O espetáculo curitibano convidado para integrar a programação do FIT Rio Preto 2026, “Ilíada em Libras – Canto I”, precisou do mesmo tempo que durou a guerra de Troia para chegar aos palcos: foram dez anos de pesquisa e criação coletiva com a participação realmente ativa da comunidade surda. Codirigida por Rafaela Hoebel (surda) e Octávio Camargo (ouvinte) e estrelada pelo ator Jonatas Medeiros (ouvinte), a peça mostra o início do conflito entre Aquiles e Agamêmnon, que terá desdobramentos trágicos ao longo de todo o poema. Mas o que se vê vai muito além de uma tradução. É uma criação com a potência da Língua Brasileira de Sinais, que amplia a compreensão sobre o que pode ser uma narrativa cênica, como explica Rafaela.
A montagem, realizada pela Fluindo Libras e a Cia. Iliadahomero, também é um convite para o público ouvinte praticar a empatia. Enquanto Medeiros está em cena, a tradução de Odorico Mendes do poema em português é narrada por Fernando Marés, ou seja: quem não é fluente em Libras passa a depender do intérprete – ao lado da cena.
Rafaela Hoebel
A codiretora da peça nasceu surda e começou a estudar em uma época que ainda não existiam escolas bilíngues para surdos, quando predominava a metodologia da oralização e não a língua de sinais. Até punições físicas sofreu porque o uso da Libras era proíbido (e isso nem foi a tanto tempo, ela tem 46 anos de idade). Essas vivências marcaram sua formação e a construção de sua identidade, a de uma pessoa surda.
Ela atua na educação, na cultura e na militância dos direitos dos surdos. E dobra seu tempo entre os gestos expressivos que quase sempre são seguidos por um sorriso no rosto, pois além de diretora, é produtora cultural, atriz, professora universitária e colabora na direção da Associação de Surdos de São José dos Pinhais-PR.
Ao Plural, Rafaela Hoebel contou como o teatro entrou em sua vida, como são as diferentes emoções no papel de atriz e de diretora, e como são raras as referências de teatro surdo. Ela também falou de seus outros espetáculos, das motivações de “Ilíada em Libras – Canto I” e ainda de compromissos como “fortalecer o protagonismo da comunidade surda, ampliar os espaços para artistas surdos e contribuir para que a Libras seja reconhecida não apenas como língua de comunicação, mas também como uma potente linguagem de criação artística”. Confira a entrevista completa a seguir.
Você nasceu surda ou perdeu a audição? Frequentou escolas acessíveis para surdos?
Tenho 46 anos e nasci surda. Minha trajetória escolar aconteceu em uma época em que ainda não existiam escolas bilíngues para surdos como conhecemos hoje. Estudei em escolas inclusivas, sem intérprete de Libras, e também frequentei a Escola Epheta, em Curitiba, onde, naquele período, predominava a metodologia da oralização. Essa experiência marcou profundamente minha formação e contribuiu para que eu compreendesse, desde cedo, a importância do reconhecimento da Libras, da identidade surda e do direito à educação bilíngue.
Convivo com uma pessoa há sete anos e não tenho filhos. Dedico minha trajetória à educação, à cultura e à comunidade surda, campos que dialogam entre si e que considero essenciais para promover a inclusão, fortalecer a Libras e contribuir para a transformação social.
Como o teatro surge na sua vida?
O teatro surgiu para mim por volta de 2011, em um período de experimentação artística. Meu primeiro trabalho foi ao lado de Maureen Miranda, Chiris Gomes e Jonatas Medeiros, que atuava como intérprete de Libras. Foi um processo muito importante porque começávamos a investigar possibilidades de criação a partir da língua de sinais, ainda quando existiam pouquíssimas referências de teatro protagonizado por artistas surdos. Essas parcerias continuaram ao longo dos anos e deram origem a outros trabalhos, como “Surdo Logo Existo”, em 2019, que considero um marco para o teatro surdo em Curitiba.
Hoje atuo como professora universitária no Centro Universitário Internacional Uninter, desenvolvo projetos culturais, principalmente com a Fluindo Libras, participo de diferentes iniciativas artísticas e também colaboro na direção da Associação de Surdos de São José dos Pinhais. Minha atuação transita entre educação, cultura e militância, porque acredito que esses espaços dialogam e se fortalecem mutuamente.
São quantas peças e quantas direções até hoje? Qual foi o melhor momento como diretora e o mais difícil? E como atriz?
