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Filme “Maria Callas” é lindíssimo - e imperdoável

Estrelado por Angelina Jolie, o terceiro longa-metragem sobre mulheres de grande fama dirigido por Pablo Larraín é um recorte ficcional sobre os últimos dias da prima-dona entre as primas-donas

Filme “Maria Callas” é lindíssimo - e imperdoável
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O filme "Maria Callas” é o terceiro da trilogia dirigida pelo chileno Pablo Larraín sobre mulheres mundialmente famosas, os anteriormente lançados foram “Jackie” (2016) e “Spencer” (2021). Angelina Jolie interpreta o papel principal do roteiro de Steven Knight, o mesmo que escreveu o do segundo título da série. A cinebiografia faz um recorte sobre os últimos dias de vida da soprano absoluta que, após uma carreira inigualável, perde a qualidade vocal; no período retratado, ela está com a saúde fragilizada e viciada em sedativos. 'La Divina', como também foi conhecida a cantora, teve um ataque cardíaco e morreu em 1977, aos 53 anos, em Paris (FR).

https://open.spotify.com/intl-pt/album/2TZFHghxKpd2EQz59Ldjil?si=OVo7hs5aTQq-eNKU8F-j_gTrilha sonora do filme, com árias na voz de Maria Callas (1923-1977).

A proposta de Larraín é falar da mulher Maria e não do mito 'La Callas’, para contextualizar o público de 2025, ele lança mão de flashbacks em preto e branco e imagens coloridas com granulação, enquanto o fio condutor da história é um repórter. Esses artifícios já estavam presentes em "Jackie", o melhor da série e mais próximo de “Callas”, apesar de ter outro roteirista, Noah Oppenheim. Contudo, agora não se trata de uma reportagem escrita como no enredo do primeiro longa-metragem, a premissa é uma entrevista para um filme sobre a diva. Com o metacinema, vem de carona algo dispensável, a divisão em capítulos explícita em closes de claquetes.

Belíssimo

A câmera frenética e as imagens surreais dos filmes anteriores saíram de cena. O ar é onírico e a direção de arte (de Bence Erdelyi) está magnífica, com cenas em salões de baile e hotéis glamourosos, teatros lindos e locações parisienses. A caracterização do apartamento de Callas tem sempre uma leve névoa, os móveis e objetos quase transformam os ambientes em um cenário teatral, e os figurinos estão bonitos e coerentes (diferente de "Callas Forever”, de 2002). O conjunto faz jus à elegância e beleza da prima-dona, e vem emoldurado por sua voz divina.

https://youtu.be/nHcoK0uuxIw?si=abdRgCwcIsk8X57c

Porém, quase tudo o que se vê em "Maria” são lembranças, precisas ou não, e alucinações (o próprio nome do jornalista no enredo joga por terra qualquer esperança de lucidez na personagem principal) reunidas em uma história que fala das tragédias fora dos palcos que marcaram a vida da temperamental e talentosíssima protagonista. Mas faltou muito.

A tentativa de separar ‘Maria’ do mito ‘Callas’ não é uma ideia nova nem promissora. Vira e mexe um cineasta surge tentando fazer com alguém uma proeza parecida com a de ignorar que cantora é uma única pessoa, com dramas vindos dos seus afetos, angústias, condições de saúde e trabalho. Discutir o ‘ser ou não ser’ de uma personalidade criada pelo senso comum é apostar no mais do mesmo ao invés de encontrar uma boa história.

Imperdoável

É óbvio que uma vida inteira não cabe em cerca de duas horas de imagens, entretanto isso não é desculpa para o cinema trair a biografada. O lançamento de “Diva - A Vida Oculta de Maria Callas”(2021), da autora Lyndsy Spence baseado em uma vasta e inédita correspondência entre a artista e seus amigos, esclareceu que grande parte do que se julgava 'faniquito’ era falta de competência médica, gaslighting, machismo e abusos. Nos dias de hoje – quando a personalidade do ano na capa da Times é Gisèle Pelicot, francesa que comoveu o mundo pela coragem de abrir mão do anonimato ao denunciar que sofreu estupros dentro de casa por 10 anos – não deixar bem claro esses pontos foi uma escolha equivocada do diretor e do roteirista (não acredito que falte competência a Steven Knight, pois ele é um dos autores da série Peaky Blinders).

