O Fringe, do Festival de Curitiba, apresenta neste ano uma mostra exclusiva do Cemitério de Automóveis. A programação comemora o aniversário de 43 anos do grupo de teatro com quatro peças de teatro até este domingo (6) e um show da banda Saco de Ratos em apresentação única na noite de sábado (5). Talvez uns mais novinhos não saibam do que se trata, mas quem frequentava teatros, points da contracultura, ou qualquer inferninho underground no início dos anos 90 deve ter arregalado os olhos com a notícia de que o fundador da companhia de teatro, Mário Bortolotto, está por aqui.
O escritor, ator, diretor, dramaturgo e músico – ou melhor, roqueiro – nasceu em Londrina-PR, morou um curto período em Curitiba, foi para São Paulo no ano de 1996 e por lá ficou. Aos 62 anos de idade, Bortolotto já escreveu mais de 60 peças de teatro e, além de vencer os perrengues diários para manter um teatro próprio, saiu vitorioso em prêmios, como o APCA e o Shell.
Ele, um genuíno beatnik à brasileira, contou ao Plural que seu teatro é alternativo, para poucos, e sem concessões. Também falou sobre como encara a crítica hoje em dia e da associação de seu trabalho com o de Plínio Marcos. O artista, que diz só ter ganhado fama quando escapou de três tiros no peito para voltar aos palcos com status de personagem da vida real, ainda explicou que não se acovarda pelo risco de ‘cancelamento' – é de esquerda, porém jamais será 'woke'.
Para completar a entrevista, Bortolotto trocou ideias sobre literatura, cinema, histórias em quadrinhos e música. Ou seja, entrou no papo o cardápio completo, com tudo o que o teatro dele bebe, e deu tempo de falar de blues, rock e descobrir que restam poucos ingressos à venda para o show da Saco de Ratos (fica a dica). Confira a seguir.
O que você está lendo?
É tanta coisa ao mesmo tempo, caramba. Eu estou lendo muito Don Winslow, que é um americano, autor de policial, eu gosto muito de literatura policial; e também Denis Johnson. Quando eu pego um autor, eu leio tudo dele, geralmente faço isso.
É obsessivo?
É. Enquanto eu não esgotar tudo o que tem dele, não passo para o outro autor, quer dizer, passo sim, porque vou lendo sempre aqueles que já li a vida inteira, vou ler sempre e vou reler. Mas, quando descubro um escritor novo que me interessa, geralmente vou atrás de tudo dele. Destes dois caras, Don Winslow e do Denis Johnson, eu comprei tudo. Denis Johnson morreu há pouco tempo, infelizmente.
Da Ana Paula Maia, uma autora brasileira, eu comprei três livros, não, quatro livros dela, e já li os quatro. Até tem uma série dela que a Rede Globo fez, esqueci o nome, a Cássia Kiss é a atriz principal, meio uma bruxa e tal. A série ["Desalma"] é boa, mas teve duas temporadas só, uma pena. Era tão boa que não deu certo. As porcarias ficam, a p* da "Beleza Fatal " faz sucesso. Não entendo nada, meu. Como é ruim aquilo, eu tentei ver dois minutos, não vale a pena.
Quem são, no mínimo três, escritores que você fica relendo?
Charles Bukowski, Jack Kerouac, e outro cara que eu gosto muito, que eu releio muito, Hunter Thompson.
O que você anda vendo?
Cara, eu assisto tanta coisa e também tenho essa coisa, essa obsessão com roteiristas que me interessam. Do Taylor Sheridan, que é autor de séries, eu vi todas. Pô, ele fez “Yellowstone”, que é famosa e eu não gosto muito, gosto do roteiro, acho legal, mas é aquela coisa de cowboy e esse mundo não me interessa; é muito boi, muita vaca, muito cara com chapéu na cabeça, não tenho paciência com esse tipo de tema. E tem uma série dele que é fora desse universo "pecuário", “Mayor of Kingstown”, que é muito boa; “Lioness [Operação: Lioness] também é dele e também é muito boa. Esse cara me interessa muito, o Taylor Sheridan.
