Apresentada como "O maior evento literário do Sul do Brasil", a 1ª Bienal do Livro do Paraná se transformou em objeto de dúvida e preocupação. Depois da promessa de 150 autores (entre eles, diversas celebridade) e dez dias de agenda literária intensa, o evento acabou tendo de mudar de data e de lugar por diversos problemas, inclusive a falta de pagamento à Viasoft, local inicialmente anunciado para a Bienal.
Remarcada para 10 a 19 de outubro, realizada pela Cocar Produções Editoriais, da produtora Lis Alves, a Bienal corre grande risco de terminar bem diferente da promessa. Entre os problemas está a impossibilidade de captação pelas leis de incentivo, já que a produtora e sua dona estão com problemas judiciais e contas bloqueadas no momento.
Os problemas já vinham aparecendo desde o primeiro semestre, com denúncias feitas por ex-funcionários e se acentuaram nos últimos dias, com indícios de mais complicações, desistências e possíveis irregularidades.
Não há patrocínio nem apoiadores
Em março deste ano, ao site PublishNews, Lis Alves afirmou que a Bienal tem apoio das “Secretarias de Cultura, Turismo e Educação, tanto do Estado, quanto do município”. Ao Plural, a assessoria de imprensa da Fundação Cultural de Curitiba (FCC) – órgão responsável pela área no município – respondeu que não existe vínculo ou apoio ao evento; a assessoria da Secretaria de Estado da Cultura do Paraná (Seec) igualmente afirmou que não há qualquer envolvimento.
Conforme o próprio site do evento e suas redes sociais, não existe patrocinador. A única instituição listada como apoiadora é o Sindicato das Escolas Particulares (Sinepe/PR). Ao Plural o sindicato respondeu que "possui apenas apoio para divulgação da Bienal. Não temos detalhes da organização e realização".
Para comparar com outra mostra literária de fora do eixo Rio-São Paulo, a XV Bienal Internacional do Livro de Pernambuco é apresentada pela Lei Rouanet e Petrobras (patrocinadora master), tem como patrocinadores Itaú e Banco do Nordeste, e soma 13 apoiadores (entre eles, SESC, Senac, e as secretarias de educação do Recife e do estado), fora o apoio institucional da Fundação Joaquim Nabuco e parcerias de mídia. Além disso, uma emenda parlamentar direcionou recursos para a iniciativa.
No site oficial, a marca Fever é apresentada como associada e o nome I Bienal do Livro é indicado como “uma licença original © 2025 Fever”. A assessoria de imprensa da empresa afirma que a Fever é somente a plataforma de venda de ingressos.
Projeto da Lei Rouanet com conta bloqueada
Em diferentes momentos, a idealizadora do projeto citou dificuldades relacionadas à captação de recursos por meio da Lei de Incentivo à Cultura (Lei Rouanet) como causa do adiamento da data para outubro (inicialmente a Bienal ocorreria de 29/09 a 5/10). À Folha de São Paulo, Lis Alves justificou que a mudança de endereço foi resultado de depósitos que “entram só final de setembro e parte em dezembro”.
Segundo ela, o Viasoft Experience não aceitou negociar datas de pagamento e, então, a Bienal foi transferida para o Jockey Club do Paraná, no bairro Tarumã.
A Folha, em reportagem de Catarina Scortecci, também revelou que dos mais de R$ 8 milhões aprovados para incentivo do projeto, não há registro oficial de valores incentivados. A novidade é que o orçamento deveria custear a Bienal do Livro não apenas em uma cidade paranaense, mas em três – Curitiba, Morretes e Ponta Grossa –, além de mais um Salão Internacional de Edição, Economia Criativa e Audiovisual.
Ao Plural, Alves falou em julho que havia captado algo entre 10% e 20% do valor total aprovado.
O Plural apurou também que a execução do projeto não está autorizada e os depósitos da captação não podem ser feitos devido ao bloqueio da conta no início de maio. Na plataforma Salic Comparar da Lei Rouanet, consta a observação: “Abertura de conta bancária bloqueada em 07/05/2025. Solicitamos ao proponente que compareça a sua agência de relacionamento e faça a regularidade do cadastro com a apresentação de documentos e assinaturas (...).

Processos na justiça
A regularização solicitada é fácil para uma empresa sem restrições. Contudo, a Cocar e sua única proprietária Elisangela Alves, respondem a 12 processos ativos (metade deles abertos até o ano de 2019, antes da pandemia; e mais cinco arquivados). As ações, em Curitiba, Cascavel, Rio de Janeiro, São Paulo e Campinas, são relativas a causas trabalhistas, pedidos de indenizações por danos materiais, devolução de valores por prestação de serviço não cumprida, prática abusiva em contrato e uma execução fiscal por dívida ativa com o Município de Curitiba.
Os valores envolvidos vão de R$ 2,7 mil a mais de R$ 100 mil. Em alguns casos a Justiça determinou o bloqueio de valores, busca de bens dos executados e penhora de ativos financeiros - entretanto o patrimônio da empresa e da proprietária não foi localizado.
