“Nó” entrou em cartaz nas salas de projeção após voltar do Festival de Cinema de Gramado com três troféus, Melhor Direção, para Laís Melo; Melhor Fotografia, para Renata Corrêa; e o Prêmio do Júri da Crítica. Voltou porque, se você ainda não sabe, é um filme curitibano, mas não qualquer um: ele fez por merecer seus Kikitos. O longa-metragem é um olhar de mulheres para mulheres, com roteiro assinado pela diretora em parceria com Patrícia Saravy, que também interpreta o papel principal, em uma produção com equipe majoritariamente feminina.
Saravy conseguiu equilibrar força e nuances para dar vida à Glória. E quem acompanha a artista sabe que sua carreira no audiovisual está numa ótima fase. A boa surpresa é a qualidade de quase todo o elenco, com destaque para a entrega brilhante de Fernanda Silva no papel de Magali, a melhor amiga da protagonista. A sintonia da dupla é responsável por boa parte das emoções que “Nó” desperta no público. Vale lembrar que o filme foi a última atuação no cinema de Simon Magalhães (em memória).
O enredo conta a história de Glória. Recém separada, ela se muda com as três filhas (atrizes Sali Cimi, Antonia Saravy e Clarice Carvalho) em busca de um recomeço, mas se vê obrigada a disputar uma promoção no trabalho com sua melhor amiga Magali e alguns colegas. Contrariando qualquer suspeita de trama simplista, “Nó” mostra o quanto de força é preciso para o afeto feminino não esgarçar até romper. E muito disso não é dito explicitamente no filme, é apenas revelado para quem é atento e sensível.
Silêncio e conflitos
Nas sequências, o silêncio funciona como um amplificador da tensão, até dá para dizer mais, ele é um personagem complexo no roteiro. É o silêncio que dá dimensão ao relacionamento tóxico do ex-companheiro com Glória e mostra o quanto o machismo estrutural ainda oprime as mulheres. Não há diálogo, o homem não dá chance para que a voz dela seja ouvida, nem mesmo quando foi ele quem provocou um encontro judicial.
Ainda no núcleo familiar, a protagonista não pode compartilhar tudo, falar tudo. Ali, há o silêncio de uma mãe carregando nas costas um mundo de angústias e responsabilidades, de uma mulher que luta por suas filhas enquanto tenta não calar sua própria identidade, algo percebido pelas meninas, contudo, não decifrado.
O silêncio também se impõe entre as amigas, colocando em risco os laços de afeto. Ele surge aos poucos, conforme a trama deixa Glória sem saída, ensimesmada enquanto caminha para longe do acolhimento, deixando para trás um dos princípios do feminismo contemporâneo: a sororidade.
E ainda há algo que abafa a voz de todos, porém silencia de maneira mais violenta o mundo feminino e materno. A sobrevivência na base da pirâmide do capitalismo tira a palavra de quem precisa do emprego e tem poucas possibilidades de trabalho. Aqui existe outro ponto alto da produção, a fábrica de guloseimas Pipoteca. Quem é de fora de Curitiba, não deve entender a conversa do cenário com a cidade e, na verdade, isso não importa. O interessante são as imagens e os ruídos de maquinário, batidas metálicas, esteiras e empacotamentos soando brutos e desumanos – em um volume ensurdecedor, fragmentando ou impedindo conversas. Esse universo hostil é um contraponto às mulheres cis e trans que trabalham ali. Com suas delicadezas e individualidades, elas são trabalhadoras braçais de uma indústria e estão longe dos papéis estereotipados, como os de profissionais da beleza ou do sexo.
Fé e sexo
Este não é o primeiro filme a mostrar como o patriarcado tira a voz das mulheres em diferentes contextos sociais, nem o precursor entre os que estampam na tela o quanto é fundamental tirar o nó da garganta, que impede a derrubada de tabus e o avanço rumo à igualdade. Entretanto, a religiosidade retratada no longa é frequentemente invisibilizada em Curitiba e absolutamente perfeita para a personagem Glória. A fé dessa mãe trabalhadora é a Umbanda, escolha que não tem nada de acaso, já que a doutrina prega igualdade e equilíbrio entre o feminino e o masculino, ao contrário das tradições cristãs que subjugam as mulheres.
