Pular para o conteúdo

Entenda o caso: Obras de Ana Lúcia Canetti são roubadas da Bienal de Arquitetura de São Paulo

Peças em cerâmica criadas com cinzas de queimadas do Cerrado sumiram durante a desmontagem da 14ª edição do evento 

Obras de Ana Lúcia Canetti são roubadas da Bienal de Arquitetura de São Paulo
As três peças são as mais representativas de um conjunto com 20 itens, segundo Ana Lúcia Canetti. (Foto de: Fotos: Mariana Alves/Reprodução do site da artista.)
Publicado:

Nem apenas museus famosíssimos, como o francês Louvre, sofrem com roubos (ou furtos qualificados) de peças de arte. Três obras da artista Ana Lúcia Canetti sumiram na desmontagem da 14ª Bienal Internacional de Arquitetura de São Paulo (BIAsp), que aconteceu de 18 setembro a 19 de outubro de 2025. A exposição temporária foi no Pavilhão Lucas Nogueira Garcez, mais conhecido como Oca, no Parque Ibirapuera; o espaço é administrado pela Urbia Parques, em sistema de concessão.

Desaparecimento das obras de arte

Os três objetos desaparecidos são da série “Semear cinzas”, composta por peças em cerâmica - resultado de uma ação com pessoas lançando resquícios do Cerrado em uma área de monocultura de pinus na cidade de Brasília/DF. Os vestígios de incêndios foram usados na produção do esmalte, como uma das matérias-primas das esferas, e – como restos mortais de um bioma – as cinzas também estavam guardadas dentro dessas urnas funerárias. O conjunto é parte da tese de doutorado em artes visuais de Ana Lúcia, “Poéticas em terras queimadas”, defendida com acervo incompleto nesta segunda-feira (8), na Universidade de Brasília (UnB).

“Havia 20 peças na ação, as três que eu considerava mais significativas para representarem o trabalho, cada uma feita com uma técnica diferente, estavam expostas na Bienal”, explica a ceramista. Os itens entraram na exposição por convite feito diretamente à artista por uma das curadoras da BIAsp e foram expostos na “Lab Vivo”, parte da mostra com acervo de propostas sobre o tema de materialidades sustentáveis em que também foram realizadas oficinas de biomateriais. 

Assista ao registro de ações da artista.

Segundo a autora, a suspeita é que os trabalhos foram furtados na etapa de desmontagem do evento, que aconteceu no dia 20 de novembro. Havia segurança e controle de entrada no espaço, mas não câmeras de segurança. Ela registrou boletim de ocorrência e também enviou notificação extrajudicial para o Instituto de Arquitetos do Brasil São Paulo (IABsp), realizador do projeto da Bienal aprovado na Lei Rouanet (Nº do Pronac 247542) como parte do plano plurianual da instituição, que captou pouco mais de R$ 1,1 milhão para a produção da exposição e ainda atividades paralelas. 

Quanto vale uma peça de arte

Conforme confirmado por Ana Lúcia, o tríptico foi avaliado por um especialista da área em R$ 6 mil. Contudo, a perda de uma obra de arte envolve também valores imateriais. “As peças são irrepetíveis, pois o processo de queima utilizado, pela técnica raku ou de esmaltação com cinzas, é sempre único já que o fogo ou as cinzas agem sem o controle total do ceramista. Além disso, pretendia fazer uma exposição individual após a defesa da tese com todas as peças que compunham o trabalho”, diz ela.

Frustração

Todos os trabalhos que integram a tese da artista já estiveram em exibição, ao longo de quatro anos foram 12 exposições e ainda seis artigos publicados sobre os processos de criação. Ana Lúcia também foi finalista de todas as premiações de artesanato que participou em Brasília de 2022 a 2025. Entretanto, a seleção de suas obras na Bienal de Arquitetura, que surgiu como uma possibilidade importante para sua trajetória, terminou como uma grande frustração. “Não imaginava. Foi minha primeira exposição em um evento internacional desta magnitude e com tanta visibilidade.”

Paradeiro das obras

Até o momento, não há informações sobre o paradeiro das peças. Na última quinta-feira (5), a organização da Bienal oficializou uma proposta de acordo amigável para ressarcir o valor dos trabalhos para a artista. 

Ana Lúcia Canetti

Além de doutoranda da UnB, a artista é licenciada em Artes Visuais pela Faculdade de Artes do Paraná (Unespar), mestre em Psicologia pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e psicóloga formada pela Universidade Federal do Paraná (UFPR).

Respostas

O Plural entrou em contato com a assessoria de comunicação do IABsp, que afirmou que responderia às perguntas. Não houve retorno até a publicação desta reportagem. O espaço está aberto para pronunciamentos.

.

Luciana Nogueira Melo

Luciana Nogueira Melo

Jornalista apaixonada por cultura, moda e turismo. Cursou publicidade, letras, um pedaço de artes cênicas e outro de produção cênica. Já trabalhou com publicidade, produção, como locutora e na TV.

Todos os artigos

Mais em cultura

Ver todos

Mais de Luciana Nogueira Melo

Ver todos

De nossos parceiros