos e priorize a mobilidade urbana também nessas áreas.
Em resposta, Thomaz Ramalho afirmou que a prefeitura encontra dificuldades em pensar a mobilidade urbana porque diferentes regiões apresentam necessidades específicas. “Como é que a gente resolve o sistema viário da Paulo Gorski? Vocês sabem que nós estudamos e a única maneira de fazer é retirar algumas árvores na lateral. Veja o problema: você tem uma demanda legítima, que é não querer ficar preso no trânsito, mas ela também não quer perder nenhuma árvore. Eu tento mediar entre você e ela. Você está me dizendo: ‘quero melhor mobilidade no meu bairro’. Ela está dizendo: ‘não existe isso de melhorar a mobilidade, eu não quero nenhuma árvore a menos’. Esse é o conflito que enfrentamos”.
Ao Plural, Verônica Rodrigues rebateu, afirmando que o movimento não é contra melhorias na mobilidade urbana, mas defende que elas sejam feitas respeitando o meio ambiente: “É possível planejar uma obra que melhore a mobilidade sem destruição ambiental. Pensar em mobilidade urbana é também pensar em transporte acessível, que valorize ciclistas e pedestres. Na Arthur Bernardes, por exemplo, não há respostas sobre como eles ficarão seguros com mais faixas de carros próximas à ciclovia e à calçada.”
Além dos questionamentos sobre transparência e novas obras, também foram discutidos temas como regulação da ocupação do solo, regularização fundiária, áreas de preservação e habitação de interesse social.
Outro destaque foi o programa Curitiba Mais Integrada, voltado à cooperação entre municípios da Região Metropolitana de Curitiba (RMC) para infraestrutura e transporte.
Além da audiência pública, que está disponível no YouTube (aqui), a população ainda pode enviar contribuições para a elaboração do Plano Diretor até 10 de maio, por meio da minuta interativa disponibilizada pela prefeitura.