O que mais eu estou vendo? Pois é, eu vi o “Adolescência”, que é muito badalado. Gostei da série, achei bacana e fui ver a outra série desse mesmo autor, Jack Thorne, “Cidade Tóxica”, que é bem legal também. É sobre um grupo de mães, com filhos que nascem deformados porque uma empresa que está f* o ar da cidade, jogando material químico. Aí, as mães cheiram aquele ar e as crianças nascem deformadas. É a história real da luta dessas mães para conseguirem justiça. É bem bacana. Eu tenho essa coisa de ir atrás de roteiro também.
Você escolhe o que assistir pelo roteiro?
Principalmente. Às vezes é pelo ator, pela atriz, mas geralmente pelo roteiro sim, mesmo quando tem um ator que eu gosto, se o roteiro é ruim eu nem me interesso. Vou ver isso para quê? Vou 'pegar bode do ator ' e ele nem tem culpa, coitado.
E nos quadrinhos?
Nos quadrinhos eu indicaria “Preacher", do Garth Ennis, tudo que sair dele é interessante. Warren Ellis também, tudo dele é interessante. O que mais eu gosto muito? Acabei de acordar, daqui a pouco lembro o nome de todos. [Risos]
E tem os antigos, como o Will Eisner. Aliás, a montagem “New York", que o Edson Bueno fez aqui nos anos 90, foi muito legal. O Edson até pagou a passagem para eu vir assistir a peça de teatro, era demais.
Esses são os que você anda folheando?
Não. Esses caras eu sempre olho, tudo o que sai deles eu olho. E tem outros caras, o Jason Aaron, que fez “Escalpo”, é muito legal; e tem os argentinos, os espanhóis, como o Abulí. Eu tenho tanto quadrinho, tenho muito em casa, um guarda-roupa cheio.
Tem ido ao teatro?
Eu quase não tenho tempo de ver teatro lá em São Paulo, porque eu faço muito e não me sobra tempo para ver teatro. Estou com muita vontade de ver "Dois Papas”, com o Zécarlos Machado e o Celso Frateschi, e sempre tem coisa que me interessa para assistir.
O que eu vi recentemente que gostei, caramba? Não consigo lembrar agora, acho que nada foi muito marcante.
Como anda a sua relação com a crítica?
Cara, eu nunca me importo muito com a crítica. Eu me importava mais quando era jovem, tanto que fomos expulsos de vários festivais, porque a gente brigava com o júri e o c*. E hoje, não. Quando fala bem, guardo e coloco no book para vender a peça. [Risos] Crítica positiva é bom, agora, quando a crítica é negativa, você ignora. Vai perder o sono por causa disso? É a opinião de um cara que não gostou do seu trabalho, é só isso.
Você apresenta a peça para 200 pessoas, 150 gostam e 50 não vão gostar. Você vai ficar bravo com as 50 pessoas que não gostaram do seu trabalho? Pô, eu não sou autor de novela fica preocupado com ibope. Eu lembro de um que falou um negócio tão absurdo: "No horário da minha novela, eu passo num bar e tem um monte de gente que não está vendo, eles estão ali, conversando, ao invés de estar vendo a minha novela.” Olha a prepotência desse cara, o ego dele.
Eu não consigo achar que as pessoas têm que se interessar pelo que eu faço, algumas vão gostar e essas pessoas são meus interlocutores, com quem eu vou até curtir tomar uma cerveja depois da peça, etc. E quem não gostar tem o direito de não gostar. Hoje em dia, eu não me incomodo tanto com a crítica.
Você não dá poder à crítica para influenciar o teu trabalho?
Não, nunca. Isso eu nunca dei, só que antes eu ficava bravo e brigava, agora não brigo mais. A diferença é essa, a velhice traz isso.
O politicamente correto está muito forte no teatro. Você acha que ainda há espaço para o seu teatro?
O meu teatro tem sempre esse lugar que eu falei, é o lugar alternativo, cara. Eu faço teatro alternativo, faço teatro para poucas pessoas. O teatro da gente tem 50 lugares, então, mesmo quando lota, são só 50 pessoas.
E eu nunca ambicionei ter um lugar muito grande, fazer teatro para muitas pessoas; para mim, tá tudo certo, justamente por isso, eu posso falar o que eu quiser. Agora, eu corro o risco de ser cancelado o tempo todo. Mas, pô, é um risco que eu tenho que correr. Eu não vou me acovardar.
Ou só falar de determinadas questões?
