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Maikon Nery fala de "Dança dos Vagalumes", filme gravado no Assentamento Eli Vive do MST

"É, acima de tudo, um filme sobre como a memória e a imaginação podem se tornar armas políticas", explica o diretor londrinense em entrevista ao Plural

Maikon Nery fala de "Dança dos Vagalumes", filme gravado no Assentamento Eli Vive do MST
Maikon Nery com alunos do 4º ano da Escola Municipal do Campo, Trabalho e Saber, em set de "Dança dos Vagalumes". (Foto de: Gabriel Melhado/Divulgação.)
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“Dança dos Vagalumes” estreou nas salas de projeção durante o 14º Olhar de Cinema - Festival Internacional de Curitiba, como uma das nove produções selecionadas para a Mostra Mirada Paranaense. Com roteiro e direção de Maikon Nery e participação de estudantes da rede pública na equipe, o curta-metragem produzido pelo coletivo Filmes ao Vento foi gravado no Assentamento Eli Vive, do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra - MST, na Zona Rural de Londrina. 

Mesmo sem saber precisamente onde foi o set das filmagens, é fácil reconhecer uma das proezas do filme: fugir do lugar-comum para falar de reforma agrária, poder, direitos e violência. Parece muita coisa para cerca de 20 minutos de imagens, entretanto "Dança dos Vagalumes” dá conta ao trazer para a tela uma obra entre dois gêneros, um drama ficcional ambientado em um assentamento rural. Enquanto a narrativa da ficção tem até um toque de poesia, acompanhada por sacadas visuais que dão beleza para um bom número de cenas, há o contraste com a frieza e as carências do mundo ao nosso redor. O hibridismo usa essa porta de entrada, subjetiva, para dar espaço notório ao documental com imagens de arquivo das obras da cineasta curitibana Berenice Mendes. 

O enredo conta a história de Joana, que retorna ao assentamento onde passou a infância para trabalhar como professora. A volta desperta lembranças como a perda do pai, assassinado por fazendeiros em meio à luta pela terra na região. 

Maikon Nery

Nery diz que sonhou ser cineasta "desde sempre" e pretende se dedicar integralmente ao cinema em breve. Por enquanto, aos 44 anos, trabalha como designer gráfico e também é professor. Além de “Dança dos Vagalumes”, dirigiu inicialmente um experimental e depois, em parceria com Yan Sorgi, “A Grande Nuvem de Magalhães” (2023). O curta-metragem venceu como melhor filme entre as produções locais do Festival Kinoarte de Cinema (Londrina-PR), e recebeu menção honrosa do Under Our Skin – International Film Festival on Human Rights, no Quênia.

À reportagem do Plural, o diretor contou que o cinema era algo muito distante no horizonte de quem vive no interior do Paraná. Falou da parceria com Sorgi e Diogo Blanco, e também explicou por que “Dança dos Vagalumes” é “um filme sobre como a memória e a imaginação podem se tornar armas políticas”. Confira a entrevista completa a seguir. 

Quando e por que você decidiu ser cineasta?

O cinema sempre ocupou um espaço importante na minha relação com o mundo. Desde a infância, eu sempre fui fascinado por essa linguagem. Já na adolescência, desenvolvi o gosto pela leitura, pela escrita e pelo desenho, e sonhava em fazer cinema. Mas, para alguém do interior, isso sempre pareceu algo distante, quase impossível.

Durante a faculdade de Design, o cinema continuou me afetando. Meu Trabalho de Conclusão de Curso foi uma pesquisa sobre cartazes do cinema brasileiro, uma forma de juntar duas grandes paixões: as artes gráficas e o cinema.

Se a pergunta é quando senti vontade de ser cineasta, a resposta é: desde sempre. Mas quando decidi, de fato, ao menos experimentar para ver se essa paixão se concretizava, foi em 2018, quando comecei a escrever o roteiro de uma ideia que eu já carregava desde 2013.

 Como começou sua carreira no audiovisual?

