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Radicada em Curitiba vence o maior prêmio de ilustração botânica do mundo

Ganhadora do Prêmio Jill Smythies de 2026, o “Oscar” da ilustração em ciências naturais, Diana Carneiro destaca a importância de multiplicar o conhecimento

Radicada em Curitiba vence o maior prêmio de ilustração botânica do mundo
Diana Carneiro, vencedora do Jill Smythis Award. Imagem: Divulgação

Texto de Marya Marcondes, aluna de Jornalismo da UFPR
Sob orientação de Rogerio Galindo

O traço minucioso capaz de eternizar espécies botânicas levou a artista plástica e ilustradora botânica Diana Carneiro àquele que é considerado por muitos como o “Oscar” da ilustração em ciências naturais. Nascida na Bahia e radicada em Curitiba desde 1966, Diana foi anunciada como a vencedora do cobiçado Jill Smythies Award de 2026, concedido pela histórica Linnean Society of London. A premiação será entregue dia 21 de maio, em Londres, e coroa um portfólio de cerca de 400 pranchas botânicas — ilustrações científicas detalhadas focadas em representar as características, morfologia e informações relevantes de uma determinada espécie vegetal — elaboradas pela ilustradora.

"Existem vários certames no mundo para a área de ilustração botânica, mas alguns são mais abrangentes", explica Diana, egressa do curso de Ciências Biológicas da Universidade Federal do Paraná (UFPR). "Este, especificamente, considera os ilustradores que fazem uma contribuição efetiva para a ciência botânica", detalha a artista, lembrando que a instituição britânica arquiva trabalhos de gigantes das ciências naturais, como Charles Darwin. A votação funciona pela indicação de pares, ou seja, centenas de ilustradores são consultados pelo mundo todo. A conquista também faz parte de um marco importante para o país: Diana é a segunda brasileira a receber a honraria, sucedendo a conterrânea Maria Alice de Rezende  que venceu pela primeira vez em 2024.

A premiação 

O prêmio recebido por Diana Carneiro é o prestigiado Jill Smythies Award, concedido pela histórica Linnean Society of London, uma das mais antigas instituições do mundo dedicadas às ciências naturais. Estabelecida em 1988, durante as comemorações do bicentenário da organização, a honraria foi criada em memória da artista botânica Florence May (Jill) Smythies, cuja carreira foi interrompida por um acidente. 

O prêmio tem como objetivo reconhecer profissionais que fazem contribuições excepcionais para a botânica por meio de ilustrações diagnósticas publicadas, ferramentas que são fundamentais para auxiliar na identificação de plantas e dar visibilidade às descobertas da ciência. Além de consagrar o ilustrador por documentar a maravilha e a beleza do mundo natural, a premiação concede uma medalha gravada com o nome do vencedor e um valor em dinheiro de 1.000 libras, sendo entregue anualmente durante a Reunião de Aniversário da Sociedade, que em 2026 ocorrerá no dia 21 de maio, em Londres.

Herança de família: o olhar cuidadoso

Além de a ilustração científica exigir precisão técnica, Diana credita a base do seu olhar minucioso à sua mãe. A ilustradora recorda que ela era costureira e bordadeira, e costumava reproduzir formas botânicas com perfeição em seus bordados, fugindo das cores óbvias e buscando os matizes reais das flores. Quando Diana, ainda jovem, tentava desenhar flores perfeitamente retas, a mãe trazia a lição de realidade. "Ela olhava e não elogiava. E dizia: 'É a tua flor, filha, mas ela não é assim da natureza. A flor cai, a flor murcha, o vento bate, ela balança, tem flor por várias posições, ela não fica reta'", relembra a artista.

Esse olhar atento às nuances do mundo natural não parou nela. "Parece que existe uma certa corrente pedagógica familiar", reflete Diana. Ao discutir critérios estéticos de luz, composição e equilíbrio de massas enquanto trabalhava, ela inspirou um filho que se encontrou na fotografia. "As linhas falam, a linha se expressa", ensinava ao filho. Já o outro filho herdou o dom da expressão artística de outra maneira, através da poesia e da música. O gosto pela botânica também foi passado ao terceiro filho, que se tornou biólogo. "Isso tudo passa, com certeza", afirma.

A ciência fora da gaveta

Para Diana, usar nanquim ou aquarela na Biologia vai muito além de pintar quadros bonitos com apelo puramente decorativo. Como ela mesma define, "trabalhar para ciência é outra história." Diferente da aquarela artística, a ilustração científica tem um papel revelador. "A ciência fica muito restrita ao texto e ela não aparece. Ela fica circulando entre os pares, sabe? Se ela não passa para o universo gráfico que qualquer pessoa pode contemplar", argumenta.

Muito antes de dedicar-se exclusivamente à ilustração, Diana foi professora de Ciências e Biologia na rede estadual por 25 anos. Essa vocação para o ensino moldou seu desejo de democratizar o acesso à técnica. Em 1997, ao ganhar uma bolsa da Fundação Margaret Mee, ela foi estudar nos Jardins Botânicos Reais de Kew, na Inglaterra. Inspirada pela própria Margaret Mee a não deixar seus desenhos engavetados, Diana entendeu como sua missão "pegar o conhecimento do fazer, do ilustrar e divulgar esse conhecimento, passar adiante. Porque a nossa vida é muito curta, passageira, e você tem que formar gente para continuar". Hoje, ela se diz muito contente de encontrar entre os pares as crianças para as quais lecionou ainda no fundamental. 

Foi assim que ajudou a fundar o Centro de Ilustração Botânica do Paraná (CIBP) em 2000. Mais tarde, lançou o livro "Ilustração Botânica: Princípios e Métodos" pela Editora da UFPR. A obra ganhou recentemente uma segunda edição, e Diana se orgulha de não ter precisado desembolsar recursos próprios para a publicação, considerando o apoio da instituição pública um verdadeiro prêmio em sua vida.

Uma planta para chamar de sua 

Planta batizada em homenagem à ilustradora. Ilustração: Diana Carneiro. 

O troféu do Jill Smythies Award, portanto, reconhece uma revelação e multiplicação das sutilezas da flora. Uma contribuição que já havia rendido a Diana uma homenagem ainda mais perene: ter uma pequena planta da borda da Mata Atlântica batizada com o seu nome pelos cientistas. Oficialmente chamada de Miconia dianae, a espécie é o símbolo vivo de sua dedicação. "Eu tenho uma plantinha da flora da Mata Atlântica pra chamar de minha!", celebra, sorridente. 

Marya Marcondes

Marya Marcondes

Estagiária do Jornal Plural. Estudante de Jornalismo da UFPR. Palmeirense e colecionadora de hobbies.

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Tags: cultura

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