Exatamente. Eu tenho que colocar, por exemplo, um personagem trans na minha peça, um negro, para conseguir patrocínio, para conseguir ser aprovado nos editais. Então, prefiro não ser aprovado. Agora, pô, se o personagem for trans, aí é ótimo, se for negro, japonês, amarelo, é ótimo... Caramba, eu quero mesmo trabalhar todo mundo, eu não tenho preconceito. O que eu não posso é ser obrigado a fazer isso para conseguir ganhar um edital. Não vou fazer isso, não adianta. Vou ficar trabalhando para dez pessoas mesmo, só que vou fazer o que eu gosto.
No passado, você não associou o seu trabalho ao de Plínio Marcos, mas muita gente sim. Hoje, com a maturidade profissional, você diria que o seu teatro é político e/ou marginal?
Eu acho que a associação é natural. Nunca tinha aparecido uma voz como a do Plínio, falando de personagens marginalizados, esses que andam do outro lado da calçada, etc. O primeiro cara que apareceu falando disso, depois de tanto tempo, fui eu. O Guzik, finado Alberto Guzik, falava um negócio engraçado: "Os personagens do Mário são os personagens do Plínio Marcos que foram para a faculdade".
O meu teatro continua sendo marginal. Político? Tudo o que a gente faz é político, é um clichê falar isso, mas é, p*. Sempre quando eu falo alguma coisa contundente – como eu disse, não faço para agradar ninguém – estou sendo político. Eu posso falar de uma dona de casa que está sofrendo na mão do marido, que bate nela, ou falar dela batendo no marido, isso é teatro político também, eu não preciso falar sobre partidos políticos. Eu sou naturalmente de esquerda, mas não vou apoiar nenhum candidato político, jamais. “Votem no PT, ou votem em não sei quem", jamais vou fazer isso, sacou?! Eu sou de esquerda, até porque me identifico com as causas, mas também não sou 'woke'. Todo 'woke' é de esquerda, mas nem todo cara de esquerda é 'woke'. Eu não sou, não quero ser identificado com essa cultura, de jeito nenhum. Tenho um problema sério com a cultura 'woke' e esses cancelamentos. Vai cancelar Monteiro Lobato?! Que absurdo isso, bicho, eu não consigo entender.
Com tanto tempo de estrada, você ainda tem tesão pelo teatro? De onde vem o tesão?
É o que eu gosto de fazer. A vida inteira, eu sempre soube o que queria, desde garoto. Eu não sou um cara assim: “Ai, fui fazer economia, e me frustrei na economia, fui lá fazer administração de empresas, me frustrei. Ai, nossa, um dia vi um grupo de teatro e… olha, talvez eu goste de fazer.” Não! Eu sabia o que queria, desde pivete. Nunca tive esse problema.
Tem épocas em que estou meio puto com o teatro, aí eu vou escrever. Eu escrevo um romance, vou tocar rock and roll com a minha banda; o universo é o mesmo, vou me divertir, então tá tudo certo. Tem dias que eu falo “tá chato pra c* fazer teatro”, dali a pouco eu falo “pô, saudade de fazer teatro”. Então vou lá, faço uma peça. Não chega a me cansar.
Você não se considera consagrado. Então, faz teatro pelo prazer e não pela fama?
Fama? Nunca, pelo amor de Deus. Nunca tive o menor interesse em fama, o que ela traz de bacana é que as pessoas vão querer ver tuas peças. Essa é a terceira vez que eu venho para o Festival de Curitiba, no Fringe. Na mostra principal, eu vim só uma vez, foi com "Música para ninar dinossauros". E vim porque eu estava famoso, eu já tinha levado os três tiros. [risos]
Lotou a p* do teatro, mas era porque os caras queriam ver o cara que levou três tiros e estava em pé, ali, fazendo teatro. Não é pelo meu trabalho, na verdade, eu sou um cara bem tranquilo em relação a isso. Eu nunca fui famoso, não. A única vez que eu fui famoso foi porque eu levei os tiros, mesmo assim. Acho que foi a única vez que eu apareci, sei lá, no Jornal Nacional.
Das peças que você trouxe para a Mostra dos 43 anos da Companhia, qual você indicaria para quem não conhece o seu trabalho?
Olha, das quatro que eu trouxe, três têm uma linguagem mais convencional. São histórias que se passam em um ambiente só, com três atores no caso de “Deve Ser do Caralho o Carnaval em Bonifácio” e dois atores nas outras, “Whisky e Hambúrguer” e “Efeito Urtigão”. São histórias de teatro bem naturalista, que eu adoro fazer; bota dois atores em cena, com o texto decorado e marcado, mais uma cadeira, e é teatro.