Em 2018, comecei a escrever o roteiro do meu primeiro filme, que acabou sendo o segundo, porque, antes dele, realizei um filme experimental. Mas foi o primeiro com elenco e com um set estruturado de cinema. O filme se chama A Grande Nuvem de Magalhães e eu dividi a direção com um grande amigo, Yan Sorgi.

Em 2019, o projeto foi contemplado pelo edital do PROMIC (Programa Municipal de Incentivo à Cultura de Londrina), graças ao incentivo de outro amigo, Diogo Blanco.

Com a chegada da pandemia em 2020, só conseguimos filmar em 2022. O filme teve uma circulação modesta, mas conquistou o Troféu Francelino França de Melhor Filme Londrinense na 25ª edição do Festival Kinoarte de Cinema. Em 2023, também recebeu menção honrosa no Under Our Skin – International Film Festival on Human Rights, realizado no Quênia.

 Você é um produtor independente?

Sim, sou um produtor independente e faço parte de um coletivo chamado Filmes ao Vento. O grupo é formado por mim, Maikon Nery (roteirista e diretor), Diogo Blanco (roteirista, produtor e diretor) e Yan Sorgi (diretor de fotografia).

Somos um coletivo colaborativo, onde discutimos ideias, desenvolvemos projetos e realizamos produções juntos. A Filmes ao Vento nasceu do desejo de criar um espaço de troca e experimentação, voltado a um cinema autoral, com forte conexão com o território e os temas que nos atravessam.

 Qual a história do filme "Dança dos Vagalumes"?

O filme conta a história de Joana, que retorna ao assentamento onde passou a infância para trabalhar como professora. Sua volta a esse território desperta lembranças adormecidas, forçando-a a confrontar a perda do pai, assassinado por fazendeiros em meio à luta pela terra na região. Trata-se de um drama íntimo e, ao mesmo tempo, coletivo, ambientado em um assentamento rural marcado por luta e memória.

A estreia aconteceu no festival Olhar de Cinema, e agora o objetivo é ampliar sua circulação e visibilidade. Acreditamos na importância de editais voltados à distribuição e licenciamento, para que projetos como este não “morram na praia”, sem alcançar o público para o qual foram pensados.

O filme foi realizado com recursos da Lei Paulo Gustavo, reforçando a importância das políticas públicas de fomento à cultura como meio de viabilizar narrativas que, muitas vezes, permanecem à margem do circuito comercial.

 Como nasceu a ideia para o seu curta-metragem selecionado para a Mostra Mirada Paranaense?

Em 2020, durante a pandemia, um livro apareceu na minha frente: Sobrevivência dos Vaga-lumes, de Georges Didi-Huberman. A leitura me ajudou a organizar o pessimismo – não apenas pela própria pandemia, mas, como brasileiro, por viver esse trauma global sob um governo negacionista de extrema-direita.

A reflexão central do livro parte de um artigo escrito por Pier Paolo Pasolini em 1975, conhecido como o “artigo dos vaga-lumes”. Nele, Pasolini relaciona o desaparecimento dos vaga-lumes na Itália à ascensão de um novo tipo de fascismo – mais sutil, mas profundamente destrutivo – “aquele que tem por alvo os valores, as almas, as linguagens, os gestos, os corpos do povo; aquele que, sem carrascos nem execuções em massa, conduz à supressão de grandes porções da sociedade”. Para Pasolini, o fim dos vaga-lumes simbolizava o apagamento da experiência popular e a vitória de uma lógica que devora toda forma de lampejo e luz menor, aquilo que ele chamava de os “ferozes projetores”.

Didi-Huberman retoma e costura esse artigo a partir do pensamento de diversos autores, em uma reflexão potente e delicada. Para ele, uma imagem pode ser o lampejo que rompe a imobilidade da escuridão – uma luz, mesmo frágil, capaz de desviar o curso do tempo e abrir brechas para novos desejos. Em uma das passagens mais marcantes, ele provoca: “Os vaga-lumes desaparecem apenas na medida em que o espectador renuncia a segui-los. Eles somem da vista porque o espectador permanece em um lugar que não é o melhor lugar para vê-los.”