Segundo a biografia escrita por Spence, a cantora sofria abusos verbais, psicológicos, físicos e violência sexual (sob efeitos da mataqualona) nas mãos de Aristóteles Onassis, armador que foi seu grande amor e era conhecido como “o homem mais rico do mundo". Ele, inclusive, é o provável responsável pelo vício dela no remédio. Em "Maria Callas”, Onassis é chamado de ‘bruto’, e só. Ah, é o ponto de vista da personagem. É, mas parece que a produção ‘passou um pano’ aqui.

Ainda tem mais. Acusada de hipocondríaca, na verdade a prima-dona sofria de uma doença degenerativa, similar à esclerose múltipla, que prejudicou seu corpo, principalmente a garganta; as reclamações dela sobre os sintomas foram menosprezadas pelos médicos ao longo de anos e, finalmente, passou a usar como tratamento um corticoide, substância que pode afetar o coração. Tudo era coroado pelos transtornos alimentares resultantes da ânsia por perder peso e diversas dietas.

Callas, primeira artista retratada na série de filmes de Larraín, agonizou por não conseguir recuperar sua voz, ela era a prima-dona entre as primas-donas e – dela – somente se aceitaria a perfeição. Dá para entender. Já o recorte que apresenta, quase todo o tempo, como insana uma mulher que viveu em um mundo mais machista do que o atual e – apesar de tudo – fez grandes conquistas, é questionável.

E as escolhas foram parecidas nos outros filmes da série. O sobre Jacqueline estampa na tela uma mulher fora de si, com os nervos dilacerados por viver uma tragédia particular de dimensão pública, não se vê uma estrategista ali; já o sobre Diana mostra uma personagem entre momentos maternos e loucos, com uma rebeldia que não convence.

Elenco

Era de se esperar e Pierfrancesco Favino rouba a cena com uma interpretação que se transforma em um dos pontos altos do filme. Não há ator que possa estar tão bem no papel do mordomo que cuida e protege a cantora, enquanto arrasta o pesado temperamento dela pra lá e pra cá. Por sua vez, Angelina está linda, lindíssima, e "Maria Callas” é uma de suas melhores performances no cinema sem sombra de dúvida, tanto que ela concorreu ao Globo de Ouro e foi indicada ao Critics Choice Awards.

Entretanto, quando se fala aqui em ‘melhor’, a comparação é entre a atriz com ela mesma. Ainda falta muito para justificar uma indicação ao Oscar e acho difícil a atuação dela como a prima-dona atrapalhar qualquer nova premiação que Fernanda Torres mereça por “Ainda estou aqui” (2024). E essa conclusão não tem influência do patriotismo que torce por ver a 'Nanda’ virando meme ao posar com a estatueta ganha nas mãos (mas poderia ter).

Enfim, o longa é bem executado, está lindo. Mas não há beleza que absolva o descompasso do filme "Maria Callas” com os dias atuais.

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Filme "Maria Callas"

Cinebiografia, duração 2h03

Direção: Pablo Larraín | Roteiro: Steven Knight | Elenco principal: Angelina Jolie no papel de Maria Callas; Pierfrancesco Favino como Ferrucci; Alba Rohrwacher no papel de Bruna; Kodi Smit-McPhee interpreta o repórter e Haluk Bilginer como Aristotle Onassis.

Clique aqui para conferir as salas e horários das exibições em Curitiba.

Bônus: Imperdível

O filme entra na programação regular do Cine Passeio com ingressos pagos, mas nas sessões matinês (às 10h30) nos dois domingos da Oficina de Música de Curitiba (26 de janeiro e 2 de fevereiro) a entrada será gratuita. Nos mesmos horários e dias, as exibições no Cine Guarani (no Portão Cultural) também são gratuita. A distribuição dos ingressos começa às 10h, por ordem de chegada.

Ainda no domingo (26/1), às 16h30, haverá no Cine Passeio um pocket concerto de óperas de compositores como Giacomo Puccini, Vincenzo Bellini e Giuseppe Verdi e outros que integraram o repertório interpretado por Maria Callas. A apresentação contará com as talentosas sopranos Natália Pascke e Ornella de Lucca, o tenor Alexandre Mousquer e o pianista Jeferson Ulbrich.

Luciana Nogueira Melo

Luciana Nogueira Melo

Jornalista apaixonada por cultura, moda e turismo. Cursou publicidade, letras, um pedaço de artes cênicas e outro de produção cênica. Já trabalhou com publicidade, produção, como locutora e na TV.

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Tags: filmes cultura

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