O dinheiro arrecadado com a venda de espaços (estandes) não foi bloqueado pela Justiça porque os depósitos dos pagamentos são feitos em uma conta poupança que está no nome da mãe da coordenadora. A informação divulgada pela Folha foi confirmada pelo Plural em um contrato assinado com expositor.
Lis Alves inclusive sabia que a movimentação dos valores seria difícil e que sua conta bancária estava sendo bloqueada. O Plural teve acesso a um áudio de WhatsApp, no qual ela diz que precisa de um advogado para parcelar dívidas com credores, já sentenciadas pela Justiça, e afirma que os problemas de saúde que enfrentou recentemente agravaram a situação.
“Dentro do possível. Eu preciso de um advogado que tenha bastante agilidade, porque a maioria dos casos já foram sentenciados os valores. Então eu preciso tentar reduzir esses valores na negociação e fazer um parcelamento e resolver, porque eu passei dois anos com problemas de saúde e sem trabalho e sem advogado e sem conseguir. E agora eu estou num projeto muito grande, em que vai entrar valores muito altos na minha conta e eu preciso até tirar algumas informações com o advogado, sobre alguns bloqueios que eles estão fazendo na conta. Então eu quero resolver isso e deixar os valores parcelados para que não haja bloqueio em conta.”
O procedimento de depósitos em conta que não pertence à empresa produtora gerou estranhamento na escritora brasiliense Lella Malta e no proprietário e criador da editora Flyve Lucas de Lucca, que desistiram da participação devido à mudança de data – que agora coincide com parte da agenda da Bienal de Pernambuco – e não conseguiram reaver nem parte do dinheiro pago até agora.
Tenda, banheiros químicos e feira com menos de um terço do tamanho original
O Plural confirmou que houve uma negociação com A Página Distribuidora de Livros, que move um processo contra a Cocar de pouco mais de R$ 82 mil, fora correção monetária; um acordo com cessão de espaço (dois estandes grandes) quitaria a dívida. Entretanto, a empresa está revendo a participação, bem como outras editoras.
Entre as justificativas dos expositores está a diferença brusca entre o que foi oferecido no Viasoft Experience, na Universidade Positivo, e a realidade do evento no Jockey. O endereço anterior tinha espaço coberto, conveniências e conforto para o público, autores e comerciantes de livros.
Com a mudança para o Jockey Club, o comunicado inicial para eles foi que a feira será montada em área aberta, com tendas e banheiros químicos para uso geral. Muitas das editoras e distribuidoras, porém, investiram em estandes construídos e personalizados, pagando por mão de obra especializada (montadoras e arquitetos) e materiais especiais.
O espaço total da Bienal também diminuiu de 11 mil metros quadrados previstos no Viasoft para uma área pouco superior a 3,5 mil metros.
Mesmo assim, com a divulgação de um novo local faltando pouco tempo para o início da programação, há dúvidas se a produção conseguiu todos os alvarás necessários para eventos de grande porte.
Sem garantias dos nomes na programação
Outro ponto que vem criando suspeitas em relação ao evento é a inclusão de escritores na programação sem que a produção tenha confirmado sua presença - e, em pelo menos um caso, a divulgação parcial de um nome que pode gerar confusão no público. A Bienal vem divulgando a participação do "Prof. Dr. Galindo" - o sobrenome não vem acompanhado de um primeiro nome. A situação gerou desconforto ao escritor, tradutor, doutor e professor da Universidade Federal do Paraná (UFPR), Caetano Galindo. Ele precisou usar suas redes para comunicar que não é o "Galindo” citado. Lis Alves disse à Folha que o convite foi feito para Rogerio Galindo, coordenador do Plural, mas isso também não é verdade. Rogerio não recebeu tal convite. Mesmo assim, o nome Galindo continua listado na programação.
Situação parecida é a da escritora Luci Collin. Ela recebeu um convite há meses e diz nunca mais ter sido procurada pela produção, nem por e-mail ou mensagens. Semana passada, descobriu que seu nome foi amplamente divulgado na programação e solicitou que fosse retirado imediatamente. No momento, ela continua no site, redes e em release enviado para a imprensa na última sexta-feira (19/09).
Raphael Montes, que também apareceu entre as personalidades esperadas pelos visitantes, avisou que não participará do evento. O nome dele foi retirado das divulgações.
Vários autores e autoras que estão na lista foram procurados pela reportagem. Entre as respostas surgiram afirmações como “eu não lembro se vou para essa Bienal", faltando pouco mais de duas semanas para o início das atividades. Alguns escritores, inclusive famosos, responderam que estão com a data reservada para o evento, porém que ainda não assinaram contratos e não receberam adiantamentos, pagamentos ou passagens aéreas por enquanto. Algumas estrelas do mundo literário preferiram não responder.
O quadro é completado pelas divergências dentro da própria divulgação. Ao comparar releases com o site e com as redes sociais, escritores aparecem em um canal oficial e noutro não. MV Bill, Mia Couto, José Castello, Jeferson Tenório, Natalia Timerman, Ronaldo Correia de Brito, Bruna Beber e Frei Betto são alguns deles.





Comentários no Instagram sobre datas trocadas; cancelamento de presenças; e desencontros na programação.