Foi nesse mesmo período que comecei a pesquisar sobre as lutas pela terra no Paraná, a origem do MST e a trajetória de lideranças camponesas da região. Dessa confluência nasceu o roteiro e o projeto do filme "Dança dos Vagalumes". Um dos materiais mais importantes no processo de pesquisa foi a dissertação de Lenir de Assis: A mística político-social dentre os militantes do MST no Assentamento Eli Vive em Londrina-PR, que me ajudou a compreender a dimensão simbólica e histórica desse espaço.

O filme é uma homenagem à luta legítima pela experiência e pela emancipação humana, e só foi possível graças ao acolhimento generoso das pessoas do assentamento e de toda a comunidade escolar – o Eli Vive um território fundamental na história da reforma agrária no Brasil.

 Quais são suas principais referências no cinema? Entre elas, alguma pode ser reconhecida no curta-metragem exibido no festival?

São muitas as referências, e é difícil apontar uma principal. Eu gosto muito do cinema latino-americano, africano e asiático. Existe algo no olhar que vem do Sul Global que me afeta muito, uma sensibilidade própria, uma forma de narrar enraizada nas contradições e luta desses territórios.

Durante a pesquisa para o filme, conheci a obra da diretora cubana Sara Gómez, em especial seu único longa-metragem, De Cierta Manera, que se tornou uma referência importante. Nesse filme, ela constrói de forma simples e potente um encontro entre ficção e realidade, elaborando um espaço híbrido que me inspirou muito, tanto pela linguagem quanto pela força política do gesto cinematográfico.

A curadoria desta edição do Olhar de Cinema adotou uma linha atenta a filmes sobre memória, resgates e diferentes registros, além de obras que levam às telas gêneros híbridos (como o documentário e a ficção). Como o seu filme se encaixa nesse recorte?

Nosso filme é um drama ambientado em um assentamento rural. Trata-se de uma história ficcional, inspirada em vivências reais e construída com elementos narrativos que dialogam com imagens de arquivo.

O trauma e a luta presentes no filme são, ao mesmo tempo, coletivos e pessoais. Joana, a protagonista, retorna ao assentamento onde cresceu, e essa volta ativa sua memória: o passado insiste, se faz presente. Palavras e sentidos brotam da paisagem e de sua prática como professora. A figura do pai, assassinado, ressurge vivo. "Dança dos Vagalumes" é, acima de tudo, um filme sobre como a memória e a imaginação podem se tornar armas políticas.

As imagens de arquivo presentes no filme são de autoria da cineasta Berenice Mendes, referência fundamental na documentação da luta no campo no Paraná. Uma das fontes é o filme Classe Roceira, obra seminal sobre o tema. Também utilizamos trechos do filme Uma Luta de Todos – o MST pelos MST, resultado de uma oficina realizada por Berenice em 2000 no assentamento Dorcelina Folador, no norte do estado.

 Além do seu curta, o que você assistiu de interessante no Olhar de Cinema?

Dos filmes da Mirada Paranaense, o que mais me tocou foi "Interior, Dia", de Paulo Abrão e Luciano Carneiro. Um olhar genuíno para o interior, com suas cores, ritmos e sons. Um filme lindo pela sutileza da narrativa e dos acontecimentos.

Assisti a alguns filmes da mostra Olhares Clássicos, e o que mais me impactou foi "Yeelen" (A Luz), do cineasta malinês Souleymane Cissé. A maneira como ele costura a narrativa com elementos mágicos e realistas é impressionante – um cinema que opera como ritual, onde natureza, corpo e memória se entrelaçam com muita força. Um filme que atravessa o corpo inteiro.

Luciana Nogueira Melo

Luciana Nogueira Melo

Jornalista apaixonada por cultura, moda e turismo. Cursou publicidade, letras, um pedaço de artes cênicas e outro de produção cênica. Já trabalhou com publicidade, produção, como locutora e na TV.

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