Atuei em cinco espetáculos teatrais e assinei a direção de três trabalhos. Um deles foi como orientadora de um grupo de atores surdos em formação, experiência muito significativa porque acompanhamos todo o processo até a criação do espetáculo. Também fui diretora de corpo em “Surdo Logo Existo”, um trabalho que representou um momento importante para o fortalecimento do protagonismo de artistas surdos na cena teatral curitibana.
Entre os momentos mais marcantes como diretora, está justamente acompanhar o crescimento artístico de atores surdos e perceber o impacto que os espetáculos provocam no público. O maior desafio sempre foi construir processos de criação em um cenário onde ainda existem poucos investimentos e poucas oportunidades para artistas surdos.
Como atriz, cada espetáculo representa uma experiência diferente, mas todos têm em comum a possibilidade de contar histórias a partir da Libras e da cultura surda, reafirmando nossa identidade e nosso lugar nas artes cênicas.
As adaptações em português dos poemas da “Ilíada” para o teatro já exigem muito, tanto em talento quanto em dedicação e estudo. Por sua vez, a “Ilíada em Libras – Canto I” percorreu um longo caminho até chegar ao palco. Por favor, conta como foi o processo e como nasceu a parceria no codireção com o Octávio Camargo.
A “Ilíada em Libras – Canto I” nasceu do desejo de investigar como uma obra considerada fundadora da tradição ocidental poderia ser recriada a partir da visualidade e da poética da Libras. Não se tratava apenas de traduzir um texto, mas de construir uma dramaturgia que tivesse a língua de sinais como centro da criação. A parceria na codireção surgiu justamente desse entendimento de que o espetáculo precisava reunir diferentes olhares.
A codireção permitiu um diálogo permanente entre pesquisa teatral, dramaturgia, cultura clássica e cultura surda. Também não era um grupo que estava começando do zero. Muitos de nós já havíamos trabalhado juntos em outras criações, como “Os 50tões”, “Surdo Logo Existo” e “Das Paredes”. Essas experiências anteriores construíram uma confiança artística muito importante para chegarmos à “Ilíada” – um processo longo, de muita pesquisa, ensaio e escuta entre todos os envolvidos. Acredito que isso aparece no resultado final.
Você acompanhou a temporada de estreia do espetáculo em Curitiba. Como foi esse momento para você, para o público surdo e os ouvintes?A estreia foi muito emocionante. Tivemos todas as sessões lotadas durante duas semanas, em 2023, no Teatro Novelas Curitibanas - Claudete Pereira Jorge, e a presença majoritária do público surdo foi algo muito significativo.
Durante muito tempo, pessoas surdas estiveram acostumadas a assistir espetáculos mediados por tradução. Na “Ilíada em Libras”, a experiência era diferente: a Libras ocupava o centro da cena. Isso produz uma identificação muito forte.
Ao mesmo tempo, foi bonito perceber a recepção do público ouvinte, que se abriu para experimentar outra forma de narrar, outra temporalidade e outra estética. O espetáculo convida todos a enxergar que a Libras não é apenas um recurso de acessibilidade, mas uma língua artística com enorme potência poética.
O Jonatas, o ator que está em cena na peça “Ilíada em Libras – Canto I”, é um grande intérprete de Libras (no sentido que comumente chamam de tradutor) e um artista absurdo. A força e a presença dele em palco, somadas com a expressividade, praticamente hipnotizam as plateias. Como é sua parceria com ele na arte, como intérpretes de Libras e na luta pelos direitos da comunidade surda?
Minha parceria com o Jonatas já atravessa muitos anos. Nos conhecemos por meio do teatro e, desde as primeiras experiências de criação, construímos uma relação baseada na confiança, no respeito e no compromisso com a arte produzida por pessoas surdas. Ao longo dessa trajetória, desenvolvemos diversos projetos juntos, cada trabalho fortaleceu nossa sintonia artística e ampliou nossas pesquisas sobre teatro, Libras e cultura surda.
O Jonatas possui uma sensibilidade artística muito apurada e um profundo conhecimento da Libras, da tradução e da performance. Na “Ilíada”, essa experiência se revela na forma como ele constrói a narrativa em cena, transformando a língua de sinais em uma linguagem poética e visual de grande impacto.
Compartilhamos o compromisso de fortalecer o protagonismo da comunidade surda, ampliar os espaços para artistas surdos e contribuir para que a Libras seja reconhecida não apenas como língua de comunicação, mas também como uma potente linguagem de criação artística. Acredito que é essa sintonia de propósitos que mantém nossa parceria viva e em constante construção.
Por onde o Ilíada em Libras – Canto I já circulou? Qual a importância para a comunidade surda do espetáculo entrar na programação de um festival internacional como o Fit São José do Rio Preto?