Programação ambiciosa
Claramente, a proposta é muito ambiciosa. Nos bastidores do mundo literário, existem críticas pela falta de cuidado ao selecionar nomes e temas afins, e pela linha curatorial com foco em estrelas internacionais e figuras midiáticas, desvalorizando prestígio literário e identidade regional.
Entre os famosos apresentados como confirmados, alguns estarão também na Bienal que acontece em Recife-PE. Exemplos são Itamar Vieira Junior, Micheliny Verunschk, Jeferson Tenório, Aline Bei, Ian Fraser, Natália Timerman e Mia Couto.
Também estão anunciados para o evento em Curitiba Carpinejar, Pedro Bial, Thalita Rebouças, Bruna Lombardi, Daniel Munduruku, José Eduardo Agualusa, Paula Pimenta, Marco Lucchesi e Miriam Leitão, entre outros. Resta saber quem realmente vem. A produção não respondeu à reportagem sobre convidados confirmados, contratos e alterações na agenda, nem sobre quais editoras ou distribuidoras estão confirmadas.
Editoras e distribuidoras confirmadas
O Plural apurou que as prováveis expositores são: Livrarias Curitiba, Editora Vozes, Paulus, Paulinas, Loyola, Ciranda Cultural, Coerência, A Página, All Print, Lummus, Aquarela, Fraternidade, Universo, Pé da Letra, Boralê, Exposão Criativa, Fusão dos Livros, Travessa Literária, Imagine Decore, Reserva, Ases Literária, Ases, Ageac, Saluki Escritores, SJP Leitura, Eficiente, Suard SorianaeF, GAEB, Piovesan, Greys, Mater, Verbi, Teteia, Boneca, Black Bird, Ideia Jogos Pedagógicos e Magic Kids, além da própria Cocar.
A reportagem também teve acesso a materiais que indicam preço médio de R$ 1 mil por metro quadrado de estande, com total de vendas estimado entre R$ 1 milhão e no máximo em R$ 2 milhões. Essa é a principal fonte de recursos da Bienal, junto com a venda de ingressos.
Reclamações do edital para autores independentes
Em 2024, a Bienal do Livro do Paraná lançou um edital para a participação de autores independentes em mesas. No início deste ano, o e-mail para envio dos livros para análise mudou. O Plural recebeu reclamações sobre falta de transparência no processo, sem divulgação do resultado, e informações desencontradas. Um credenciamento para escritores e profissionais da área (entre outros) está anunciado no Instagram, com abertura 15 dias antes do início das atividades, sem relação com o edital.
Ingressos e devoluções de valores pagos
Lis Alves afirmou na reunião de 25 de julho que, desde o início da comercialização, 10 mil ingressos foram vendidos. Isso significa que uma média de mais de mil entradas por dia, pois a venda iniciou em 17 de julho, conforme post no Instagram.
No site da plataforma de venda de ingressos consta a seguinte informação: “Para este evento, todas as vendas são definitivas e os ingressos não podem ser reembolsados, alterados ou modificados.” A Fever respondeu que “considerando o contexto [mudança de endereço e confirmações parciais], ofereceremos reembolso aos usuários que optarem por essa alternativa. Eles podem entrar em contato diretamente com a nossa equipe de atendimento ao cliente para solicitar o reembolso".
O número atual de ingressos vendidos não foi confirmado pela prestadora de serviço, que por cláusula contratual não pode informar dados do gênero.
Relembre o início do caso
O primeiro projeto da Bienal do Paraná aprovado na Lei de Incentivo à Cultura (Lei Rouanet) foi arquivado em março. Como noticiado pelo PublishNews à época, Lis Alves estava à frente da organização e curadoria do projeto, que tinha como produtoras Bia Reiner e Camille Bittencourt, profissionais com vários trabalhos no segmento cultural de Curitiba. Bittencourt deixou o posto em setembro de 2024, por motivos como falta de pagamentos acordados, entre outros. O problema é que a proposta foi enviada ao sistema da Lei no dia 12 de novembro de 2024, com os dados e currículo dela ainda na função de coordenação. Ao PN, Bittencourt afirmou que não autorizou nem sabia do fato. A informação foi notificada ao Ministério da Cultura e resultou no arquivamento.
As baixas na equipe não pararam. Fontes relataram à reportagem que pelo menos seis curadores participaram em momentos diferentes, além da própria Alves. Em 2024, foi divulgado o nome do argentino Octavio Kulezs, fundador e diretor da editora eletrônica Teseo; em 25 de julho de 2025, durante reunião na redação deste jornal, a produtora afirmou que Rogério Pereira esteve na função, mas se afastou alegando problemas de saúde. Outros três saíram ao notar os indícios de desorganização, com chances de complicações sérias e cancelamento. No site oficial, não há informações sobre a curadoria nem nomes dos responsáveis.
Respostas
O Plural entrou em contato novamente com Lis Alves, ela afirmou que responderia às perguntas. A coordenadora da Bienal do Livro do Paraná não retornou na data acordada, nem até a publicação desta reportagem. O espaço está aberto para pronunciamentos.