Não é só isso. A personagem central do enredo batalha pela autonomia em todos os aspectos da vida, o que inclui a sexualidade. E a Umbanda vê a relação sexual como parte natural da vida, longe de normas morais severas, o sexo está então ligado à liberdade individual; as relações homoafetivas, as experiências a três e a masturbação também não são taxados de pecado embalado em culpa. No caminho até a emancipação, Glória nos revela isso quase explicitamente – em um momento forte e provocador –, contudo o tema perde a potência em outra cena. Ainda assim, o prejuízo para o filme não foi grande.
Sessões do filme "Nó" em Curitiba
1h31
Ficção
Até quarta-feira, 28 de outubro, às 20h, no Cine Passeio (Rua Riachuelo, 410 - Centro). Entradas à venda a partir de R$ 10,00 (meia-entrada) mais taxa de serviço R$ 2,80) no site Ingresso.com e na bilheteria do Cinema. Outras informações no site do cinema.
Elenco principal
Saravy - Glória
Fernanda Silva - Magali
Sali Cimi - Sabrina
Antonia Saravy - Mitaí
Clarice Carvalho - Thayná
Ficha técnica
Direção: Laís Melo
1ª Assistência de Direção: Hugo Lobo Mejía
2ª Assistência de Direção: Sammy Carvalho
3ª Assistência de Direção: Flora Suzuki
Continuísta: Felipe Aufiero
Roteiro: Laís Melo e Saravy
Produção de Elenco: Camila Cardoso
Preparação de Elenco: Jaciara'Rocha
Produção: Antonio Gonçalves Junior e Diogo Capriotti
Produção Associada: Amanda Soprani e Fernando de Macedo
Produção Executiva: Andrei Bueno Carvalho e Raiane Rodrigues
Assistência de Produção Executiva: Fabiana Pimentel e Leticia Martins
Direção de Produção: Vanessa Vieira
Produção de Locação: Bruno Costa
Platô: Djerold Luiz
1ª Assistência de Produção: Kenia de Souza
2ª Assistência de Produção: Laremi Paixão
Assistência de Produção: Victoria Spitzner
Estágio de Produção: Giovanna Heroso, Gio Knaut e Leonardo Vieira Mendonça
Designer: Milena Fransolino
Direção de Fotografia: Renata Corrêa
1ª Assistência de Câmera: Mariana Boaventura
2ª Assistência de Câmera: Nica Chaves
Video Assist: Pretícia Jerônimo
Video Assist Extra: Jaq Kogus
GMA: Acir Cavalheiro
Estágio de GMA: Dan Oliveira
Fotografia Still: Isabella Lanave
Gaffer: Ivanir Pereira
Gaffer Extra: Odair da Silva (Salim)
Chefe de Maquinária: Sandro Lobo
Assistência de Elétrica e Maquinária: Lucri Reggiani
Assistência de Elétrica e Maquinária Extra: Gustavo Salviano e Ma Lobo
Operador de Steadycam: Patrick Miyaoka
Técnico de Som Direto: Tulio Borges
Microfonista: Morcego
Assistência de Som: Kamilly Smith
Direção de Arte: Bea Gerolin
1ª Assistência de Arte: Larissa Monteiro
Produção de Arte: Ana Vitória Tahan
Secretária de Arte: Maria Veloso
Estágio de Arte e Projetista 3D: Marina Barancelli
Produção de Objetos: Tati Machnicki
Assistência de Produção de Objetos: Anna Reikdal e Mônica Przebeowicz
Contrarregra: Boy
Restaurador de Obra de Arte: Daniel Dach
Figurinista: Fer Bueno e Thayna Batista
Estágio Figurino: A Guerra
Costureira: Naty Lopes
Caracterização: Kenia Coqueiro
Assistência de Caracterização: Dayune Coqueiro
Maquiagem de Efeitos Práticos: Carol Suss e Kenia Coqueiro
Supervisão Musical: Gustavo Montenegro
Desenho de Som: Tulio Borges
Mixagem: Luiz Lepchack
Edição de Diálogo: Vinicius Contiero
Edição de Efeitos Sonoros: Tulio Borges
Gravação e Edição de Foley: Kamilly Smith
Foley Artist: Tulio Borges
Edição de Foley: Vinícius Doca
Montagem: Dan Oliveira e Tomás Osten
Cartelas e Créditos: Milena Fransolino
Acessibilidade: ETC Filmes
Legendagem e Tradução Inglês: Paulo Scarpa
Master e Deliveries: Onda Finalização
Colorista: Lucas Kosinski
VFX e Composição: Equipe Bruxos do VFX
Supervisão de VFX no set: Claudio Bitencourt Avila
Coordenação de VFX: Thamires S. Trindade (sheseagle)
Artista de VFX: Nyck Maftum