Agora, a “Notícias de Naufrágios”, última peça que escrevi, tem uma linguagem diferente, ela é mais poética, mais densa, um pouco mais cifrada. Ela é toda toda marcada com iluminação, não tem cenário. Ela é um pouco mais estranha, nesse sentido. As pessoas devem assistir à "Notícias de Naufrágios". Por favor, assista. Mas ela é diferente das outras três, totalmente diferente.
Quem quer conhecer meu trabalho, deve assistir pelo menos uma das três e "Notícias", porque são duas linguagens diferentes.
O que está ouvindo?
Não tem jeito, blues e rock and roll é o que eu ouço, e soul music. Eu gosto de música negra, então eu vou descobrindo cada vez mais coisas, músicos novos tocando blues.
E quais são as suas indicações de música boa?
Tem os medalhões, quem nunca ouviu blues tem que começar por eles: Robert Johnson, os ‘kings’ todos – B.B. King, Albert King, Freddie King –, Howlin'Wolf, esses são fundamentais para quem começa a ouvir blues. Depois tem os blues elétricos como Johnny Winter, Stevie Ray Vaughan, Jimmie Vaughan, Albert Collins; e a nova geração, com Ana Popović, Jean Lanier, Kenny Wayne Shepherd. Enfim, tem uma p* de caras novos que são interessantes também.
Você também trouxe sua banda para fazer um show na mostra. Para quem não conhece o repertório da Saco de Ratos, dá alguma referência do que os fãs da banda gostam.
Rock e Blues. Rock antigo, dos anos 70. O rock, pra mim, acabou no final dos anos 1970, dos anos 80 pra cá, não é rock and roll, já é uma coisa pop misturada.
Tá. Mas cite bandas que, quem curte, tem tudo para também gostar do seu show.
Ah, The Rolling Stones, The Faces, Lynyrd Skynyrd, Allman Brothers. Essas bandas têm a ver com a Saco de Ratos, com o tipo de música que a gente faz. Sabe os caras de blues que eu citei? Todos os caras da banda ouvem muito, uma rapaziada que também ouve rock desde pivete, os três são uns p* músicos. Na verdade, eu tô muito bem assessorado pelos caras tocando rock and roll.
Mostra de 43 anos do Grupo de Teatro Cemitério de Automóveis
- “Notícias de Naufrágios”, o texto mais recente de Bortolotto, tem uma linguagem mais experimental e menos realista se comparada a outras montagens do autor (02/04, às 21h).
- “Whisky e Hambúrguer”, que faz parte da “Trilogia da Amizade”, gira em torno de um casal de amigos que estão com suas vidas desestruturadas. Eles se encontram em uma noite e tentam entender o que aconteceu (03/04, às 21h).
- “Deve Ser do Caralho o Carnaval em Bonifácio” é a peça que mais se aproxima do universo de Plínio Marcos, com quem Mário é sempre comparado. Foi, inclusive, escrita para ser dirigida por Fauzi Arap, diretor que lançou Plínio no teatro (04/04, às 21h).
- O show da banda Saco de Ratos, da qual Mário é vocalista e compositor, revisita os quatro CDs já lançados pelo grupo (05/04, às 21h30).
- “Efeito Urtigão” gira em torno de um jornalista talentoso, mas frustrado com os rumos que o seu trabalho vinha tomando. Ele resolve se isolar e passa a viver sozinho até receber a visita de um amigo que, na verdade, tem a intenção de conseguir uma entrevista. (06/04, às 20h).
- Bortolotto também relançou dois livros durante o festival, o romance “Mamãe Não Voltou do Supermercado” e “Para os Inocentes que Ficaram em Casa", de poesia. Os livros estarão à venda nos dias dos espetáculos da mostra, mas os livros já estão em pré-venda na página da editora.
33º Festival de Curitiba
De 24/3 a 6/4 de 2025
Valores: Os ingressos vão de R$00 até R$85 (mais taxas administrativas).
Ingressos: www.festivaldecuritiba.com.br e na bilheteria física exclusiva no Shopping Mueller (Segunda a sábado, das 10h às 22h e, domingos e feriados, das 14h às 20h).