"Antena que pro céu aponta, capte uma história que a Fafá Conta". É assim que, desde 2015, a atriz e contadora de histórias Flávia Scherner começa seus vídeos e apresentações e cria pontes entre o real e o imaginário, encantando crianças e adultos com o ato de compartilhar histórias por meio da Fafá Conta, canal com mais de 330 mil inscritos. Mas, embora pareça natural hoje vê-la cercada de livros, fantoches e olhares atentos, o caminho até chegar a esse palco teve tantas camadas quanto as tramas que ela narra.
Nascida em Curitiba, filha de uma arquiteta e artista plástica e de um engenheiro mecânico, Flávia cresceu cercada por arte, cor e invenção. As histórias sempre estiveram por perto, lidas em voz alta pelos pais, inventadas pelo avô nas noites de sono, atravessando gerações. Antes mesmo de existir o projeto Fafá Conta, já havia uma menina curiosa, fascinada por livros infantis, teatro, dança e expressões artísticas. “Não era começar do zero, era juntar tudo o que eu já era”, destaca.
Da atriz à contadora
A trajetória profissional começou no teatro curitibano. Na Cia Armadilha, colegas como a atriz Tati Blum e o diretor Diego Fortes perceberam seu talento para unir ternura e presença cênica. Fortes lembra que convidou Flávia para a peça "Café Andaluz" pela “ingenuidade e doçura que contrastavam com o resto do elenco”, qualidades que mais tarde se tornariam marcas da Fafá.
Depois de uma passagem intensa por São Paulo, onde apresentou o programa Zoom, da TV Cultura, Flávia voltou à cidade natal em busca de novos rumos. Foi quando recebeu um convite inesperado de uma amiga: contar histórias no aniversário da filha. O que parecia apenas um gesto afetuoso virou revelação. A contadora de histórias nascia ali — da soma entre o teatro, o design, a literatura e a empatia.
A partir desse retorno a Curitiba — onde encontrou um mercado mais parado e menos oportunidades na área artística — e do convite provocante da amiga, veio o canal Fafá Conta, criado em 2015, com o objetivo de oferecer conteúdo literário de qualidade às crianças da internet. Flávia dirige, edita, roteiriza e cuida de cada detalhe, sempre com o mesmo rigor artístico que aplica em suas apresentações presenciais. Hoje, o canal conta com mais de 330 mil inscritos.
Flávia fala com entusiasmo sobre o que chama de “sementinhas da literatura infantil”. Para ela, uma boa história é tão essencial quanto o alimento: ajuda a formar leitores críticos, sensíveis e curiosos. “Uma criança que cresce ouvindo boas histórias tem mais chance de crescer mais criativa, mais capaz de sentir e pensar o mundo com profundidade”, afirma.
E não se trata de um encantamento ingênuo. Ela escolhe o que conta com critério quase científico — histórias que respeitam a inteligência das crianças, que não infantilizam nem didatizam em excesso. “Procuro aquelas que abrem perguntas, provocam emoção e me dão siricutico pra sair contando”, explica.
Para quem a acompanha, a sensação é de magia — e de alívio. Mariana Leite, mãe curitibana que seguiu as apresentações desde o início da carreira de Fafá Conta, descreve as contrações como uma celebração do próprio percurso de formar uma criança leitora. Ela se reconhece como mãe que sempre incentivou o hábito, mas diz que ver a filha pedindo para estar nos shows e assistir aos vídeos é prova viva de que a semeadura deu certo. “O trabalho da Fafá foi essencial nessa minha jornada de formar uma criança leitora”, resume.
Mariana guarda com nitidez a lembrança da apresentação em formato drive-in na Pedreira Paulo Leminski, em plena pandemia. Naquele momento de vida cultural “confinada, atrofiada”, como ela define, o encontro com a Fafá, mesmo à distância, devolveu ânimo à família. Para a filha, criança na época, ver a contadora de histórias “ao vivo e a cores” tinha a dimensão de um acontecimento mágico, quase a confirmação de que uma personagem inventada existia de verdade. Essa fronteira entre real e imaginário, no caso da Fafá Conta, não é um problema.

Fafá, Flávia e o rastro de afeto
Hoje, a artista divide o tempo entre apresentações presenciais, gravações, cursos on-line e a rotina em casa. É mãe de dois filhos. A maternidade chegou pela adoção, depois de um processo longo e cheio de camadas emocionais. Flávia e seu esposo Alexandre não cresciam como casal com o “plano clássico” de ter filhos, até que uma contação de histórias em um abrigo deslocou sua percepção: diante das crianças, ela se viu capaz de ser mãe de uma delas.
A decisão veio carregada de desejo, mas o caminho exigiu três anos de espera, ansiedade e um aprendizado que nenhum curso preparatório consegue dar por completo. Ao falar desse processo, Flávia costuma admitir o abismo entre teoria e prática: criar vínculo, descobrir o amor de mãe e lidar com as exigências emocionais das crianças, quase sempre justamente nos momentos de maior cansaço, exigiu uma energia que ela mesma não sabia que tinha.
No olhar de Alexandre Cardoso, marido e parceiro de estrada, a fronteira entre a vida e o trabalho se dissolve quando o assunto é contar histórias. Ao lembrar de momentos marcantes, como o primeiro encontro do casal ou a chegada dos filhos no abrigo, Alexandre admite que não conseguiria narrar aquilo como ela narra. “Eu estava lá e me lembro exatamente de como foi, mas não saberia contar a história com a riqueza de detalhes, a entoação e as pausas dramáticas que ela faz. Pra mim, isso mostra como o lado profissional complementa o pessoal, e vice-versa”, admite.
Em casa, ela costuma ser mais Flávia, voltada à rotina, à organização, à escuta dos filhos. Em cena, emerge a Fafá, uma versão luminosa, disponível e brincante. Ou, como define a atriz e amiga Tati Blum, “em cada pedacinho do mundo da Fafá existe muita arte.”
Livros imperdíveis no repertório da Fafá
Como incentivadora da leitura, Flávia recomenda títulos que reconectam adultos e crianças ao poder das histórias. Para adultos, “Como ensinar seus pais a gostarem de livros para crianças” (Alain Serres e Bruno Heitz, Pulo do Gato); para todos, “Menino estrela” (Claire A. Nivola, Baião) e “Todas as pessoas contam” (Kristin Roskifte, Companhia das Letrinhas), que revelam camadas novas a cada leitura. Inclui seus próprios como “Os Entalados” (com a mãe, Solange Ribeiro) e “Dadó e Ranzina” (com Alexandre Rampazo), todos plantando sementes de imaginação e pensamento crítico.
Onde encontrá-la
Flávia também faz questão de estar acessível para quem quer se aproximar de seu trabalho. É possível encontrá-la no canal Fafá Conta Histórias, no YouTube, com contações de histórias em vídeo e projetos especiais, além das redes sociais tanto em seu perfil pessoal quanto profissional, em que divulga a agenda de apresentações, cursos e projetos voltados a famílias, escolas e mediadores de leitura, como o Aldear, e no seu site. Presencialmente, circula por escolas, bibliotecas, teatros, festivais literários e eventos voltados à infância, principalmente em Curitiba, mas também em outras cidades, levando na mala os livros, a voz e a disposição de continuar plantando sementes de literatura infantil por onde passa.