Depois da estreia, o espetáculo passou pela Caixa Cultural Fortaleza; integrou a Mostra Surda do Festival de Curitiba; o Festival Homero, em Curitiba; o Festival Midrash, no Rio de Janeiro; e realizou uma circulação por diversas cidades do interior do Paraná.
Agora chegar ao FIT São José do Rio Preto representa um novo passo. Trata-se de um dos festivais de teatro mais importantes do país e ocupar esse espaço tem um significado que vai além do espetáculo em si. É um reconhecimento de que a produção artística em Libras faz parte do teatro brasileiro contemporâneo e deve ocupar os mesmos espaços destinados às demais produções.
Você é uma das idealizadoras e curadoras da Mostra Surda do Festival de Curitiba. Como ela nasceu? Acha viável que logo outros festivais artísticos coloquem iniciativas especiais para a comunidade surda em suas programações? A arte gera empregos ou renda para os surdos?
A Mostra Surda nasceu da percepção de que ainda existiam poucos espaços destinados à produção artística realizada por pessoas surdas dentro dos grandes festivais brasileiros. Nossa proposta nunca foi criar um espaço isolado, mas ampliar o próprio conceito de festival, reconhecendo que a diversidade linguística e cultural também faz parte das artes cênicas.
Espero que outras iniciativas como a Mostra surjam em diferentes regiões do país. Quanto mais festivais incorporarem artistas surdos em suas programações, mais oportunidades serão criadas para novos profissionais, novas pesquisas e novos públicos.
A arte também é um campo de trabalho. Ela gera renda, formação, circulação e fortalece uma cadeia produtiva que precisa incluir, de forma efetiva, profissionais surdos em todas as etapas da criação.
Para fechar: O que você diria que é o principal motivo para o público ouvinte assistir à “Ilíada em Libras – Canto I” no Fit Rio Preto? E para a comunidade surda?
Para o público ouvinte, eu diria que é uma oportunidade de experimentar outra maneira de perceber o teatro. A Libras constrói imagens, ritmos e sentidos que ampliam nossa compreensão sobre o que pode ser uma narrativa cênica.
Para a comunidade surda, acredito que o espetáculo representa reconhecimento e pertencimento. Ver uma obra clássica recriada em nossa língua, com artistas surdos ocupando o centro da criação, reafirma que a Libras também produz conhecimento, literatura, poesia e teatro.
Mais do que adaptar uma obra, estamos mostrando que a cultura surda também interpreta, recria e transforma os grandes clássicos da humanidade. Espero que cada pessoa que assista ao espetáculo saia compreendendo que a Libras não apenas traduz histórias, mas também cria novas formas de narrar, emocionar e transformar o mundo.
Ficha técnica
Direção: Octávio Camargo e Rafaela Hoebel · Ator: Jonatas Medeiros · Voz: Fernando Marés · Iluminação: Fernando Dourado · Fotografia: Gilson Camargo · Intérpretes de Libras: Viviana Rocha e Felipe Patrício · Produção: Felipe Patrício · Assistentes de produção: Chris Gomes e Viviana Rocha · Realização: Fluindo Libras e Cia Ilíada de Homero.
Sobre o grupo
Cia Ilíada de Homero e Fluindo Libras — A Cia Ilíada de Homero, criada em 1999 por Octávio Camargo e artistas paranaenses, encena os textos integrais da Ilíada e da Odisseia, já tendo se apresentado no Brasil e em Portugal, Grécia, Alemanha, Holanda e Irã. A Fluindo Libras é produtora de arte surda e sinalizada em Libras, idealizada por Jonatas Medeiros, que se dedica há mais de 10 anos à tradução de textos homéricos.
57º FIT Rio Preto
Com 57 anos de existência e 24 edições internacionais, o Festival Internacional de Teatro (FIT) de São José do Rio Preto é um dos mais tradicionais eventos de artes cênicas no Brasil. A realização é da Prefeitura de São José do Rio Preto em parceria com o Sesc São Paulo.
Nesta edição, a programação é totalmente gratuita.
Festival Internacional de Teatro de São José do Rio Preto – Fit Rio Preto 2026
De 16 a 25 de julho, em São José do Rio Preto (SP)
Realização: Prefeitura Municipal de São José do Rio Preto, por meio da Secretaria Municipal de Cultura, e Sesc São Paulo
Apoio: Conselho Municipal de Políticas Culturais
Parceria: Sesi São Paulo e Senac
Programação totalmente gratuita.
Outras informações: fitriopreto.com.br.
A repórter viajou a convite do festival.